Amigos de verdade: a Argentina precisa novas parcerias

Pedro Paulo Rezende

A decisão do Reino Unido de explorar petróleo no arquipélago das Falklands/Malvinas, uma área contestada com a Argentina, deveria servir de alerta para que o governo do presidente Mauricio Macri buscasse novas parcerias fora do eixo comandado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Hoje, Buenos Aires não tem qualquer capacidade de reagir aos atos unilaterais impostos pelo governo britânico, mas o governo e a diplomacia platina não buscam parcerias alternativas para sair de seu quadro de impotência completa.

A invasão das Falklands/Malvinas pela ditadura militar argentina, em 2 de abril de 1982, trouxe problemas graves para o país. A derrota para as forças britânicas, confirmada pela rendição do governador-militar para o arquipélago, Mario Benjamín Menendéz, em 14 de junho de 2012, resultou na decretação de fato de um embargo do bloco ocidental, o que frustra as tentativas de reequipamento de suas Forças Armadas. Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França e Israel não fornecem suprimentos ao material adquirido e em uso e não oferecem alternativas para substituição de equipamentos completamente obsoletos, que oferecem mais riscos aos tripulantes que a um possível adversário, como a perda do submarino ARA S-42 San Juan, em 15 de novembro de 2017, comprova.

Os custos de manutenção das frotas atuais de terra, mar e ar são cada vez mais altos. O país, hoje, não tem nenhum avião de combate supersônico e depende de velhos A-4M Skyhawks para o controle de seu espaço aéreo. Por falta de suprimentos, os contratorpedeiros da Classe Meko 360H2, que já causaram inveja às marinhas do continente, mal saem do porto. O passado mostra que as melhores parcerias podem vir de onde menos se espera, como veremos a seguir, apesar disto, o governo argentino ainda resiste à busca de novas parcerias que quebrem o completo marasmo e o sucateamento completo de seu aparato militar.

Parceria improvável

O ano de 1982 começou conturbado. As Forças Armadas da República Argentina estavam em situação de guerra fria com a República do Chile em função de um contencioso sobre a posse de sete ilhas no Canal de Beagle, ao sul da Terra do Fogo. As partes chamaram o Vaticano para mediar a crise. O laudo papal, entregue em 1977, atendia à reivindicação chilena e não foi aceita pela Junta Militar argentina. A questão só foi resolvida depois da redemocratização em um plebiscito que endossou a proposta de sua santidade.

As relações com o Brasil durante o governo de Ernesto Geisel também eram tensas. Os militares argentinos desenvolviam armas nucleares que visavam conter nossa influência no continente. As relações de Brasília e Assunção não podiam ser melhores: os presidentes João Figueiredo e Alfredo Stroessner se preparavam para inaugurar a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a maior da América Latina.

Contam no Itamaraty, que a usina fora criada como arma de dissuasão. Que o antecessor de Figueiredo no Palácio do Planalto, sede do governo, Ernesto Geisel, ao ser informado pelo seu ministro das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, do programa de criação de armas de destruição em massa de Buenos Aires teria respondido:

— Que os argentinos desenvolvam sua bomba atômica. Iremos afogá-los com nossa bomba de água!

Paralelamente, Geisel firmou um Acordo Nuclear com a República Federal da Alemanha para a compra de quatro usinas para o fornecimento de energia e de uma planta de enriquecimento de urânio utilizando um método experimental e que não se provou economicamente viável.

Para conter a ameaça de Itaipu, os argentinos decidiram colocar em uso o acordo firmado com o Paraguai para a construção de uma usina, Corpus Christi, à vazante do Rio Paraná (que nunca saiu do papel). O clima era tenso e os diplomatas dos dois países, em Brasília e Buenos Aires, brincavam perguntando:

— Quando teremos a nossa guerra?

Hoje, os dois países estão integrados em um bloco econômico, o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e coordenam suas políticas de desenvolvimento atômico por meio da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares(ABACC), sediada no Rio de Janeiro, mas o que determinou esta virada? A resposta está no escancarado apoio que a Argentina recebeu do governo brasileiro durante a invasão das Falklands/Malvinas, mas duas medidas importantes foram tomadas antes da guerra para ajudar a desanuviar o clima entre Brasília e Buenos Aires: o Acordo Tripartite Itaipu-Corpus, de 1979, assinado por Brasil, Argentina e Paraguai, e o Acordo de Cooperação para o Desenvolvimento e a Aplicação dos Usos Pacíficos da Energia Nuclear, firmado em Buenos Aires em 17 de maio de 1980.

Planos atropelados

A Argentina planejava invadir o arquipélago no verão de 1984. A política de austeridade de Margareth Thatcher previa o virtual desmonte da Marinha Real com a venda de seus dois porta-aviões, o HMS Invincible, para a Austrália, e o HMS Hermes, para a Índia. Curiosamente, o plano também previa o oferecimento de um navio desembarque doca, o HMS Fearless, para a Armada da República Argentina. Buenos Aires, simultaneamente, desenvolvia, com o apoio da Alemanha, um programa ambicioso de modernização de suas força navais, com a aquisição de seis contratorpedeiros da classe MEKO 360H2, de seis corvetas MEKO 140 e de quatro submarinos convencionais da TR1700.

Os planos de invasão foram acelerados por razões meramente políticas. As Forças Armadas da República Argentina, antes de invadirem as Falklands/Malvinas, tinham declarado guerra contra a própria população. Trinta mil pessoas foram mortas por discordarem dos rumos tomados pelo país depois da tomada pelo poder pelos militares em 24 de março de 1976, com a derrubada da presidente Isabelita Perón. O chamado Processo de Reorganização Nacional destruiu os sindicatos e abriu o país às importações, dentro do receituário liberal defendido pelo Fundo Monetário Internacional.

