O futuro da Força Aérea Argentina está na Rússia ou na China

Por PEDRO PAULO REZENDE

Depois de receber reiteradas recusas de fornecedores ocidentais, a Força Aérea Argentina iniciou um processo de aproximação com a Federação Russa. Segundo o site Infodefensa.com, o comandante da Força Aérea Argentina, Brigadeiro-Major Xavier Isaac, se reuniu, no dia 19 de janeiro, com o embaixador russo no país, Dmitry V. Feoktistov, para discutir, no dia 19 último, as perspectivas bilaterais de cooperação técnico-militar entre os dois governos. As ofertas russas incluiriam a possibilidade de transferência parcial de tecnologia e estabelecimento de centros de produção e manutenção para a venda de aviões de instrução e de combate aéreo e helicópteros de transporte médios. A Fábrica de Aeronaves Argentina Brigadeiro San Martín seria responsável pela montagem dos aparelhos. Entre as ofertas, foram incluídos aviões Yakovlev Yak-130, de treinamento e ataque leve, e caças Sukhoi Su-30MK, RAC MiG-29M2 e RAC MiG-35. Além disto, a embaixada colocou a possibilidade de venda de helicópteros Mi-171Sh.

O preço de aquisição dos aviões russos é extremamente atrativo. Os Su-30Mk podem ser vendidos pela IRKUT por preços próximos a US$ 50 milhões. A RAC-MIG oferece caças MiG-29M2 a 40 milhões. Os novos MiG-35, que começam a ser incorporados na Força Aérea da Federação Russa, custam, no mercado internacional, US$ 45 milhões. Se aceita, a oferta recolocaria a Força Aérea Argentina em posição destacada no panorama da América Latina. A eficiência dos caças mais recentes da linha Sukhoi e dos novos modelos da RAC-MiG foi reconhecida pelo mercado. Os Su-30 formam o elemento principal das forças aéreas de Angola, da China, da Índia e da Venezuela, entre outros países. Os caças MiG-29M2 foram adquiridos pelo Egito. Uma resposta positiva significaria o fim de um embargo não declarado dos países alinhados com os Estados Unidos contra a República Argentina que impede a aquisição de aviões de combate modernos e peças de reposição originais.

Falklands/Malvinas

Tudo começou em 2 de abril de 1982, quando fuzileiros navais argentinos invadiram o arquipélago das Falklands/Malvinas com o objetivo de expulsar os britânicos, que ocuparam as ilhas em 1833 (leia mais aqui). O ato foi uma tentativa desesperada da Junta Militar — que derrubou o governo de Maria Estela Perón em 1976 — de mobilizar a população do país e garantir a sobrevida do regime. O resultado foi uma derrota acachapante que deixou clara a vulnerabilidade de forças armadas latino-americanas diante de unidades de países do primeiro mundo. Durante os combates, as forças do Reino Unido receberam maciço apoio dos Estados Unidos e dos países da aliança ocidental, principalmente em inteligência e suprimentos militares (leia mais aqui).

A derrota nas Falklands/Malvinas foi determinante para a derrubada do regime, que entregou o poder a Raúl Alfonsín, eleito democraticamente, em 10 de dezembro de 1983. O papel do Exército Argentino no confronto foi sofrível. O Estado Maior argentino empregou suas melhores forças (equipadas com blindados) para derrotar 82 fuzileiros navais britânicos. Depois da conquista, retirou quase todas as tropas profissionais para substituí-las por cerca de 10 mil homens com apenas dois meses de treinamento. Os soldados vieram da Província de Corrientes e não estavam acostumados ao frio intenso das Falklands/Malvinas.

Não faltou coragem aos recrutas, mas os oficiais mostraram seu total desconhecimento da guerra moderna. A estrutura de comando e controle implodiu. A logística era sofrível. Quando os britânicos chegaram a Port Stanley, encontraram agasalhos e uma fartura de alimentos, inclusive grandes estoques da famosa carne argentina, enquanto as tropas na linha de frente morriam de fome e frio. Nesta catástrofe, que causou a queda do regime em 1983, restou um consolo para o orgulho nacional ferido: o excelente desempenho da Força Aérea, que conseguiu mostrar grande bravura e causar pesadas perdas ao inimigo em ataques quase suicidas.

A este fator externo é preciso adicionar outro aspecto: durante os anos em que controlou a Argentina, a Junta Militar impôs uma política de erradicação das esquerdas, o que se convencionou chamar de Guerra Suja. Estima-se que mais de 20 mil argentinos foram exterminados por esquadrões da morte comandados por oficiais das Forças Armadas. Com o fim da ditadura, além de perder um conflito externo, os militares saíram desmoralizados de um conflito interno.

