O retorno da Operação Condor

Por Pedro Paulo Rezende

A proposta do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, de realizar uma reunião de cúpula virtual sobre a democracia entre nove e dez de dezembro, mascara o histórico intervencionismo do governo norte-americano. O encontro inclui outros líderes mundiais e representantes da sociedade civil, filantropia e setor privado para, segundo a Casa Branca, “demonstrar que as democracias podem conseguir resultados, melhorando a vida de seu próprio povo e abordando os maiores problemas que o mundo enfrenta.”

Em tese, os participantes discutirão “os desafios que a democracia enfrenta para fortalecer coletivamente as bases para a renovação democrática, com foco contra o autoritarismo e na defesa do combate à corrupção e à promoção do respeito aos direitos humanos.” Esta declaração, no entanto, contrasta com fortes sacrifícios impostos às populações de países que estão sob embargo do governo dos Estados Unidos, com acesso restrito a bens de primeira necessidade, insumos para a fabricação de medicamentos e até mesmo alimentos.

Enquanto, em teoria, o Departamento de Estado (órgão equivalente ao nosso Ministério das Relações Exteriores, conhecido como Itamaraty) proclama o respeito aos direitos humanos, a Casa Branca pune milhões de pessoas na tentativa de derrubar governos que não se curvam à política de Washington. Ao mesmo tempo, países alinhados com os interesses estadunidenses, como a Colômbia, reprimem protestos com o uso de armas letais, causando dezenas de mortes.

O intervencionismo norte-americano ficou exposto a partir de ações dos poderes legislativos de países afetados por interferência direta de órgãos do governo dos Estados Unidos no processo político de países latino-americanos. Além do Departamento de Estado, a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), a Agência Nacional de Segurança (NSA), o Bureau Federal de Investigações (FBI), Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (USAID), a Administração de Combate às Drogas (DEA) e o Fundo Nacional pela Democracia (NED) agiram para desestabilizar nações do Caribe e das Américas Central e do Sul.

No Brasil, o objetivo era destruir o trabalho de integração regional desenvolvido pelo governo brasileiro durante as gestões de Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Durante um período de 22 anos, o Itamaraty coordenou o processo de fundação da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e participou de maneira ativa na estruturação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Neste processo, esvaziou iniciativas dos Estados Unidos, como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e a Aliança do Pacífico que visavam dar continuidade às políticas do Consenso de Washington.

A UNASUL era o alvo prioritário. A organização visava a criação de mecanismos de defesa para o subcontinente como uma forma de desestimular possíveis intervenções estrangeiras. Não causa surpresa seu esvaziamento a partir da eleição de presidentes conservadores na Argentina, Rogério Macri; Brasil, Jair Bolsonaro; Ivan Duque, Colômbia; Lenine Moreno, Equador, e Pedro Pablo Kuczynski, Peru.

Com base nesta maré conservadora, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inspirou a criação do Grupo de Lima para coordenar a pressão diplomática e econômica contra o governo da Venezuela, Nicolás Maduro.

Estratégia múltipla

Para interferir na América Latina, a estratégia estadunidense emprega táticas testadas na promoção de “revoluções coloridas”, como a chamada Primavera Árabe nos países do Magreb (África do Norte) e o Movimento de Maidan, na Ucrânia. Primeiro, fomenta-se o descontentamento popular por meio do financiamento de influenciadores digitais ou por cooptação de jornalistas e empresas de mídia, como jornais e emissoras de televisão. Depois, estimula-se o descrédito de autoridades com acusações de corrupção e a abertura de processos legais em um esquema que se convencionou chamar de Lawfare (podemos traduzir como guerra judicial).

Outro método frequente envolvia o descrédito dos sistemas eleitorais sempre que um candidato de esquerda vencia. Depois de atacar as autoridades responsáveis pelo pleito, os candidatos de oposição recebiam reconhecimento político e econômico para financiar protestos violentos. Bolívia e Venezuela são bons exemplos deste modo operandi.

