Flávio: o agente nada secreto

Por Pedro Paulo Rezende

A fuga de Flávio Bolsonaro, candidato derrotado na disputa presidencial brasileira, mostra que era um agente do governo dos Estados Unidos infiltrado no Brasil. A operação foi organizada pelo chefe do Departamento de Estado norte-americano, Marco Rubio, e visa criar uma espécie de governo no exílio que atuará em conjunto com a administração norte-americana contra os interesses brasileiros. Esta parceria oculta ficou visível durante o processo eleitoral.

O chefe de estado estadunidense, Donald Trump, usou todos os meios institucionais e clandestinos para favorecer Bolsonaro. Para começar, o governo estadunidense impôs tarifas de 50% às exportações brasileiras e condições inaceitáveis nas negociações (leia mais aqui) entre os dois governos para criar dificuldades econômicas para o Brasil. Além disto, o Departamento de Estado norte-americano promoveu reuniões com influencers na embaixada e nos consulados do Rio de Janeiro e São Paulo em apoio à candidatura de oposição.

Paralelamente, as BigTechs, como a Meta e o Google, alinhadas à Casa Branca (sede do Poder Executivo dos Estados Unidos), censuraram perfis de esquerda e impulsionaram os de direita. Para finalizar, grandes corporações ligadas aos irmãos Koch — que mantêm think tanks conservadores, como o Catho Institute — financiaram fazendas de bots para turbinar mensagens na internet.

Em verdade, a vitória de Flávio Bolsonaro removeria uma série de obstáculos ao projeto neocolonial de Trump. O objetivo do presidente norte-americano é transformar a América Latina em uma extensão do território dos Estados Unidos por meio de tratados desiguais para ter acesso livre e barato às riquezas naturais do continente. Basicamente, é a reedição do que foi feito contra o Império da China no século 19 e início do século 20.

A Venezuela é a mais nova vítima deste processo de colonialismo tardio, depois do sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas em fevereiro deste ano. A presidente em exercício do país, Delcy Rodríguez, sob o bloqueio da 4ª Frota, teve de assinar um acordo entregando todas as reservas de petróleo, estimadas em US$ 16,4 trilhões, a empresas estadunidenses ao preço de US$ 400 bilhões.

Expurgo

A campanha de Bolsonaro já planejava uma série de ações para favorecer as empresas estadunidenses, a começar pelo esquartejamento da Petrobras (para privatizá-la aos pedaços) e a venda do Banco de Brasil ao Bank of America. Também foram preparadas listas para expurgar as Forças Armadas e o Ministério das Relações Exteriores. A reeleição de Luíz Inácio Lula da Silva pôs um fim neste projeto de desmonte e representou uma grande derrota para Trump.

O Brasil era fundamental para os planos do presidente estadunidense. Possuímos a segunda maior reserva de terras raras e outros recursos necessários à nova economia — pesadamente ligada à inteligência artificial embasada em grandes datacenters consumidores de energia e água. Ao mesmo tempo, temos posição de liderança em iniciativas multilaterais que enfraquecem o predomínio do dólar no comércio internacional.

Ironicamente, este movimento ganhou impulso depois que Trump chegou à Casa Branca — sede do Poder Executivo estadunidense. A imprevisibilidade das decisões do presidente norte-americano em relação à imposição de tarifas e sanções econômicas a indivíduos e países favoreceu este movimento mundial.

O BRICS — bloco encabeçado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — desenvolve um sistema de transferência financeira similar ao PIX (o BricsPay) desde fevereiro de 2022, início da intervenção da Federação Russa em Donbass para dar um ponto final a um processo de limpeza étnica promovida pelo governo ucraniano desde 2014. Os países ocidentais impuseram mais de 16 mil sanções contra Moscou e a economia da Rússia não só resistiu como também cresceu.

A União Europeia (EU) trabalha em um meio de pagamento próprio depois que juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI) foram excluídos do sistema internacional, o SWIFT, por sanções do governo dos Estados Unidos. Ao analisar o caso, as autoridades monetárias da UE descobriram que todos os cartões de crédito e débito utilizados no continente dependiam de instituições bancários estadunidenses. Por estas razões, iniciaram o processo de criação de um sistema financeiro independente, mas físico, por meio de cartões.

Defesa sem soberania

A doutrina de Trump, batizada de Donroe (leia mais aqui), vai mais além: pretende transformar as Forças Armadas de todos os países latino-americanos em tropas auxiliares para o combate ao narcotráfico no chamado Escudo para as Américas. A iniciativa teve o apoio entusiástico da direita latino-americana e permite a atuação da Agência Central de Inteligência (Central Inteligence Agency — CIA, na sigla em inglês) e do Departamento de Guerra dos Estados Unidos nos territórios dos países signatários.

Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada em 14 de outubro, o Pentágono enviará centenas de soldados para a região, em uma iniciativa que marca uma nova etapa da política do presidente Donald Trump para os países latino-americanos.

De acordo com o periódico, os primeiros integrantes de um batalhão de cerca de 600 militares da 10ª Divisão de Montanha do Exército americano — sediada em Fort Drum, Nova York — já começaram a ser deslocados para um novo centro de treinamento em selva no Panamá. Posteriormente, eles deverão participar de exercícios e treinamentos conjuntos com forças de segurança da Colômbia e de Honduras.

Oficialmente, o objetivo é fortalecer a cooperação militar com países da região no combate a organizações envolvidas no tráfico de drogas. Segundo autoridades ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato, parte dos militares poderá dar apoio a forças especiais americanas que já assessoram operações conduzidas por exércitos locais contra grupos acusados de narcotráfico.

Até o momento, o Escudo das Américas mostrou poucos resultados. Segundo o Wall Street Journal, o preço do quilo da cocaína caiu em Nova York de US$ 25 mil para US$ 16 mil, prova de que a oferta da droga aumentou. No Equador e na Colômbia surgiram denúncias de abuso de poder da Marinha dos Estados Unidos contra pescadores locais. Barcos foram afundados sem qualquer inspeção. No total, destruíram 70 embarcações e mataram 240 pessoas.

A ampliação da presença militar também inclui a transferência de drones de vigilância MQ-9 Reaper da África para a Colômbia e o Equador, além da criação de uma nova estrutura de comando para operações no Hemisfério Ocidental sediada em Miami, para onde centenas de soldados devem ser transferidos. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criou ainda um escritório específico para supervisionar as atividades de combate aos cartéis.

Para justificar estas ações, Trump decretou como terroristas várias organizações criminosas, inclusive o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Se aceitássemos participar do Escudo das Américas o território brasileiro poderia ser alvo de ações americanas. No caso brasileiro, seria um retrocesso. O crime de narcotráfico é considerado hediondo e tem pena de 40 anos de prisão. Por incrível que pareça, terrorismo tem pena máxima de 20 anos.

Claro, para se combater narcotraficantes não é necessário material pesado como carros de combate, mísseis balísticos, caças supersônicos, submarinos nucleares, fragatas e artilharia. Os países latino-americanos ganhariam em troca o guarda-chuva da pax americana (leia mais aqui).