A proposta atual da EMBRAER

Por Pedro Paulo Rezende

Até hoje há poucos detalhes disponíveis sobre a proposta do P-175, o avião de patrulha derivado do bem-sucedido EMB E-175. Em um evento patrocinado pelo Ministério da Defesa, em 2015, encontrei Anastasos Katsanos, que encabeçou a equipe que estudou o projeto a partir de um requerimento da Marinha da Índia. No início da conversa, ele destacou a maior vantagem do produto brasileiro sobre a plataforma Boeing 737-400, que serviu de base para a fabricação do Boeing P-8A Poseidon: o volume disponível no porão de carga, que é muito maior que a do avião estadunidense. Isto se traduz em espaço para mais sensores e armamentos.

Por outro lado, para diminuir os riscos estruturais do voo à baixa altitude sobre ambiente altamente corrosivo, o avião patrulha da EMBRAER funcionaria como uma espécie de nave-mãe para o uso de aeronaves remotamente pilotadas descartáveis que varreriam os mares interligadas entre si e ao avião lançador por datalink. Desta forma se cobriria uma área maior de busca que da maneira tradicional. Os sistemas de bordo, por sua vez, incluiriam radares de varredura de superfície; sensores passivos por espectro infravermelho (IRST); um detector de anomalia magnéticas (MAD) e sistemas de recepção de boias acústicas para combate antissubmarino. Para engajar alvos, o P-175 teria uma capacidade completa, com mísseis antinavio, bombas de profundidade e torpedos guiados pelo som do alvo armazenados internamente.

Na EMBRAER, hoje, o estudo se desenvolve a partir do E-190E2 que oferece vantagens em raio de ação, espaço disponível e custo operacional sobre seu irmão mais antigo. Muitas dessas soluções, como o uso de drones, foram testadas no Boeing P-8A da Marinha dos Estados Unidos, mas não foram disponibilizadas para os clientes estrangeiros.

Significadamente, a Marinha do Paquistão usou o EMBRAER Lineage 1000, uma versão executiva do E-190, como base para o seu Sea Sultan, um avião de patrulha feito para competir com o Boeing P-8A Poseidon adquirido pela Marinha da Índia. Na conversão feita pela Leonardo, foram incluídos radares de busca avançados, boias acústicas, sensores passivos por infravermelho, capacidade de detecção de sinais eletrônicos e outros sistemas capazes de realizar vigilância passiva necessárias em missões de inteligência. As armas serão carregadas externamente.

Mercado internacional

Ao todo, existe um mercado superior a 300 unidades que se aproximam do fim de suas vidas úteis. São aparelhos Lockheed P-3, EADS Atlantique, Ilyushin Il-38 e Tupolev 142. As opções já desenvolvidas e de maior desempenho, o Boeing P-8A Poseidon e Kawasaki P-1, são extremamente caras e sofrem restrições políticas. As outras disponíveis, como o EADS-CASA 295MP, sofrem limitações de raio de ação e de espaço disponível. A Rússia desenvolve um aparelho a partir do Tupolev Tu-204 para substituir seus Ilyushin Il-38 e os Tupolev Tu-142, projetados na década de 1960. O programa não está no topo das prioridades do país.

O Brasil mantém três esquadrões de patrulha, dois deles equipados com P-95 Bandeirulhas, recentemente modernizados com radares mais capazes e aviônicos de última geração. Operacionais desde a década de 1970 são limitados e se aproximam do fim de sua vida útil. Ou seja, potencialmente, se incluirmos os P-3BR e os velhos e limitados P-95, há um mercado potencial de 24 células dentro da frota da FAB.

Além de suprir a aviação de patrulha da Força Aérea Brasileira, o novo produto da EMBRAER poderia servir para o desenvolvimento de versões que potencializem a vigilância das fronteiras brasileiras. A frota atual de aviões E-145 e R-145 sofre algumas restrições operacionais. A maior delas é a ausência de sistemas de reabastecimento em voo, o que poderia ampliar o tempo de permanência na área. Os modelos vendidos para a Índia foram equipados, desde o início, com sondas de combustível, mas adaptá-las aos nossos equipamentos seria proibitivo em termos de custos e dificuldades estruturais.

Um avião de alerta antecipado sobre a plataforma E-190E2 ofereceria raio de ação maior, mais conforto para a tripulação e superior capacidade de receber equipamentos eletrônicos potencializando a capacidade de vigilância e de proteção do território nacional, incluindo as amazônias verde e azul. Como benefício adicional, haveria a padronização de meios, facilitando a manutenção e a logística. Sabe-se que não há qualquer possibilidade de melhoria nos investimentos militares até 2022, mas a obsolescência da frota de patrulha é inexorável e é necessário achar uma solução que além de atender os requerimentos da FAB gere empregos no país.

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