Por Ricardo Amadesi Costa*
A Cúpula do BRICS realizada em Nova Délhi, em 12 e 13 de setembro de 2026, e a Semana de Alto Nível da Organização das Nações Unidas (ONU), entre 18 e 23 de setembro, revelaram uma disputa que costuma ser apresentada de forma simplificada demais. Não se trata apenas de saber se a China está subindo, se os Estados Unidos estão tentando freá-la ou se o BRICS pretende acabar com o dólar. O conflito mais profundo envolve quem controla as regras, o crédito, a tecnologia, as rotas, os dados, os pagamentos, a energia e a capacidade de transformar decisões políticas em fatos concretos.
A conclusão mais importante é que o mundo ainda não entrou em uma ordem pós-ocidental plenamente organizada. O que existe é uma transição competitiva, na qual os países tentam construir alternativas sem romper completamente com as instituições e os mercados dos quais continuam dependendo. O BRICS amplia sua massa diplomática, econômica e tecnológica. A ONU conserva universalidade e legitimidade. O sistema financeiro ocidental continua dominante em várias camadas. A China avança em infraestrutura, comércio, indústria, dados e tecnologia. Índia, Brasil, países do Golfo, África e Sudeste Asiático tentam evitar que a competição entre grandes potências os obrigue a escolher um único lado.
Para o Brasil, essa mudança não é uma discussão distante. Ela afeta exportações, fertilizantes, energia, defesa, telecomunicações, acesso a chips, financiamento, inteligência artificial, soberania de dados e a própria capacidade de liderar ou influenciar a América do Sul. Uma diplomacia ativa, sem capacidade produtiva interna, produz discursos. Uma política industrial isolada, sem alianças externas, não adquire as tecnologias que o país ainda não domina. A questão central é como combinar autonomia, diversificação e poder material.
O BRICS nasceu como uma categoria de análise econômica criada para agrupar Brasil, Rússia, Índia e China. A África do Sul entrou posteriormente, e o agrupamento passou a funcionar como fórum político e diplomático. A expansão recente incluiu novos membros e países parceiros, mas também trouxe uma dificuldade: quanto maior a coalizão, mais difícil é transformar interesses nacionais diferentes em decisões obrigatórias.
O BRICS não é uma aliança militar, não possui um governo comum, não tem um Parlamento supranacional, não opera uma moeda única e não dispõe de uma política externa uniforme. Suas decisões são tomadas por consulta e consenso. Isto é uma fonte de força porque evita que os membros sejam formalmente subordinados a uma autoridade superior. Também é uma fonte de fraqueza porque qualquer avanço mais ambicioso precisa acomodar China, Índia, Rússia, Brasil, países do Golfo, África e parceiros asiáticos com prioridades diferentes.
Sua força real está na capacidade de colocar na mesma mesa países que possuem mercados, energia, alimentos, população, recursos minerais, tecnologia, capital, rotas e influência diplomática. Sua fraqueza está na distância entre escala e coordenação. Um grupo pode representar uma parcela enorme da população e do produto mundial e, ainda assim, ter dificuldade para criar uma câmara de compensação, uma política comercial comum, um padrão tecnológico ou uma resposta unificada a uma guerra.
A Declaração de Nova Délhi reafirmou os três pilares tradicionais do BRICS: política e segurança; economia e finanças; e relações culturais e entre povos. Também reafirmou a centralidade da ONU, a defesa do multilateralismo, a reforma da governança global e a cooperação com países parceiros. A declaração é politicamente relevante, mas uma declaração não é automaticamente um tratado. Para medir a força real do BRICS, é preciso procurar orçamento, órgão responsável, cronograma, contrato, desembolso, plataforma funcionando e relatório de execução.
Esse é o primeiro ponto didático para entender a cúpula: atividade diplomática não é a mesma coisa que capacidade operacional. Centenas de reuniões mostram que há mobilização institucional. Não provam, por si só, que os países concordaram sobre guerra, sanções, pagamentos, chips, IA ou financiamento.
Pesos desiguais
A expressão “Sul Global” é útil para descrever países que reivindicam maior representação, autonomia e espaço de desenvolvimento em uma ordem internacional construída por instituições nas quais as economias avançadas possuem peso desproporcional. No entanto, o Sul Global não é um bloco uniforme. Ele inclui grandes potências industriais, países de baixa renda, exportadores de petróleo, Estados sancionados, centros financeiros, democracias, regimes autoritários e economias integradas ao Ocidente e à China ao mesmo tempo.
A China possui escala industrial, financiamento, mercado, infraestrutura e ambição tecnológica. A Índia procura autonomia estratégica sem romper com Estados Unidos, Japão, União Europeia ou Rússia. A Rússia prioriza segurança, energia, soberania e resistência às sanções. Os países do Golfo utilizam capital, energia e logística para equilibrar suas relações com Washington, Beijing, Moscou e Bruxelas. Os países africanos têm interesses distintos em dívida, minerais, agricultura, segurança, energia e representação. A ASEAN, por sua vez, tenta manter comércio e investimentos com a China enquanto preserva vínculos com Estados Unidos, Japão, Coreia e Europa.
