O Irã e a estabilidade do Oriente Médio

POR PEDRO PAULO REZENDE

A República Islâmica do Irã foi um dos países mais afetados pela pandemia do COVID19 que atingiu, inclusive, integrantes do primeiro escalão do governo. Apesar disto, os Estados Unidos ampliaram suas sanções unilaterais contra a administração pública e empresas estatais de Teerã, usando o pretexto de forçar a teocracia (o governo é encabeçado por um conselho de clérigos pertencentes à corrente xiita) a desistir de seus planos de construção de um arsenal nuclear. O Departamento de Estado norte-americano também acusa a nação de ser um instrumento de instabilidade no Oriente Médio por meio de suas intervenções na Síria e no Iraque. Com base nestas acusações, a Romênia impediu o livre trânsito de um carregamento de suprimentos médicos adquiridos legalmente na República Tcheca, o que contraria as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização da Organização Mundial da Saúde (OMS), órgãos das Nações Unidas.

A questão nuclear fora pacificada por um acordo negociado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Firmado em 2015, conta com a participação das outras potências nucleares — Rússia, China, França e Reino Unido — e da Alemanha. Pelos termos do tratado, o Irã reduziria a graduação de sua produção de urânio enriquecido ao nível de 2%, suficiente para a geração de energia elétrica, e abriria a mão de fabricar insumos médicos e de radioisótopos, que necessitam de 20% de enriquecimento. Em troca, estes países abririam mão de sanções econômicas contra Teerã, o que traria um novo surto de desenvolvimento e aliviaria as condições de vida da população.

Ações ilegais

Em 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou seu governo do acordo e impôs sanções unilaterais a empresas que negociem com Teerã. Basicamente, o mecanismo fecha o mercado norte-americano a empresas que vendam ao Irã. A decisão causou um incidente diplomático com a república Popular da China quando o Departamento de Justiça dos EUA solicitou que as autoridades canadenses prendessem a vice-presidente financeira da chinesa Huawei Technologies, Meng Wanzhou, por violar o embargo.

As ações de Trump contra o Irã têm um objetivo claro: agradar o grupo conservador que controla o governo de Israel há mais de duas décadas. O genro do presidente norte-americano, Jared Kushner, mantém uma relação íntima e de negócios com Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro do Estado judeu, que sempre usa a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas denúncias vazias contra o regime de Teerã.

O grau de intimidade entre Trump e Netanyahu gerou um mostrengo: um projeto para oficializar a ocupação da Palestina e a transformação dos árabes em cidadãos de segunda classe. (leia mais aqui).

É preciso ressaltar que, ao contrário de Israel (que produz armas atômicas), o Irã é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e sempre cumpriu as determinações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), organismo das Nações Unidas. Além disto, vigora, desde 2003, um decreto religioso (fatwa) emitido pelo aitolá Ali Khamenei que impede seu país de desenvolver armas de destruição em massa, inclusive nucleares, por serem contra as terminações do Corão. O documento foi preparado com base em uma consulta das Forças Armadas iranianas, vítimas do emprego de armas químicas durante a Guerra Irã-Iraque iniciada, com apoio ocidental, pelo ditador iraquiano Saddam Hussein.

O componente turco

Na última cúpula entre os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Tayip Recep Erdogan, realizada em Moscou no dia cinco de março, o chefe de Estado russo teve a missão espinhosa de cobrar de seu colega compromissos que foram firmados em sucessivas conferências internacionais para encontrar uma solução para o conflito Sírio. Entre outros, aceitou desarmar os rebeldes, que incluem cidadãos de várias nacionalidades, inclusive ocidentais, chineses e russos, para tentar pôr um fim às hostilidades na província de Idlib, no noroeste do país conflagrado.

A guerra civil síria teve início em 2011. A Rússia, de Vladimir Putin, rapidamente, apoiou o presidente sírio, Bashar al-Assad. A Turquia se colocou ao lado dos rebeldes, fortemente alinhados com o wahabismo radical sunita praticado na Arábia Saudita e monarquias do Golfo. Em 2018, o governo de Ancara, para neutralizar unidades curdas ligadas aos Estados Unidos, interveio na região. Em acordo com o Vladimir Putin, instalou postos de observação na região de Idlib em troca de estabelecer na província uma zona desmilitarizada. Apesar da presença estrangeira, os jihadistas nunca deixaram de atacar alvos civis em Alepo, usando artilharia pesada e foguetes. Diante disto, combatentes do Exército Árabe da Síria, do Hezbolá e do Irã, apoiados pela Força Aérea da Rússia, precisaram entrar na região para eliminar focos inimigos.