Mesmo depois da derrota, os militares argentinos procuraram embasar os programas de reequipamento de suas forças armadas em fornecedores europeus, israelenses e norte-americanos. As tentativas não trouxeram nenhum resultado concreto em virtude das pressões da Grã-Bretanha junto aos seus aliados, impondo aos argentinos um processo inexorável de sucateamento de suas forças Armadas (leia mais aqui).

Hoje, a Força Aérea Argentina não possui nenhum caça supersônico para proteger seu espaço aéreo. Os caças Dassault Mirage 50, de fabricação francesa, e Israel Aerospace Industries Dagger, israelenses, que mostraram seu valor nos combates de 1982, foram desativados em 29 de novembro de 2015, depois de mais de 30 anos de uso. Os principais meios de superfície da Armada, os contratorpedeiros MEKO 360, não podem navegar em velocidade máxima em função de problemas de manutenção das turbinas Olympus, de fabricação britânica. Como se não bastasse, um de seus submarinos, o ARA San Juan, sofreu um acidente fatal em 15 de novembro de 2017, com a perda de toda a tripulação (44 homens e mulheres).

Relações carnais

Durante os dez anos de governo de Carlos Menem (1989-1999), a Argentina buscou se aproximar dos Estados Unidos. A chancelaria seguiu um total alinhamento com o Departamento de Estado norte-americano. Batizada de Política de Relações Carnais resultou no sacrifício de programas estratégicos importantes, como o do míssil balístico/lançador de satélites Condor II, um dos poucos equipamentos militares em desenvolvimento que poderiam ameaçar a presença militar britânica no arquipélago das Falklands/Malvinas.

Em troca, o então presidente solicitou a venda de 12 caças Lockheed-Martin F-16C/D. O governo estadunidense não aceitou e propôs uma alternativa: modernizar os aviões de ataque subsônicos A-4M Skyhawk remanescentes para um padrão exclusivo, o A-4R Fightinghawk, equipados com radares APG-68 desenvolvidos para modernizar os F-16. Estes aparelhos continuam como os principais aviões de combate da Força Aérea Argentina.

Em seu desejo de ampliar os laços com os Estados Unidos, Menem foi além e transformou o dólar americano em moeda nacional, uma medida que desorganizou a economia definitivamente. Como as reservas nacionais não foram suficientes para bancar a política monetária, ele voltou atrás, mas o peso jamais se recuperou deste golpe. Com o fracasso da Política de Relações Carnais, os governos subsequentes se afastaram dos Estados Unidos. Sem dinheiro, o país sofreu um processo de hiperinflação e destruição da base industrial, um quadro que não favorece investimentos militares.

Em busca de pechinchas

Sem desistir de uma opção ocidental, a Argentina tentou ir às compras no mercado de usados para renovar sua força aérea. Em 2012, namorou caças israelenses Kfir C-10 (ao custo unitário de US$ 22 milhões), rejeitados pela Força Aérea Brasileira em 2002 em função do alto grau de corrosão das células (leia mais aqui). A proposta foi retirada pelo fabricante sem qualquer explicação. A segunda tentativa visou caças Dassault Mirage F1 do Exército do Ar espanhol. Recém-modernizados, com um radar repotenciado, datalink e uma suíte de guerra eletrônica de primeira linha. Ao preço unitário de US$ 20 milhões, parecia uma opção atraente. O entusiasmo dos nossos vizinhos durou pouco. O governo da Espanha comunicou que só poderia fornecer os aviões sem os equipamentos em função das imposições britânicas.

Espanha e Reino Unido apenas se suportam. Madri, até hoje, não engoliu a cessão forçada de parte de seu território, Gibraltar, em 1713. Mesmo assim, não vendeu os aviões para a Força Aérea Argentina em função dos compromissos que assumiu junto à Aliança Atlântica. Em 2013, surgiu uma possibilidade diferente: um caça sino-paquistanês, o JF-17 II Thunder.

Uma comitiva argentina acompanhou o Dubai Airshow e viu de perto a primeira demonstração internacional do avião. Em conversas não oficiais com os paquistaneses, descobriu que o custo do aparelho, cerca de US$ 25 milhões, estava de acordo com o tamanho da magra carteira da República Argentina. Depois do evento, os pilotos sul-americanos pediram (e conseguiram) acesso ao equipamento. Um deles chegou a voar nele. A impressão foi bastante positiva.