Essa diversidade tem uma consequência direta para o Brasil: ela reduz a possibilidade de uma barganha coletiva e previsível. Um país pode apoiar a reforma do Conselho de Segurança, mas não concordar com a posição de outro sobre Ucrânia. Pode defender moedas locais no comércio e, ao mesmo tempo, continuar dependente do dólar para crédito, seguros, derivativos e reservas. Pode aprovar princípios de governança de IA e rejeitar o compartilhamento de dados, modelos ou infraestrutura de computação.
Quanto mais heterogêneo o grupo, mais genérico tende a ser o texto final. O consenso costuma ser alcançado pela remoção dos pontos que poderiam produzir ruptura. O resultado é uma declaração ampla, com grande valor político, mas com mecanismos de implantação ainda limitados.
Construir pontes
A fragmentação também pode favorecer o Brasil. Quando não há uma posição única, aumenta a procura por países capazes de construir pontes. O poder brasileiro, nesse caso, não é um veto jurídico. É um poder de agenda: propor linguagem, conectar fóruns, aproximar posições, inserir salvaguardas e criar coalizões específicas.
O Brasil pode ser mais influente em clima, agricultura, saúde, segurança alimentar, financiamento, desenvolvimento, energia e reforma institucional do que em guerra, sanções, segurança euro-asiática ou tecnologia de fronteira. Sua influência cresce quando oferece ativos concretos: mercado consumidor, produção de alimentos, energia renovável, biodiversidade, dados, diplomacia, legitimidade latino-americana e capacidade de executar projetos.
O risco é o Brasil presumir que pode falar automaticamente em nome de todo o Sul Global. Não pode. A estratégia mais realista é formar coalizões por tema. Em reforma institucional, Brasília pode aproximar América Latina, África, Índia e países árabes. Em financiamento e clima, pode combinar NDB, Banco Mundial, BID, bancos regionais e fundos climáticos. Em tecnologia, pode negociar simultaneamente com Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia, Taiwan, China, Índia e Golfo.
A expansão do BRICS não transforma o Brasil automaticamente em líder. Ela aumenta o valor de um Brasil que tenha capacidade de oferecer alternativas. Sem indústria, financiamento, infraestrutura e liderança regional, o país corre o risco de ser apenas um participante numeroso em uma coalizão na qual outros atores possuem mais capital, tecnologia e poder de coerção.
Nações Unidas em xeque
Falar em esvaziamento institucional da ONU não significa afirmar que a organização desaparecerá. Significa observar uma perda relativa de capacidade de execução. A ONU conserva universalidade, legitimidade jurídica, capacidade de convocação e uma linguagem comum para problemas que nenhum fórum regional consegue substituir completamente. Ao mesmo tempo, depende dos membros para dinheiro, tropas, transporte, inteligência, proteção, acesso territorial e implantação.
O orçamento regular aprovado para 2025 ficou em aproximadamente US$ 3,72 bilhões. O orçamento de manutenção da paz para o ciclo de julho de 2024 a junho de 2025 foi de aproximadamente US$ 5,6 bilhões. Em 21 de setembro de 2026, a lista oficial registrava 141 membros que pagaram integralmente suas avaliações regulares de 2026, incluindo Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Esses dados mostram que a capacidade da ONU depende de contribuições estatais. Eles não permitem, sozinhos, calcular o déficit agregado, o caixa disponível ou o impacto específico sobre cada missão.
A ONU também não possui um exército próprio. Militares e policiais são cedidos pelos países-membros. O Conselho de Segurança autoriza missões, a Assembleia Geral aprova o orçamento e os Estados fornecem pessoal, equipamento e logística. A Carta prevê acordos especiais para disponibilização de forças, mas essa previsão não criou uma força mundial permanente que possa ser mobilizada independentemente dos governos nacionais.
A amarra decisiva
O veto é outra limitação decisiva. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — podem bloquear decisões substantivas. O Brasil pode formar coalizões na Assembleia Geral, participar de operações de paz, ocupar assentos eletivos, propor linguagem e articular grupos regionais, mas não possui o veto formal dos P5.
O Pacto para o Futuro, aprovado em 2024, defende uma ONU mais representativa, financiamento previsível, reforma do Conselho de Segurança e discussão sobre o uso do veto. Isto é politicamente importante, mas não altera a Carta. Não cria novos assentos, não garante um assento permanente para o Brasil e não obriga os membros permanentes a limitar o uso de seu poder.
A sede da ONU em Nova York é uma vulnerabilidade logística e política, mas não é o centro exclusivo de sua dependência. A Organização funciona por meio de uma rede de sedes, agências, missões, bancos, secretariados e centros regionais. A localização nos Estados Unidos amplia a capacidade de Washington pressionar circulação, vistos, financiamento e acesso. A dependência mais profunda, porém, está na combinação entre dinheiro, veto, força militar, logística e infraestrutura financeira.
