Viver é muito perigoso

Por Pedro Paulo Rezende

Viver é muito perigoso! A frase do escritor brasileiro João Guimarães Rosa serve como lema dos serviços de informação do Departamento de Estado norte-americano e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) — especializados em pintar um quadro caótico para justificar o aumento de tensões em nível global. Segundo os militares norte-americanos e da Aliança Atlântica, a República Popular da China avança sobre a Ásia e pode invadir Taiwan a qualquer momento. As forças da Federação Russa estão prontas a interferirem na Ucrânia com 175 mil homens para garantirem a independência das repúblicas de Donbass. Em Cuba, o Estado opressor impediu a população de sair de casa e se manifestar contra o regime. Na Nicarágua, um ditador ganhou mais um mandato. Em suma, exemplos de exagero embasados em inverdades não faltam.

Poderíamos acrescentar à lista o grande risco que a tripulação da Estação Espacial Internacional passou durante o teste de um míssil russo que destruiu um satélite obsoleto e a república de Belarus financiando uma horda de migrantes sírios e afegãos que ameaça invadir a República Federal da Alemanha depois de atravessar a Polônia.

A verdade é que o mundo é um lugar menos insalubre. A República Popular da China não pretende usar seu aparato militar para incorporar Taiwan. A Rússia não é ameaça direta à Ucrânia e a destruição do satélite obsoleto ocorreu a mais de 200 quilômetros da Estação Internacional. As eleições foram livres na Nicarágua, de acordo com os observadores internacionais, e os protestos em Cuba foram dirigidos contra o embargo internacional decretado pelo governo dos Estados Unidos.

Injúrias e mentiras

Há uma política deliberada da diplomacia ocidental no sentido de difamar os governos e países que não se dobram aos interesses de Washington. O desenvolvimento da República Popular da China incomoda os mandatários estadunidenses, que comparam a estagnação econômica ocidental com os avanços de Pequim. Outro fator de incômodo é a ação independente da Federação Russa desde o primeiro mandato do presidente Vladimir Putin. Aliás, em 2003, logo ao assumir a chefia de Estado, ele propôs a adesão do seu país à OTAN. Dentro de sua visão, com o fim da Guerra Fria e da União Soviética, a organização precisava rever os seus papéis, uma vez que foi criada para enfrentar uma possível expansão do comunismo.

Sob a pressão estadunidense, a Aliança Atlântica não aceitou a proposta de Putin. Os países ocidentais passaram a tratar Moscou com visível hostilidade. Afinal de contas, como justificar orçamentos militares gordos se não há um inimigo, mesmo que imaginário, para combater. Ao longo dos anos, a Europa se aproximou economicamente da Federação Russa, mas os Estados Unidos continuam a tratar a Rússia de maneira agressiva não perdendo oportunidades para tentar indispô-la com seus vizinhos. É preciso lembrar as ações da Casa Branca junto à Ucrânia ao longo da administração de quatro presidentes: George W. Bush, Barack Obama. Donald Trump e Joe Biden. Ao longo de 21 anos, houve duas revoluções contra presidentes ucranianos que defendiam uma política de colaboração com Moscou.

Reina alguma tensão na fronteira entre Belarus e a Polônia, mas o caos é consequência direta da intervenção desastrosa das potências ocidentais na Síria e no Afeganistão. É preciso lembrar que grupos terroristas como o Estado Islâmico receberam apoio financeiro e logístico norte-americano e que a incompetência política e militar de Washington culminou na vitória do Talibã e na tomada de Cabul. A corrente de refugiados é um efeito colateral de uma política intervencionista que se incorporou à tradição da Casa Branca, sede do Poder Executivo estadunidense.

Culpa ocidental

As tensões, na realidade, são acentuadas pelo Ocidente. O atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não esconde sua vontade de uma solução militar na Ucrânia, afetada por uma guerra civil desde a derrubada de Viktor Yanukovich, em 2014, por meio de uma revolução colorida de tendências protofascistas, o chamado Movimento de Maidan (leia mais aqui). A tomada do governo com apoio da extrema-direita resultou em uma tentativa de limpeza étnica na Crimeia e nas províncias da Novarrúsia (termo criado por Catarina a Grande) em Donbass. Como resultado direto, a península, depois de expulsar as forças de segurança ucranianas, decidiu retornar à Federação Russa (ela foi entregue pela União Soviética à Ucrânia em 1956) e a população das regiões ameaçadas formaram duas repúblicas populares, Donetsk e Lugansk, e proclamaram sua independência de Kyiv.