No Brasil, o governo dos estados Unidos aparelhou, de forma completamente ilegal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal. O caso explodiu depois que o sítio The intercept, divulgou mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram entre os integrantes da Força Tarefa Lava-Jato, do Ministério Público, e o ex-juiz da 13ª Vara de Curitiba (e ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro) Sérgio Moro. O material foi hackeado pelo Grupo de Araraquara, comandado por Walter Delgatti Neto. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a Polícia Federal examinasse o material, onde fica clara a interferência direta dos Estados Unidos no processo político brasileiro.

A partir da perícia, estabeleceu-se a ligação do FBI, a 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba e a equipe da Lava-Jato. O juiz Sérgio Moro e o chefe da Força Tarefa, Deltan Dalagnol, realizaram numerosas visitas aos Estados Unidos. Por meio de interferência das autoridades americanas, a Lava-Jato usou, por meio de um canal clandestino no Telegram, o Escritório da Procuradoria Geral da Suíça (OAG — Office of the Attorney General) para investigar a existência de contas bancárias ilegais de políticos e ministros do Supremo. Neste processo, praticamente passaram um atestado de bons antecedentes ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (que estava preso por determinação de Moro) e aos ministros Gilmar Mendes e José Antônio Dias Toffoli do STF. Nenhuma conta no exterior foi encontrada nos nomes deles.

A questão, neste caso, é que toda cooperação com organizações estrangeiras deveria passar pelo crivo da Procuradoria Geral da República e pelo Ministério da Justiça. A força-tarefa e o juiz Sérgio Moro consideraram a lei brasileira um mero estorvo burocrático que podia ser ultrapassado por meio de aplicativos de mensagens instantâneas. Com o uso de vazamentos seletivos (alguns deles falsos ou manipulados) entregues a jornalistas fiéis à Lava-Jato, Moro e Dalagnol golpearam a campanha do candidato da coligação de centro-esquerda, Fernando Haddad, conseguiram calar o STF e facilitaram a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência do Brasil.

A divulgação do material hackeado pelo The intercept mudou a percepção do Supremo Tribunal Federal. Ao comprovar as ligações perigosas entre a Lava-Jato e as autoridades estrangeiras (ao lado da constatação de investigações ilegais contra integrantes do próprio STF), o plenário da corte levou à decretação da suspeita de Sérgio Moro e à anulação do processo contra o ex-presidente Lula da Silva, mas o dano já fora feito.

A participação de Sérgio Moro no segundo turno da campanha eleitoral levou-o ao Ministério da Justiça. Enquanto esteve à frente da pasta, ele colaborou estreitamente com o governo dos Estados Unidos até ser defenestrado por denunciar o processo de aparelhamento da Polícia Federal pelo presidente Jair Bolsonaro, preocupado com o avanço das investigações contra sues filhos Carlos (vereador no Rio de Janeiro e comandante de sua milícia digital), Eduardo (deputado federal) e Flávio (senador). Ironicamente, depois de ajudarem a eleger o atual chefe do Poder Executivo, os membros da Lava-Jato receberam como prêmio a dissolução da força-tarefa.

Questionada pela Agência Pública sobre a atuação de agentes do FBI em território brasileiro e sobre a parceria com os membros da Lava Jato, a embaixada americana respondeu através de uma nota:

“O FBI colabora com as autoridades brasileiras, que conduzem todas as investigações no Brasil, inclusive todas as investigações que envolvem o Brasil e os EUA. As autoridades federais e estaduais brasileiras trabalham rotineiramente em parceria com as agências policiais dos EUA em uma ampla gama de questões. Os Estados Unidos e o Brasil mantêm uma excelente cooperação policial na FCPA, mas também no combate ao crime transnacional e em muitos outros âmbitos de interesse mútuo. Procuramos oportunidades de aprender com todas as nossas investigações. Um intercâmbio de boas práticas faz parte da boa cooperação que desfrutamos com nossos colegas brasileiros”.

A Operação Condor retorna

Durante os anos de chumbo das décadas de 1970 e 1980, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos coordenou ações de repressão com os serviços de informações e polícias nacionais da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela. Conhecida como Operação Condor, resultou na morte de aproximadamente 40 mil pessoas ligadas a forças progressistas, incluindo membros do clero católico. A cooperação entre ditaduras militares não se limitou à prisão e ao assassinato de militantes em um processo de terrorismo de Estado. Também resultou no intercâmbio de experiências de novos e mais efetivos métodos de tortura e de outras violações aos direitos humanos (ironicamente, agora praticadas contra cidadãos estadunidenses islâmicos pelo governo americano dentro do P.A.T.R.I.O.T. Act).

