O BRICS mostra seu alcance

Por PEDRO PAULO REZENDE

A 15ª Reunião de Cúpula do BRICS, marcada para 22 de agosto, será histórica. Os cinco países integrantes do bloco — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — decidirão a adesão de novos sócios entre outros temas importantes, como a institucionalização do organismo, ainda hoje informal e sem uma estrutura fixa. No total, há 19 nações candidatas localizadas na África, nas Américas e na Ásia. Este processo se insere no que a mídia começa a chamar de BRICS Plus. Em verdade, os países candidatos já se beneficiam das ações atuais do grupo (leia mais aqui) por meio de mecanismos de financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado em 2014, durante a 6ª Reunião de Cúpula, em Fortaleza, Ceará. Esta atuação coordenada dos sócios da organização em ambiente extrabloco criou um neologismo: o BRICS Outreach.

O BRICS Outreach impacta o entorno de cada um dos países membros por meio das ações políticas e econômicas do bloco. Outra área de atuação está em ações concertadas junto a organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), onde os cinco sócios atuais atuam na defesa intransigente de uma reforma do Conselho de Segurança, com a ampliação do número de membros permanentes de cinco (por ordem alfabética, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) para sete integrantes. Somar-se-iam aos quatro grandes representantes para a África (provavelmente África do Sul ou Egito); América Latina, (Brasil), e Ásia (Índia).

Teia de benefícios

Em termos econômicos, os investimentos promovidos pelo BRICS nos países membros aceleram o crescimento das nações vizinhas. Um bom exemplo está nos projetos firmados entre Brasil e China na recente visita do presidente Luíz Inácio Lula da Silva a Beijing. A construção de uma ferrovia entre a Bahia e o Acre, interligando o Brasil à rede boliviana e peruana, permitirá que nossas exportações atinjam a Ásia com maior velocidade e custo inferior. Em contrapartida, produtos peruanos e bolivianos chegarão mais rápido e de maneira mais barata à África, Estados Unidos e Europa.

O Brasil se transformará em um hub que interligará toda a América do Sul. Por meio da nova ferrovia, que cruza a Norte-Sul, os países da Costa do Pacífico poderão acessar os portos de Itaqui (no Maranhão), Salvador e Santos abrindo acesso ao Atlântico. É um bom exemplo dos benefícios do que se convencionou chamar de BRICS Outreach. Atualmente, na África do Sul, os projetos atingem, de maneira positiva, Angola, Botsuana, Lesoto, Congo (Kinshasa), Moçambique e Namíbia. É mais uma constatação do poder transformador do BRICS Outreach.

Efeitos similares já se verificam em todo o entorno da China, da Índia e da Rússia. Para medir o alcance real dos benefícios, economistas traçam círculos com o dobro dos limites territoriais ao redor dos países integrantes do BRICS. Chegaram à conclusão que o bloco, apesar de não institucionalizado, atinge positivamente todo o extremo asiático e a Eurásia, além da América do Sul e do Sul da África. É preciso reafirmar que além do peso dos negócios impulsionados pela infraestrutura dos membros do grupo, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) investe em países ao redor do mundo financiando novas fronteiras agrícolas e industriais — as nações africanas começam a se transformar em polos têxteis e de transformação — o que amplifica o softpower da organização.

Alternativa

Um dos pontos que atrai países interessados em linhas de crédito do NBD está no caráter não ideológico do bloco. Não há nenhuma imposição para a concessão de empréstimos ou para se criar linhas de financiamento. Por trás do Fundo Monetário Internacional (FMI) existe uma filosofia apoiada no pensamento neoliberal que é imposta aos devedores. A Argentina é um bom exemplo.

Para fornecer dinheiro ao governo do ex-presidente Mauricio Maccri, que pretendia honrar empréstimos antigos, a administração pública foi obrigada a realizar uma reforma no sistema previdenciário, reduzir a máquina pública, estatizar empresas e dar uma pausa em projetos de infraestrutura. É preciso ressaltar que o grosso da dívida externa argentina foi contraído na reforma neoliberal de Martínez de Hoz durante o governo do general Jorge Videla (1976 a 1981) e na tentativa frustrada do ex-presidente Carlos Menem de dolarizar o país na década de 1990 (leia mais aqui).

Em lugar de reduzir a inflação, o pacote do FMI jogou o país em um atoleiro recessivo e, para piorar, inflacionário. Com a subida ao poder de Alberto Fernandez, a Argentina voltou a crescer, mas a alta de preços (dolarizados) explodiu o peso. Obviamente, isto favorece mais um instrumento do BRICS Outreach: o pagamento em moeda nacional, um dos pontos que será discutido na reunião de agosto.

Futuro

O BRICS Outreach influencia diretamente o BRICS Plus, o processo de ampliação do bloco. A China quer a inclusão da Arábia Saudita, do Egito, da Indonésia e do Irã, com a Argélia correndo por fora. Recentemente, apareceu o Afeganistão, dono de um riquíssimo subsolo, na área de influência de Beijing. Na África Negra a Nigéria, o país mais populoso do continente e dono de grandes reservas de petróleo, seria outro alvo. Nas Américas, o México também atrairia o interesse chinês.

A Rússia apoia a candidatura do Cazaquistão, outro grande produtor de petróleo e gás. A Índia, por enquanto, não tem candidatos, mas o Brasil gostaria de incluir o MERCOSUL no processo. Usando o sistema de área de influência teríamos um bloco com influência indireta nas Américas do Sul e Central, no Caribe em quase toda a África do Norte, no Mediterrâneo, no Oriente Médio no Extremo Oriente e no Sudeste da Ásia. Ou seja: uma cobertura completa de todas as rotas marítimas importantes entre a China, a Europa e a América do Norte.

O mais provável é que, em agosto, apenas Arábia Saudita, Egito, Irã e Argentina sejam aceitos no formato amplo. Isto não implica em uma diminuição do impacto do BRICS Outreach. A ideia é que a influência chegue a toda a África, as Américas e a Ásia. Os Estados Unidos e a Europa pouco podem fazer diante deste poder de fogo, principalmente com o fim do monopólio do dólar nos negócios com petróleo e gás (leia mais aqui).