Em lugar de um bando de guerreiros mal armados, os soldados leais ao governo do presidente Bashar Al Assad enfrentam unidades da chamada “oposição democrática” reequipadas pela Turquia. Os rebeldes ressuscitaram símbolos ostentados pelo Estado Islâmico em fardas novas em folha, se deslocam em blindados de transporte de tropas M113 e dispõem de mísseis antiaéreos Stingers.

Trata-se de um total desrespeito aos acordos internacionais que o presidente turco, Tayip Recep Erdogan, assinou. Ele aceitou desarmar os rebeldes, que incluem cidadãos de várias nacionalidades, inclusive ocidentais, chineses e russos. A região deveria servir como uma área de desescalada do conflito e neutralização de combatentes rebeldes, a grande maioria expulsa de outras províncias sírias pelo avanço das forças de Damasco.

As ações mostram, claramente, como cada parte se comporta e se exerce uma força estabilizadora ou desestabilizadora no país. É preciso ressaltar que Irã e Rússia foram convidados para atuar por um governo legal, legítimo e eleito. A Turquia, Estados Unidos e outras potências ocidentais, que ainda ocupam parte do território, não possuem mandato internacional para agirem em território sírio e transgridem, claramente, a lei internacional.

Maré fundamentalista

Ao contrário do que a imprensa ocidental costuma apresentar, o Irã serve como um dique contra o fundamentalismo. Os grupos terroristas que atuam contra o Ocidente, a China e a Rússia seguem a filosofia wahabita, um ramo sunita extremamente radical que vê todas as outras formas de islamismo como apostasias e que não possui nenhuma tolerância a outras formas de religião, principalmente o cristianismo. Arábia Saudita, Catar e a maioria das monarquias do Golfo Pérsico, aliadas dos Estados Unidos, seguem esta tendência.

É natural que o apoio monetário a movimentos sunitas radicais flua a partir destas áreas, apesar das relações carnais que os governos mantêm com Washington. Um bom exemplo: o ataque da Al Qaeda, criada por Osama Bin Laden, ao World Trade Center e ao Pentágono foi financiado por cidadãos sauditas.

O Irã segue uma tendência minoritária do islã, o xiismo. Ela corresponde a 30% dos seguidores da religião. No Irã, no Iraque e no Iêmen os xiitas são maioria. Além destes países, há manchas étnicas expressivas em províncias no Afeganistão, no Líbano e na Síria. Os xiitas seguem as orientações do genro e primo do profeta Maomé, Ali. O movimento foi derrotado por dissidentes, que formaram a corrente sunita, depois de um longo conflito. Este grupo se tornou majoritário e passou a oprimir os xiitas na maioria das áreas dominadas pelos muçulmanos.

Virada revolucionária

A reação xiita surge no Irã a partir da queda do xá Reza Pahlevi, em 1979. O monarca exercia o poder concentrando as benesses em um pequeno círculo de amigos e aliados. Ele desenvolvia um processo de ocidentalização, combatido pelo principal líder religioso do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini. Exilado em Paris, comandou as forças de oposição defendendo reformas sociais e econômicas no Irã, além de recuperar os valores religiosos e tradicionais do islamismo.

Ele conseguiu retornar ao Irã, no dia 1º de fevereiro de 1979, e, por vários lugares, estouraram os confrontos entre os opositores e os partidários do regime vigente. O clima de enfrentamento se intensificou e opositores de esquerda, liberais e xiitas se uniram. O xá fugiu no dia 1º de abril e uma república islâmica foi proclamada sob o comando religioso e político de Khomeini. As práticas religiosas anteriores ao islamismo são permitidas livremente no Irã e zoroastristas, judeus e cristãos possuem representantes no Parlamento. Formam o que se chama “o povo do livro”.

Os Estados Unidos não aceitaram o novo regime e quando o presidente do Iraque, Saddam Hussein, invadiu o Irã, em setembro de 1980, deram apoio político e econômico ao agressor, que empregou armas de destruição em massa, inclusive químicas, em seu avanço. Saddam mantinha a maioria xiita sob mão de ferro. Seu partido, o Baath, apesar de sua tendência socialista e laica, era dominado por sunitas e nunca hesitou em aplicar força máxima contra os xiitas.