Vítima de um golpe de Estado em outubro de 2019, o ex-presidente da Bolívia Evo Morales afirma que uma nova Operação Condor está em curso. Ele cita como evidência sua própria derrubada e o recente assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse.

O ex-chefe de estado boliviano foi vítima de um conluio entre a Organização dos Estados Americanos (OEA), autoridades policiais e a oposição do país — formada basicamente por brancos ricos e concentrada no departamento de Santa Cruz (que tem profundas divergências com o os interesses do Altiplano, majoritariamente indígena). Ele venceu as eleições de outubro de 2019 limpamente, mas bastou uma insinuação de fraude para que as forças da Polícia Federal agissem em apoio a grupos reacionários de classe média, que torturaram e chegaram a assassinar políticos ligados a Morales.

Durante a rebelião, uma multidão invadiu e depredou a casa de Evo Morales. O tumulto foi transmitido ao vivo pelas redes sociais. O único luxo encontrado foi uma esteira de ginástica. Uma cena marcou o episódio: uma mulher ridicularizou os sapatos de tênis do presidente deposto por serem de mau-gosto e baratos.

Para acirrar os ânimos, a OEA demorou a divulgar seu parecer de que não houve fraude no pleito. Quando o fez, um governo provisório, formado sem base legal pela ex-senadora Jeanine Áñez Chávez, já controlava o país. O golpe contou com o apoio de governos sul-americanos eleitos pela onda conservadora, que incluiu Argentina, com Rogério Macri; Brasil, com Jair Bolsonaro, e Equador, com Lenine Moreno. A CIA e o governo dos Estados Unidos, então chefiado por Donald Trump, coordenaram as ações diplomáticas e de apoio militar ao novo regime.

A participação dos governos sul-americanos controlados pela direita não se limitou a ações simbólicas. Evo Morales acusa a Argentina pelo envio de 80 mil balas de borracha e o Equador por repassar munição letal de fuzis para ajudar a debelar os protestos contra o governo instalado pela rebelião:

— O envio de materiais bélicos pelos ex-presidentes do Equador (Moreno) e da Argentina (Macri) e a carta de agradecimento a estes chefes de Estado escrita pelo general (Jorge) Terceros (ex-comandante da Força Aérea Boliviana) são mais uma prova de que, junto com o assassinato do presidente do Haiti, por ex-militares colombianos, mostram a execução de uma segunda Operação Condor sob a direção dos Estados Unidos.

Rapina de riquezas naturais

Jeanine Añez governou a Bolívia até ser derrubada pelo voto em outubro de 2020. Luis Arce, candidato apoiado por Evo Morales, venceu o pleito. Neste tempo, legislou a favor de interesses norte-americanos, inclusive concedendo privilégios na exploração do lítio (indispensável para a fabricação de baterias com alto desempenho) ao bilionário Ellon Musk, dono da Tesla, maior fabricante de carros elétricos do mundo que chegou a admitir sua participação na empreitada:

— Eu faria tudo para favorecer minhas empresas — confessou em uma entrevista coletiva.

Antes de retornar à Bolívia, depois da vitória de Arce, Morales denunciou:

— Alertamos os movimentos sociais latino-americanos sobre o Plano Condor 2 e a necessidade de fortalecer a luta pela paz com justiça social e democracia para preservar a soberania e independência de nossos Estados e a dignidade das pessoas. Devemos acertar medidas para que os governos de direita da América Latina não continuem participando dos golpes de estado sob a liderança dos Estados Unidos, causando luto e dor a nossos povos. Advertimos o povo, militantes, simpatizantes, militares patrióticos e profissionais comprometidos com seu país: estamos na mira de Washington porque recuperamos nossos recursos naturais, nacionalizamos empresas estratégicas e fechamos a base militar de Chimoré (usada pela DEA). Eles não nos perdoam.

Para o ex-presidente, o motivo para as ações do governo norte-americano na América Latina são óbvias:

— Os países industrializados querem que garantamos as matérias-primas e não querem que agreguemos valor aos nossos recursos naturais.