Ao contrário do que ocorreu em outras ditaduras militares do continente, como Brasil e Chile, a Argentina teve um processo tumultuado com inúmeras quarteladas até a redemocratização. Entre o início do regime ditatorial e o seu final, em 1983, quatro oficiais-generais ocuparam a Casa Rosada. A soma de receitas econômicas liberais, desmonte dos sindicatos e a repressão sangrenta tornaram o governo extremamente impopular. Para ganhar fôlego, o chefe da junta e presidente de facto da república, Leopoldo Galtieri, decidiu antecipar os planos de invasão, com resultados desastrosos.

A diplomacia argentina apostou em um fait accompli. O Reino Unido, dentro da avaliação da junta militar, não se mexeria para retomar uma colônia distante. Não podia estar mais errada. Margareth Thatcher enfrentava forte oposição interna e se aproveitou da invasão para alavancar sua popularidade. A derrota nas Malvinas causou a queda do regime ditatorial, mas a economia sofrera golpes importantes e até hoje não se recuperou.

O amigo brasileiro

Apesar do clima de distensão entre Buenos Aires e Brasília, a resposta brasileira ao conflito foi inesperada: o governo de João Figueiredo permitiu que armas adquiridas pela Argentina, provavelmente de origem líbia, fluíssem para um país em guerra. Os aviões passavam pelo Aeroporto de Guararapes, em Recife, e seguiam para Buenos Aires depois de reabastecerem. Para os britânicos o país usou a força da lei internacional e interceptou e internou um bombardeio Vulcan no Rio de Janeiro em 3 de junho de 1982.

O aparelho partiu da ilha de Ascensão — colônia do Reino Unido, onde os Estados Unidos mantêm uma base desde a Segunda Guerra Mundial. No percurso até a zona de conflito, estavam previstos dois encontros com aviões-cisternas da Força Aérea Real, mas uma falha na sonda de reabastecimento frustrou a missão. O piloto declarou situação de emergência e pousou no Aeroporto do Galeão sob escolta de dois caças F-5E Tiger. O bombardeiro e sua carga, um míssil antirradar Shrike, só foram devolvidos depois da rendição argentina, em 14 de junho de 1982.

No solo, as autoridades brasileiras descobriram que o míssil estava armado e poderia, inadvertidamente, ter causado uma tragédia. O piloto tentou alijá-lo em alto mar, mas o dispositivo de lançamento falhou por um mau contato. Poderia, acidentalmente, ser disparado e atingir um dos inúmeros radares do Aeroporto do Galeão.

O Brasil foi mais além: emprestou dois aviões P-95 Bandeirulha e 11 aviões de ataque leve AT-26 Xavante para a Força Aérea Argentina. Dois dos três aviões de patrulha Lockheed P-2E Neptune que usava saíram de serviço por excesso de uso. Para manter a vigilância sobre a esquadra britânica seria necessária uma medida de exceção e a Força Aérea Brasileira resolveu aceitá-la: enviou as aeronaves e tripulantes capazes de operá-las, uma vez que não havia tempo suficiente para treinar argentinos para a missão.

Oficialmente, as tripulações brasileiras realizaram apenas um ciclo de treinamento intensivo para adestrar seus colegas argentinos. Em realidade, os aviões decolavam com apenas dois oficiais platinos a bordo que estavam encarregados das comunicações, um copiloto e um técnico em eletrônica.

Diante do exemplo dado pelo Brasil e do quadro de sucateamento imposto pelo embargo ocidental às forças armadas platinas não seria a hora de Buenos Aires buscar outras parcerias? É importante lembrar que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ofereceu apoio no conflito, fornecendo fotos de satélites e equipamento militar para os militares argentinos.

Novos parceiros

Hoje, os chineses já colocaram corvetas e aviões de caça JF-17 na mesa de negociação. A Rússia propôs aviões de combate MiG-29M. São aviões de quarta geração capazes de suprir as necessidades operacionais da Força Aérea Argentina, de baixo custo e operacionais. Ambos estão equipados com o mesmo motor, o RD-93, de fabricação russa e conhecido por sua confiabilidade, e radares de varredura eletrônica ativa (AESA). Paralelamente, possuem baixo custo de aquisição e operação. Um JF-17 pode ser adquirido por US$ 25 milhões e um MiG-29M por US$ 50 milhões. Além disto, podem ser adquiridos em sistema de barter (uso indireto de moeda nacional). Os dois países são sensíveis às justas reivindicações territoriais de Buenos Aires (leia mais aqui: https://wordpress.com/page/arsenal-geopolitica-defesa.com.br/86), ao contrário da OTAN e de Israel, que defendem a soberania britânica nas Falklands/Malvinas. Apesar disto, Buenos Aires continua mendigando, sem qualquer resultado prático, junto aos parceiros tradicionais.

O Brasil já mostrou no passado: os melhores amigos aparecem nas horas inesperadas e de onde menos se espera. Não chegou a hora de relembrar as velhas lições?

Bibliografia

BARTHELMESS, E. As relações Brasil-Argentina no aniversário da Declaração do Iguaçu. Cadernos de Política Exterior, v. 3, p. 27–43, 2016.

DESTEFANI, L. Malvinas, Georgias y Sandwich del Sur ante el conflicto con Gran Bretaña. Buenos Aires, 1982

FAJARDO, JMC. Acordo Tripartite Itaipu-Corpus: ponto de inflexão entre a disputa geopolítica e a política de cooperação. Porto Alegre, ‎2004;

SUNDAY TIMES INSIGHT TEAM, The Falklands War, Londres, 1982;