Iraque versus Irã

Saddam queria controlar completamente o acesso ao estuário dos rios Tigre e Eufrates, na fronteira dos dois países que serve como principal acesso do Iraque ao Golfo Pérsico. A aposta não foi bem sucedida. O Irã conseguiu deter os avanços iraquianos e o conflito entrou em um impasse similar ao da Primeira Guerra Mundial, onde os beligerantes mantinham suas posições. Em 1988, o governo iraniano aceitou o cessar-fogo proposto em resolução das Nações Unidas. Teerã reconheceu a soberania de Bagdá sobre a região contestada.

A vitória do Iraque teve vida curta. Saddam, em 1990, resolveu invadir o Kuwait e abriu mão desse reconhecimento em troca do apoio da neutralidade do Irã na Guerra do Golfo. Foi o começo da derrocada baathista. Uma coalizão internacional foi montada pelos Estados Unidos para expulsar os iraquianos do país ocupado. Teerã se manteve neutro. Em 1991, as forças iraquianas foram completamente derrotadas. Como fruto da derrocada, Bagdá teve de eliminar suas armas de destruição em massa. Apesar disto, o governo manteve o controle do país e ganhou uma sobrevida.

Resistência sunita

Em 11 de setembro de 2001, um grupo sunita radical, a Al Qaeda, comandada por um saudita, Osama Bin Laden, abrigado pelo Regime Talibã no Afeganistão, sequestrou quatro aviões comerciais em território americano para realizarem um ataque terrorista. Dois aparelhos atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. O terceiro foi jogado contra as paredes do Pentágono, prédio que abriga o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Um quarto jato caiu em circunstâncias não explicadas sobre a Pensilvânia. Estava decretada a chamada Guerra contra o Terror.

O Afeganistão foi invadido com o apoio das Nações Unidas dando início a um conflito que ainda não terminou. O governo de Saddam combatia a Al Qaeda, apesar disto, George W. Bush, que ocupava a Presidência dos Estados Unidos, atribuiu parte da culpa ao Iraque. Em 2003, usando o falso pretexto de que Bagdá mantinha armas de destruição em massa, resolveu invadir o país para destituir o governo.

O resto é história. Saddam, depois de um logo período de fuga, foi capturado e executado. O exército do Iraque foi dissolvido, jogando 300 mil homens bem treinados na resistência antiamericana. Os xiitas, finalmente, passaram a controlar o país, mas a dissidência sunita, pouco a pouco, se estruturou, em boa parte como reação às táticas usadas pelos Estados Unidos para manter o controle, que incluíam prisões indiscriminadas e tortura sistemática nas prisões. A partir daí, e sob a influência da Al Qaeda, começou a se estruturar o movimento que forjou o Estado Islâmico, comandado pelo imã Abu Bakr al-Baghdadi.

O grupo nasceu na prisão mantida pelo Exército dos Estados Unidos em Abu Ghraib, ganhou força e conseguiu controlar grandes áreas do Iraque. Aproveitando-se da guerra civil na Síria, dominou boa parte do território conflagrado. Em 2014, o movimento proclamou um califado. Treinado pelos Estados Unidos, o novo Exército Iraquiano não conseguiu resistir ao avanço do grupo radical, que utilizava táticas extremas, como o uso de carros bombas suicidas para abrir caminho nas ofensivas. A partir daí, teve início uma cooperação improvável, mas que se provou efetiva. Ao lado dos estadunidenses, a Guarda Revolucionária do Irã começou a ministrar treinamento para as desmoralizadas forças do governo de Bagdá.

O papel de Teerã

Esta parceria improvável já apresentava resultados no Afeganistão. Para impedir um processo de limpeza étnico pelo Talibã, sunita, a Guarda Revolucionária do Irã, desde 2001, fornece armas e treinamento aos hazaras, etnia xiita localizada próxima à fronteira dos dois países. Contatos informais dos comandantes norte-americanos com os militares iranianos foram mantidos durante este período.

A reconstrução das forças do governo iraquiano e a formação de milícias xiitas de apoio foram coordenadas pelo então comandante da Guarda Revolucionária do Irã, general Qassem Soleimani com total conhecimento estadunidense. Este trabalho conjunto deu bons frutos e permitiu que o Estado Islâmico fosse praticamente erradicado do território iraquiano. Ironicamente, em território sírio, os norte-americanos apoiavam os rebeldes anti-Assad e ofereceram armas e equipamentos aos radicais sunitas.