A fome como arma

Em Cuba, o modelo escolhido mescla ações diretas de embargo comercial e o financiamento de influenciadores digitais pelo Fundo Nacional pela Democracia (NED) e outras agências estadunidenses. A melhor representante deste processo é a blogueira Yoani Sanchez. Documentos liberados pelo site Wikileaks mostram que ela recebeu quantias expressivas do governo estadunidense para financiar suas publicações contrárias ao regime socialista que governa a ilha desde 1960.

A agência noticiosa Reuters divulgou um relatório da USAID reconhecendo o financiamento de programas para “ampliar o fluxo de informação sobre democracia, direitos humanos e empreendedorismo em Cuba.” Segundo o documento, a agência, criada teoricamente para ações humanitárias e fomento econômico e social, “ajudou a treinar centenas de jornalistas na última década para informar os cubanos. Este trabalho também afetou grandes meios de comunicação internacionais.”

Em 23 de junho deste ano, 184 países da Assembleia Geral das Nações Unidas votaram a favor do fim do embargo norte-americano a Cuba. Foi o 29º ano consecutivo em que praticamente todos os países, exceto Estados Unidos e Israel, fizeram essa demanda. Depois de um breve momento de desafogo durante o governo de Barack Obama, que atenuou o bloqueio, o que permitiu uma primavera de empreendedorismo na ilha, o governo norte-americano, durante a gestão de Donald Trump, acentuou as ações contra o país caribenho em plena pandemia de COVID 19. Os resultados contra a população foram terríveis. As pressões do Departamento de Estado impediram a de compra de insumos para remédios, alimentos e até mesmo respiradores, indispensáveis para o processo de cura de casos graves da doença. Por meio da lei Helms Burton, quem negociar com Cuba sem autorização do governo dos Estados Unidos ficará impedido de comprar ou vender em território estadunidense.

Estas pressões foram decisivas para um movimento minoritário contra o governo cubano. Cerca de 50 mil pessoas saíram às ruas para pedir a mudança do regime. Estas manifestações não foram reprimidas e houve apenas uma morte. Em resposta, uma mega manifestação de um milhão de habitantes saiu em defesa da revolução (Cuba tem 13 milhões de habitantes). Os Estados Unidos denunciaram o regime de Havana por violações contra os direitos humanos. Ironicamente, nunca acusaram a presidência da Colômbia pelas 112 mortes em protestos realizados no ano passado.

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez rejeitou, em 11 de julho, as campanhas de difamação da mídia ocidental:

— De maneira sutil, covarde e oportunista, os que mantiveram o bloqueio e os que foram usados como mercenários e lacaios do império, surgem com doutrinas humanitárias para fortalecer o critério de que o governo cubano não é capaz de enfrentar esta situação. Se estão preocupados com o povo cubano, precisam acabar com o bloqueio — afirmou Bermúdez. — Os EUA intensificam o bloqueio na esperança de causar uma implosão interna. Eles querem nos sufocar e tentar acabar com a Revolução. Dou esta informação para ratificar que as ruas são da Revolução; que o partido e o Governo tenham toda a disposição para debater e ajudar.

O presidente exortou a base da Revolução a sair às ruas para enfrentar as provocações de manipuladores que promovem protestos e apoiam sanções ilegais contra seu próprio país:

— Sabemos que existem massas revolucionárias enfrentando pequenos grupos antirrevolucionários. Não vamos deixar nenhum mercenário do império americano provocar a desestabilização — adicionou.

O chefe de Estado cubano destacou que as provocações de pequenos grupos pretendem criar um cenário para que os EUA possam justificar uma invasão:

— No segundo semestre de 2019 explicamos ao nosso povo que estávamos passando por uma conjuntura difícil, pelos sinais que os Estados Unidos davam contra Cuba. A perseguição financeira, econômica, comercial e energética aumentou. Eles [Washington] querem provocar problemas sociais internos em Cuba para convocar missões humanitárias que se traduzam em invasões e interferências militares — denunciou Díaz-Canel.