Com bastante discrição, iniciou-se um processo de negociação entre os três países. Um ano depois, uma segunda comitiva seguia para Karachi, Paquistão, para realizar mais testes e formalizar o requerimento. Ao chegar aos Emirados Árabes Unidos, o grupo foi chamado de volta inesperadamente. Ao retornar a Buenos Aires os oficiais foram surpreendidos com uma segunda proposta da IAI para os Kfir C-10.

O antigo amor dos pilotos argentinos pela proposta israelense não era mais o mesmo. A Colômbia comprara um lote de 12 Kfir C-10 (leia mais aqui) e perdeu três deles por problemas técnicos (todos foram repostos pela IAI, mas a disponibilidade é baixa: cerca de 50% da frota). As negociações foram encerradas com o fim do governo de Cristina Kirchner e a posse de Mauricio Macri na Presidência, o reequipamento da força aérea caiu para segundo plano até 2017, quando a Korea Aerospace Industries (KAI) fez uma oferta para a venda de 12 aviões FA-50 Fighting Eagle, uma versão de combate do avião de treinamento avançado T-50, ao custo unitário de US$ 35 milhões. As discussões prosseguiram com o governo de Alberto Fernandez e pareciam promissoras.

O FA-50 pode servir como um caça de segunda linha e não colocaria em risco os interesses britânicos no Atlântico Sul. Qualquer ilusão terminou quando, em 28 de outubro passado, um alto funcionário da Korea Aerospace Industries (KAI) disse ao embaixador da Argentina na República da Coreia que o FA-50 não pode ser exportado devido ao embargo de armas do governo do Reino Unido ao país. Como Gerente Sênior e Chefe KAI do Departamento de Estratégia de Negócios Internacionais, Martin Chun, observou em sua carta ao Embaixador Alfredo Carlos Bascou, que o FA-50 inclui seis componentes principais que vêm do Reino Unido. Diante disto, recomeçaram as especulações a favor de novas fontes de suprimentos para as Forças Armadas Argentinas.

Voltam os chineses

Em função de mais uma recusa, a proposta sino-paquistanesa para a venda de caças JF-17 Block III Thunder voltou ao cenário. Em artigo publicado no site Pucara.org, o jornalista Santiago Rivas questionou o negócio. Segundo ele, a aquisição dependeria de um possível alinhamento com a República Popular da China, o que não corresponde à verdade. Ele alegou que a Argentina solicitou a aquisição de caças J-10 Fighting Dragon, mais avançados, e que a compra foi recusada em função da opção preferencial do país platino pelo Ocidente. O motivo foi completamente diferente.

O J-10 ainda não dispõe de um motor nacional confiável e emprega uma variante do Lyulka AL31F russo. O motor WS10, um desenvolvimento chinês a partir do núcleo do CFM 56 (mesma base do General Electric F101, empregado no bombardeiro B-1 Lancer), ainda não está plenamente desenvolvido para uso monomotor. Alguns esquadrões da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo equipados com o J-10C o empregam em campanhas de homologação, mas o esforço ainda não foi terminado.

A República Popular da China não tem a licença necessária para exportar o J-10 com motores AL31, por isto, ofereceu o melhor caça para exportação que possui. O JF-17 Block III é superior em todos os sentidos ao FA-50 coreano. Equipado com um motor russo Klimov RD 93 (um desenvolvimento do RD 33 empregado nos MiG-29M2 e 35), dispõe de um radar extremamente avançado com antena de varredura eletrônica ativa (AESA). Entre as armas disponíveis estão mísseis SD-10, com alcance superior a 100 km.

A comunabilidade de motores poderia dar origem a uma composição de aviões de combate mais capazes (high) com mais simples (low), com o MiG-35 formando o elemento superior. Este mix levaria a dilapidada Força Aérea Argentina a outro patamar no panorama latino-americano.

Em seu artigo, Rivas questionou a confiabilidade do fornecimento de suprimentos de peças por parte de chineses e russos. Nos tempos soviéticos, a questão do alinhamento ideológico realmente influenciava neste aspecto. Hoje, isto não é mais verdade. Países díspares, como Angola, Egito e Índia, operam aviões russos com disponibilidade da frota superior a 70%. O mesmo pode ser dito de equipamentos chineses, como Nigéria e Paquistão demonstram.

Por último, cabe uma sugestão: para suprir as deficiências do WS10, a Argentina poderia negociar com a Rússia o fornecimento de caças J-10 com motores Lyulka junto com um lote de caças Sukhoi Su-35S. Esta combinação transformaria a Força Aérea Argentina na mais poderosa do subcontinente, superando os caças Gripen E/F brasileiros e os F-16C/D chilenos.

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