Sucatas perigosas

Por PEDRO PAULO REZENDE

Em 2002, meses antes da eleição que levou Luiz Inácio Lula da Silva ao governo, o tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista recebeu uma comitiva da Israel Aircraft Industries (IAI). O processo de aquisição de 12 novos caças pela Força Aérea Brasileira, na época conhecido como F-X, encontrava-se em momento conturbado. A Dassault, em associação com outros grupos franceses, comprara 20% do capital da EMBRAER, dando uma virada no programa.

Em 1997, a empresa estava bastante próxima da SAAB e defendia a aquisição de aviões de caça Gripen A/B. Maurício Botelho, presidente da companhia, chegou a fazer uma apresentação em Powerpoint ao Alto Comando da FAB intitulada Gripen, a solução sueca para o Brasil. Com base nessa apresentação, a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), interessada em apoiar os interesses da EMBRAER, direcionou todo o processo de aquisição para a versão C/D do Gripen, que ficaria pronta em 2003.

Com a entrada da Dassault, o jogo mudou. Botelho iniciou um forte lobby junto ao Congresso a favor do caça francês Mirage 2000-5. A IAI tentou tirar proveito deste quadro confuso. Prevendo que a situação de impasse entre COPAC e EMBRAER causaria uma demora, ofereceu de 24 a 36 caças Kfir C-10. O projeto foi desenvolvido a partir do Mirage 5. A principal alteração foi a troca do motor original, um SNECMA ATAR 9C, por um General Electric J79 americano, derivado do turbojato empregado no caça McDonnell F-4E Phanton, amplamente usado na Guerra do Vietnã.

A proposta tinha o endosso do major-brigadeiro da reserva Lauro Ney Menezes, o primeiro piloto de caça supersônico da FAB. Ele participou ativamente da escolha da Dassault como fornecedora da primeira frota moderna de aviões de combate do país e coordenou o treinamento de oficiais para a formação da 1ª Ala de Defesa Aérea, hoje 1° Grupo de Defesa Aérea. O então comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, comprou a ideia contra a vontade da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC) e convocou uma entrevista coletiva para anunciá-la.

Os Kfir C-10 receberiam uma revisão de células e motores e um novo e promissor radar, o ELTA EL/M-2032 de varredura eletrônica. A mudança radical de rumo causou uma reação do então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), embaixador Sérgio Amaral, que deixara a Embaixada do Brasil em Londres para assumir a pasta. Durante sua missão diplomática, ele participara ativamente das negociações com os suecos. Ele convocou uma coletiva no auditório do órgão para que os executivos da SAAB apresentassem os benefícios do Gripen para o Brasil.

Baptista, enquanto isto, não ficou parado. Ordenou o envio de uma comitiva a Israel para analisar as células disponíveis para conversão. O resultado da visita foi péssimo para suas intenções. O grupo voltou horrorizado com o alto estágio de corrosão dos aparelhos. Apesar disto o então comandante da Aeronáutica ordenou o prosseguimento das negociações, que só foram interrompidos com a passagem do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso para Luís Inácio Lula da Silva.

A teimosia de Baptista atrasou o programa de aquisição de uma aeronave de combate moderna para o Brasil. O F-X passou por uma fase intermediária (jocosamente batizada pela imprensa de FX-1.5), quando todos os integrantes apresentaram propostas melhores, e foi encerrado em 2005 para ser retomado em 2008 como FX-2. A decisão final só foi tomada em 2013 com a escolha do Gripen E/F, um avião completamente novo.

Para cobriu o gap causado pela aposentadoria dos Mirage IIIE Br, a FAB adquiriu doze células usadas de Mirage 2000C/D do Exército do Ar da França. O modelo foi retirado de serviço em 31 de dezembro de 2013. Os Kfir C-10 rejeitados pelo Brasil foram adquiridos pela Força Aérea Colombiana, que adquiriu 12 unidades. Deste total, três foram perdidas em acidentes. A IAI repôs cada uma delas.

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