Por último, o presidente lembrou que Cuba foi incluída na infame lista de patrocinadores do terrorismo, “uma lista unilateral porque acreditam que são imperadores do mundo”, completou.

Rapinagem

O governo de Donald Trump não poupou medidas para tentar derrubar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. A exemplo de Cuba, o país é vítima de um pesado embargo imposto pelos Estados Unidos e por seus aliados mais próximos na Europa. Os dois governos estão inclusive impedidos de utilizar os serviços de transferência de pagamentos da Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, conhecido como sistema SWIFT — gerido por uma sociedade cooperativa internacional, com sede em Bruxelas, fundada em 1973 por 239 bancos de 15 países.

O SWIFT funciona como um canal de comunicação global entre seus participantes para padronizar transações financeiras internacionais. Desta forma, Havana e Caracas não podem cumprir com seus compromissos financeiros, inclusive com o Brasil. O pacote de maldades de Trump foi mais além: congelou os ativos venezuelanos nos Estados Unidos, um valor superior a US$ 7 bilhões. A medida também foi adotada pelo Reino Unido, que guarda US$ 1 bilhão em ouro das reservas da nação sul-americana.

A asfixia econômica é a mais recente de uma série de medidas desde que o Bolivarianismo, movimento populista de tendência social, assumiu o controle do país em 1999 com a eleição do coronel Hugo Chávez. As incrivelmente duras sanções e ataques contínuos dos Estados Unidos contra a Venezuela têm uma razão econômica: o país caribenho tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Este esforço prosseguiu ao longo de quatro presidentes (George W.). Bush, Barack Obama, Donald Trump e, agora, Joe Biden.

Quarteladas

Em seu primeiro discurso como presidente, Chávez destacou a necessidade da cooperação internacional com as nações capitalistas para diversificar a economia da Venezuela, extremamente dependente do petróleo desde a década de 1950 (leia mais aqui). Na época, George W. Bush ocupava a Casa Branca. Em 11 de abril de 2020, pouco depois que franco-atiradores atiraram contra uma manifestação a favor do governo, militares sequestraram o presidente da Venezuela.

Pedro Carmona, empresário, presidente da Federação de Câmaras de Comércio e Produção (FEDECAMARAS) apoiado pelos maiores partidos conversadores: Copei e Ação Democrática, autoproclamou-se presidente. A Assembleia Nacional foi destituída e o comandante das Forças Armadas, Efraín Vásquez ordenou a prisão de Chávez na sede da Academia Militar venezuelana. Rapidamente, os governos dos Estados Unidos, Espanha, Equador, Colômbia e Nicarágua reconheceram a junta golpista.

Os jornais, sem apresentar nenhuma prova, noticiavam que Chávez havia renunciado. Menos de 48 horas depois da desaparição do presidente, seu gabinete de ministros, familiares e o vice-presidente constitucional Diosdado Cabello denunciavam o golpe.

Enquanto as grandes cadeias televisivas, como a Rádio Caracas TV (RCTV) – maior consórcio de rádio e televisão da época – optavam por completar sua programação com desenhos animados e interrompiam as transmissões com autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário fiéis a Chávez, milhares de venezuelanos cercaram o Palácio Presidencial de Miraflores para exigir que o presidente aparecesse.

Os chavistas também conseguiram recuperar o canal estatal e, numa operação coordenada com parte das forças armadas, o vice-presidente constitucional Diosdado Cabello conseguiu entrar novamente no Palácio de Miraflores, assumindo as funções de chefe de Estado até que em 13 de abril Hugo Chávez voltou à Presidência. O episódio foi registrado por uma equipe de TV canadense em um documentário: A revolução não será televisada. Depois disto, os Estados Unidos tentaram mais duas quarteladas contra o líder bolivariano, que morreu de câncer em 2013, um ano depois de ser reeleito para seu terceiro mandato. Nicolás Maduro, seu vice-presidente, assumiu o governo e convocou eleições.

Ruas em chamas

Maduro venceu a disputa com Henrique Capriles, candidato da oposição, por menos de 200 mil votos. Assim que começou a governar, o Departamento de Estado norte-americano deu início a um novo esforço para desestabilizar o país por meio do apoio a atos violentos de rua patrocinados pela oposição. O plano chamado La Salida deu início à tática que ficou conhecida como guarimba (leia mais aqui). Maria Corina Machado e Leopoldo López coordenaram as manifestações que incendiaram ruas e instituições públicas na capital e nas cidades mais importantes do país. A violência deixou 44 pessoas mortas e 878 feridas.