Teerã decidiu apoiar o governo de Assad a partir do momento em que a chamada “oposição democrática” mostrou sua verdadeira face. A Xaria, lei religiosa islâmica, foi instituída as áreas ocupadas pelos rebeldes. Tornaram-se corriqueiras as execuções e conversões forçadas de xiitas e cristãos. Mulheres foram afastadas de suas famílias para serem entregues como esposas secundárias aos guerreiros que se destacavam nos combates.

Com o apoio da Força Aérea e de forças especiais da Federação Russa, do Hezbolá (partido político armada libanês ligado a Teerã) e de 2 mil instrutores fornecidos pela Guarda Revolucionária, o governo sírio conseguiu reverter a maré fundamentalista e hoje controla a maior parte do território, com exceção da Província de Idlib e de áreas controladas pelos Estados Unidos. Em contraponto, a Turquia armou e treinou jihadistas e, em 2018, chegou a empregá-los para eliminar as forças curdas aliadas dos Estados Unidos, que permaneceram inertes enquanto eram neutralizados.

Ações criminosas

A estratégia turca é simples: estabelecer uma zona tampão habitada por sunitas entre a Turquia e os curdos, que buscam formar um Estado independente desde a derrocada do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Para isto, pretende alocar contingentes populacionais deslocados pelo conflito civil. Desde o final de 2019, suas “forças de observação” se fundiram com as unidades rebeldes sírias, dificultando o processo de eliminação dos quistos jihadistas.

O Exército Árabe da Síria quer reincorporar a província, que serve de ponta de lança aos remanescentes do Exército Islâmico, por isto, iniciou uma ofensiva que o colocou, diretamente, em contato hostil com forças turcas. Erdogan retirou a máscara ao permitir que seus caças F-16 derrubassem três aviões sírios que realizassem ataques contra os rebeldes. Embora não endosse publicamente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apoia as pretensões turcas, fornecendo equipamento para a oposição síria.

Em dezembro, deu uma mostra do que poderia acontecer ao determinar o assassinato do comandante da Guarda Revolucionária do Irã, o general Qassem Soleimani que cooperou com os norte-americanos para derrotar o Exército Islâmico no Iraque. Em resposta, os iranianos realizaram um ataque cirúrgico com mísseis balísticos contra uma base americana no Iraque, deixando cem feridos.

Israel não esconde suas apostas: realizou mais de 500 ataques dirigidos, teoricamente, contra as unidades iranianas na Síria. Além disto, procura atingir a defesa antiaérea do governo com drones, obtendo um resultado limitado com a destruição de três unidades do sistema PANTSIR S1 fornecidos pela Federação Russa. Por último, resgatou jihadistas feridos para tratá-los em hospitais mantidos pelas Forças de Defesa de Israel. Os fatos mostram quem age para estabilizar e quem atua na desestabilização do Oriente Médio e, longe de ser um fator de instabilidade, o Irã serve como um dique contra o fundamentalismo islâmico.

Contraponto europeu

Com base neste ponto, a Federação Russa e a República Popular da China mantiveram seus negócios com o Irã dentro dos limites estabelecidos anteriormente pela Organização das Nações Unidas, priorizando suprimentos humanitários e limitando o fornecimento de equipamentos militares a armas estritamente defensivas, como mísseis antiaéreos. Alemanha, França e Reino Unido nunca deixaram de manifestar que consideravam ilegais as sanções do governo dos Estados Unidos, mas hesitavam em tomar uma ação mais determinada para não prejudicarem suas empresas no mercado norte-americano. Isto mudou a partir das determinações criminosas do presidente Donald Trump contra Teerã em plena pandemia do COVID 19, que resultaram na apreensão de insumos para medicamentos, como citado anteriormente.

Os três governos resolveram instrumentalizar emergencialmente o Instrumento de Apoio de Trocas Comerciais (INSTEX, na sigla inglesa) criado há um ano como mecanismo paralelo para permitir o envio de medicamentos e suprimentos para combater a maior crise de saúde desde a Gripe Espanhola de 1918. Os primeiros carregamentos já foram entregues e devem ser seguidos por outros, apesar de França e Reino Unido discordarem da posição iraniana na Síria. É uma pequena, mas importante, reação às ações injustificadas de Washington que abre um precedente para quebrar um embargo ilegal e desumano.