Para tentar por um fim nos conflitos em Donbass, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) promoveu as negociações que resultaram no Protocolo de Minsk, firmado em 5 de setembro de 2014 na capital de Belarus pelo ex-presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma,  e pelos líderes das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk Alexander Zakharchenko e Igor Plotnitsky. O acordo implantou um cessar-fogo imediato que nunca foi cumprido por Kyiv.

Hoje, seguindo o exemplo do que ocorreu na Ossétia do Sul, invadida pelas forças da Geórgia com apoio político da OTAN, o secretário de Estado norte-americano incentiva de maneira aberta Kyiv a agir militarmente em Donbass, o que contraria os acordos de Minsk que garantem um alto grau de autossuficiência constitucional, até hoje não aprovado pela Verkhovna Rada (o Parlamento ucraniano), para as Repúblicas de Donbass.

O atual presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, não esconde sua predileção pela solução militar e emassou tropas na zona de conflito. As repúblicas responderam com a convocação de reservistas (foto de destaque) Neste ponto, é necessário lembrar qual é a linha vermelha que não pode ser cruzada, segundo o presidente russo, Vladimir Putin: ameaças diretas a populações russo-étnicas ou de nacionalidade russa. O melhor exemplo desta política está na tentativa de limpeza étnica da Ossétia do Sul pela Geórgia, em 2008. A república, junto com a Abecásia, declarou sua independência do governo georgiano logo depois da dissolução da União Soviética. Uma força de manutenção de paz formada por soldados russos mantinha o status quo. O então presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, incentivado pela diplomacia ocidental, reestruturou suas Forças Armadas com apoio da OTAN e decidiu reincorporar os territórios separatistas. A invasão, que agiu duramente em áreas civis ossetas, recebeu pronta resposta de Moscou, que contra-atacou e derrotou completamente as forças da Geórgia.

Pressão no Mar Negro

A pressão ocidental cresceu depois da reincorporação da Crimeia, decidida pela população por meio de voto livre. Além de manter uma presença naval importante no Mar Negro, a OTAN passou a patrocinar exercícios conjuntos com a Ucrânia. Pelas regras da Aliança Atlântica, nenhum país com questões fronteiriças e afetado por conflitos civis pode aderir ao tratado. Apesar disto, as manobras ocorrem com frequência. Entre os dias 28 de junho e 10 de julho, o Exercício Sea Breeze 21 mobilizou, segundo a propaganda ocidental, 32 países de seis continentes com 5,000 soldados, 32 navios, 40 aviões e 18 equipes de operações especiais.

A bem da verdade, o grosso dos efetivos foi fornecido pela Ucrânia e pelos Estados Unidos. O esforço de propaganda incluiu todos os países com adidos militares creditados em Kyiv, incluindo o do Brasil, o da Colômbia e o do Japão. Por obrigação, eles teriam de observar as manobras, o que não pode ser confundido com uma participação efetiva no exercício. Em termos reais, apenas as nações que circundam o Mar Negro e parte da OTAN integraram as ações junto com os Estados Unidos e a Ucrânia: Bulgária, França, Geórgia, Grécia, Israel, Itália, Polônia, Reino Unido, Romênia e Turquia.

De lá para cá, os Estados Unidos e o Reino Unidos passaram a ameaçar a integridade territorial russa na Crimeia por meio de operações de livre navegação, respondidas de maneira vigorosa pela Federação Russa. Além disto, não é segredo que as ações agressivas do presidente ucraniano Volodimir Zelenski contra as repúblicas de Lugansk e Donetsk são estimuladas por Washington. São mais algumas provocações do Ocidente para fingir que o mundo é mais perigoso do que realmente é.

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