Três anos depois, os partidos de extrema direita decidiram novamente apostar em atos violentos para tentar derrubar o presidente Nicolás Maduro.

A segunda edição das guarimbas deixou um saldo de 172 falecidos, 29 pessoas queimadas vivas, cerca de 300 presos e 913 ataques a instituições públicas, incluído a sede do Ministério de Vivenda, que abrigava uma creche com mais de 100 crianças afetadas.

Durante o desfile militar de 81 anos da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), na Avenida Bolívar, centro de Caracas, dois drones com explosivos foram lançados contra o palco, onde se encontrava o presidente Nicolás Maduro, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte Diosdado Cabello e outros representantes do gabinete Executivo.

O plano fora facilitado pelo ex-deputado Júlio Borges, do partido Primeiro Justiça, que enviou as aeronaves e explosivos da Colômbia. Paramilitares foram treinados em um acampamento na cidade colombiana de Chinácota, Norte de Santander. Nessa tentativa de assassinato do presidente, sete militares terminaram feridos.

O “autopresidente”

O ano de 2019 começou com a autoproclamação do deputado do partido Vontade Popular, Juan Guaidó como presidente “encarregado” da Venezuela. Graças ao apoio dos Estados Unidos, 50 países, incluindo a Argentina e o Brasil, o reconheceram como chefe de Estado. Pouco mais de um mês depois, em 23 de fevereiro, Guaidó, com apoio do governo e grupos de traficantes colombianos, organizou o evento Venezuela Live Aid para forçar a entrada de caminhões com suposta ajuda humanitária em território venezuelano.

Os insumos seriam doações da USAID. Para criar um clima de revolta contra Maduro, os partidários de Guaidó queimaram os caminhões na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. Mais tarde foi confirmado que os veículos materiais para realizar manifestações, como arame farpado e blocos de concreto. A ideia era provocar um incidente na fronteira para justificar uma invasão com tropas estrangeiras e paramilitares. No entanto, em lugar de usar o dinheiro fornecido pelos Estados Unidos para treinar rebeldes, Guaidó e seus partidários preferiram desviá-lo para contas pessoais.

Na manhã do dia 30 de abril, Juan Guaidó e Leopoldo López, junto a outras figuras dos cinco maiores partidos opositores e militares desertores, tentaram tomar a base aérea militar General Francisco de Miranda. Segundo o plano inicial, outro grupo avançaria contra o Palácio de Miraflores, com armas roubadas da guarda presidencial. No entanto, o povo venezuelano organizado organizou uma vigília para proteger a sede do governo e o motim foi desmobilizado pela Força Armada Nacional Bolivariana (FANB). Cerca de 50 pessoas terminaram feridas. Leopoldo López fugiu da prisão domiciliar para pedir asilo político na embaixada espanhola e Juan Guaidó foi denunciado pelo Ministério Público venezuelano.

Terra arrasada

A resposta dos Estados Unidos foi destruir a produção de petróleo da Venezuela. O país produz um tipo de petróleo extremamente pesado, que necessita de enzimas produzidas por empresas norte-americanas para ser refinado. Ao mesmo tempo, as autoridades norte-americanas cortaram o acesso do governo Maduro a todas as reservas e ativos venezuelanos no Exterior, como citado anteriormente. Guaidó não foi reeleito no pleito legislativo de 2020, o que lhe retirou boa parte do apoio internacional que tinha. Apesar disto, continua no controle dos ativos nacionais no exterior.

Em maio de 2020, ele contratou, ao preço de US$ 212 milhões, o grupo estadunidense de segurança privada Silvercorp para sequestrar Maduro e levá-lo para ser julgado em território dos Estados Unidos. A operação, que reunia 60 homens, incluindo dois veteranos das Forças Especiais norte-americanas (e ex-seguranças do ex-presidente Donald Trump), partiu em duas embarcações do território colombiano para invadir a Venezuela, mas o ataque fracassou quando o grupo foi interceptado e detido pela Milícia Bolivariana no litoral norte do país.

