Um hóspede incômodo

Ao deixar o poder, Anastasio Somoza, o Tacho, tentou se refugiar em Miami, mas não encontrou receptividade para o seu pedido de asilo durante a passagem de Jimmy Carter, um defensor dos direitos humanos, no governo dos Estados Unidos. Sem saída, buscou refúgio em Assunção, capital do Paraguai, então governado por Alfredo Stroessner, o ditador mais longevo da América Latina. Chegou no dia 20 de agosto de 1979. Entre as vantagens que podia oferecer estava a possibilidade de investir sua fortuna, estimada em US$ 5 bilhões, em sociedade com a cleptocracia que controlava Assunção.

Stroessner começou a se arrepender da oferta de asilo assim que o hóspede chegou ao país. Acostumado ao poder absoluto, tratava os integrantes do governo paraguaio com um misto de desprezo e prepotência. Tacho não seguiu para o exílio sozinho, levou seu filho, o coronel Anastasio Somoza Portocarrero (o Tachito), ex-comandante da Guarda Nacional da Nicarágua. Ele era conhecido por duas coisas: atração por mulheres bonitas e por se tornar violento quando abusava do consumo de álcool, o que era bastante frequente.

Tachito transformou-se em um frequentador contumaz da noite de Assunção. Apostava pesado nos cassinos da cidade, sempre cercado por mulheres bonitas e garrafas de uísque caro. No entanto, segundo um informe obtido pelo Serviço Nacional de Informações brasileiro (o SNI), foi em um restaurante chique da capital paraguaia e sóbrio que arrumou problemas para si e o pai.

Uma loura belíssima entrou para tomar chá com suas amigas. Somoza júnior não titubeou e gritou:

— Eu quero comprar aquela mulher e pago o que pedirem!

Infelizmente para ele, a loura era Mirta Stroessner Rodríguez, filha do comandante do Exército, Andrés Rodríguez Pedotti, e nora do presidente do Paraguai, Alfredo Stroessner. Os seguranças cercaram o nicaraguense, que reagiu, e uma briga generalizada começou. Tachito foi jogado na calçada e o governo lhe deu 24 horas para deixar o país. Acostumado ao poder absoluto, Tacho ainda teve a pachorra de protestar a favor do filho, sem qualquer resultado. Coincidência ou não, o ex-ditador nicaraguense foi justiçado alguns meses depois no dia 17 de setembro de 1980, no cruzamento das ruas España (na época, Generalíssimo Franco) e América, por um comando do Exército Revolucionário do Povo, liderado pelo guerrilheiro Enrique Gorriarán.

Os militantes alugaram vários imóveis. Usaram uma casa no bairro de San Vicente para esconder as armas: um lançador de foguetes antitanque Tipo 56 (equivalente ao RPG-2 soviético), de fabricação chinesa, um rifle M-16 e várias submetralhadoras Ingram. Por sorte, encontraram uma moradia vazia perto da mansão de Somoza. O grupo permaneceu duas semanas em Assunção para estudar a rotina do ditador deposto e verificou que ele só tinha duas rotas possíveis para sair de casa.

Um dos guerrilheiros, de codinome Osvaldo, escondido em um quiosque comprado pelos guerrilheiros, usou um walkie-talkie quando Somoza saiu no Mercedes prateado. Ele tinha outro Mercedes blindado, que apresentou pane no dia da execução. Tudo aconteceu em segundos. Um caminhão Cherokee cruzou o caminho do veículo de luxo. Hugo Irurzun tentou disparar com o lança-foguetes, mas o projétil não ignitou o propelente. Em seguida, Gorriarán Merlo, com um fuzil M16, abriu fogo contra o carro. Ele alcança o motorista, que morre.

Tem início uma troca de tiros com a guarda. Gorriarán se aproxima e atinge Somoza e um empresário americano que estava ao lado dele. Irurzun recarrega o lançador de foguetes e o projétil atinge em cheio, teto e a porta da frente do Mercedes explodem e todos os ocupantes morrem no local.

A maioria dos guerrilheiros fugiu para o lado argentino em uma lancha ancorada na Baía de Assunção. Uma rota direta e pouco movimentada dava acesso direto ao Rio Paraguai, Irurzun fica para trás e é torturado até a morte pela polícia paraguaia, mas há alguns pontos que merecem mais esclarecimentos.

O Regimento de Infantaria 16 Mariscal Lopez estava equipado com lança-foguetes antitanques Tipo 56. Estas armas entraram, com conhecimento do governo brasileiro, pelo Porto de Paranaguá em contenedores marcados como ferramentas agrícolas. O Exército Paraguaio também estava equipado com alguns M16 e submetralhadoras Ingram eram usadas pelos guardas costas de Stroessner e Rodríguez. Mera coincidência ou o comando que executou Somoza contou com apoio do governo para se livrar de um hóspede incômodo? Na época, cada quarteirão da cidade tinha um delegado do Partido Colorado e a presença de estrangeiros dificilmente passaria despercebida em Assunção. Estes questionamentos precisam ser respondidos. (PPR)

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