O acordo firmado entre Guaidó e o dono da Silvercorp, Jordan Goudreau, incluía a privatização da indústria petrolífera venezuelana e a dissolução das forças armadas do país que seriam substituídas por empresas de segurança estadunidenses.

O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Craig Faller, há muito defende uma intervenção militar para derrubar o governo eleito da Venezuela. Para isto, conta com o apoio do presidente da Colômbia, Ivan Duque. Esta possibilidade foi discutida com o diretor da CIA, William Joseph Burns, que visitou Bogotá recentemente. Coincidência ou não, pouco depois, grupos armados passaram a atuar na fronteira entre os dois países.

As ações foram coordenadas com ataques nas favelas de Caracas, incluindo um contra um importante centro policial. Os ataques foram claramente coordenados para criar um clima de medo e incerteza durante a visita de uma delegação da União Europeia para avaliar a possibilidade de observadores do bloco monitorarem as eleições marcadas para o final deste ano. As forças de segurança venezuelanas agiram e conseguiram controlar as áreas atacadas e desmantelar as quadrilhas.

Ataque por procuração

A Colômbia se transformou no agente por procuração das ações sujas do governo norte-americano nas Américas. Uma semana depois da visita de William Burns, a residência do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, foi invadida por um comando de 26 mercenários colombianos comandados por dois veteranos das forças especiais do Exército dos Estados Unidos. O grupo matou o chefe do Executivo haitiano e feriu a mulher dele. Os Estados Unidos têm sete bases militares na Colômbia e um histórico de apoio às forças paramilitares organizadas pelos cartéis do tráfico de drogas, base política do presidente Ivan Duque.

O atual chefe de Estado colombiano é discípulo do ex-presidente Álvaro Uribe que, segundo a DEA, tinha ligações estreitas com unidades paramilitares financiadas pelo narcotráfico.

Em uma entrevista em março, a ex-embaixadora de Washington no Haiti, Pamela Branco, falou abertamente sobre um plano para afastar o presidente Jovenel Moïse para entregar o poder nas mãos de um primeiro-ministro interino. O objetivo seria postergar eleições que a população reclama desde o início de 2020. É preciso lembrar que o governo dos Estados Unidos tem um longo histórico de assassinar presidentes e líderes populares ou apoiar golpes para derrubar governos eleitos, como fez no Haiti em 2004 para destituir o presidente Bertrand Aristide.

O partido de Aristide, o Fanmi Lavalas, de tendência progressista, liderava as intenções de voto em 2020, data prevista para a saída de Moïse. Se os EUA permitissem eleições justas, muito provavelmente venceria. Quem quer que tenha assassinado o presidente haitiano tinha como intenção estabelecer um quadro anárquico no país, abrindo caminho para outra intervenção militar.

No Brasil, Chile e Colômbia, os três principais aliados dos Estados Unidos na América do Sul , os candidatos de esquerda lideram atualmente as pesquisas eleitorais para as próximas eleições. Maciços protestos de rua contra a extrema direita apontam para a possibilidade de uma nova “maré rosa”, como a que varreu o continente há vinte anos. Como Evo Morales deixou claro, as elites dos Estados Unidos e seus aliados regionais estão desesperados para impor um novo Plano Condor na América Latina e no Caribe. É claro que, historicamente, não interessa aos interesses de Washington um modelo de integração regional que priorize a emancipação da América Latina.

Apesar do poder econômico, diplomático e militar, os intensos e bem coordenados esforços dos Estados Unidos e aliados para desestabilizar Bolívia, Brasil, Cuba e Venezuela estão falhando. A ampliação do intercâmbio comercial com a República Popular da China conspira contra a influência política, poder econômico e presença militar dos EUA e seus aliados. É uma batalha perdida, como as guerras de independência contra o domínio espanhol no século 19. A Bolívia, por meio de uma resistência heroica, mostrou que um golpe bem-sucedido pode ser revertido. O atual Plano Condor liderado pelos Estados Unidos é o canto do cisne da Doutrina Monroe, nitidamente intervencionista, na América Latina. A mensagem está escrita na parede para quem quiser ver.

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