Para o Brasil, a alternativa não é abandonar a ONU. É operar em uma arquitetura de camadas. A ONU deve continuar sendo o espaço de legitimidade e direito. BRICS, G20, NDB, MERCOSUL, CELAC, IBAS, G77/China, CPLP e coalizões temáticas devem ser usados para construir barganha e execução. Bancos tradicionais e novos bancos devem ser tratados como instrumentos complementares. Organizações regionais podem responder mais rapidamente, mas não possuem a universalidade e a autoridade jurídica da ONU.
O resultado mais provável é uma ONU formalmente viva, mas materialmente mais dependente de coalizões paralelas. A Organização continuará aprovando declarações e mandatos. A execução concreta de infraestrutura, financiamento, conectividade, energia, pagamentos e tecnologia migrará parcialmente para bancos, alianças regionais e grupos menores.
A questão do dólar
A discussão sobre a desdolarização é frequentemente reduzida à escolha entre dólar, yuan, real ou rublo. O problema é mais amplo. Comércio só funciona quando existem bancos, crédito, seguros, mensagens, liquidação, ativos de reserva, arbitragem, proteção cambial, logística e confiança jurídica.
O Brasil já possui um exemplo concreto em pequena escala: o Sistema de Pagamentos em Moeda Local do MERCOSUL. Ele permite que determinadas operações sejam liquidadas sem que cada pagamento precise passar diretamente pelo dólar, mas depende de instituições participantes, regras, conversibilidade e equilíbrio entre fluxos. Isso é muito diferente de uma moeda comum do BRICS.
O NDB é o componente mais material do BRICS. O banco possui personalidade jurídica, capital, carteira de projetos, rating e capacidade de captação. Em 2024, aprovou novos empréstimos, registrou financiamento climático expressivo e informou que 43,5% das aprovações foram denominadas em moedas de membros, sobretudo renminbi e rand. Esse é um avanço real na diversificação financeira, mas captação, aprovação e desembolso são coisas diferentes. Um banco pode captar em dólar, euro, renminbi ou rand, converter parte dos recursos por meio de swaps e emprestar em outra moeda. A moeda do título não precisa ser a mesma moeda do empréstimo. Financiamento em moeda local reduz certos riscos para o tomador, mas não elimina risco de liquidez, taxa de juros, hedge, contraparte ou disponibilidade de ativos.
O NDB ainda não substitui FMI, Banco Mundial, bancos regionais, BNDES, FINEP ou mercados privados. Sua importância é complementar: ampliar opções, financiar projetos, testar moedas locais e dar ao Sul Global um instrumento próprio de negociação.
Infraestrutura
A Belt and Road Initiative (BRI), ou Iniciativa do Cinturão e Rota, é uma estratégia chinesa de conectividade, financiamento, construção, operação e padronização de infraestrutura. Ela pode aumentar a influência chinesa sobre portos, ferrovias, energia, telecomunicações e cadeias logísticas, mas uma ferrovia, um porto ou um terminal não equivale ao controle de toda uma rota global. A formulação mais precisa é poder sobre nós críticos da rede.
A influência chinesa pode aparecer na operação de um terminal, no financiamento de uma obra, na escolha de fornecedores, nos padrões técnicos ou na orientação do comércio. Isso não significa controlar todo o território, o estreito, o seguro, a bandeira do navio, as cargas ou a decisão soberana do país anfitrião. A BRI não é um programa do BRICS, embora possa se sobrepor a países e projetos do agrupamento.
O mBridge é outra estrutura frequentemente descrita de maneira exagerada. Trata-se de uma plataforma de múltiplas moedas digitais de bancos centrais para pagamentos e liquidação transfronteiriços em corredores específicos. O projeto pode reduzir custos, tempo e dependência de bancos correspondentes. Também pode ampliar a influência de quem define o protocolo, os padrões de dados, os requisitos de acesso e as regras de conversão, mas mBridge não controla todas as transações internacionais. Não é o sistema de pagamentos do BRICS, não substitui automaticamente o SWIFT e não inclui todos os bancos, países ou moedas. O ponto geopolítico importante é o poder infraestrutural: controlar uma camada técnica pode influenciar quais transações se tornam rápidas, baratas e possíveis. Isso é diferente de comandar o dinheiro mundial.
A Cúpula de Nova Délhi avançou na linguagem de interoperabilidade, liquidação em moedas locais, digitalização de documentos, cadeias de valor, minerais críticos, IA e financiamento. Não criou moeda comum, BRICS Pay obrigatório, câmara de compensação universal, sistema de reservas comum, adesão coletiva ao mBridge ou adesão automática à BRI. O resultado é uma arquitetura paralela e redundante em construção, não uma ordem financeira completa.

Gráfico 1 — Participação de moedas locais nos fluxos comerciais brasileiros por parceiro, 2024. O gráfico evidencia que a utilização de moedas locais ocorre de maneira desigual e não representa uma transformação uniforme do comércio exterior.

Gráfico 2 — Evolução das exportações brasileiras em moedas locais entre 2009 e 2024. A série deve ser interpretada como corredor comercial e financeiro específico, não como abandono geral do dólar.
A experiência brasileira mostra por que é necessário separar direção estratégica de resultado operacional. Um corredor pode funcionar com moedas locais e ainda depender do dólar para reservas, seguros, financiamento, derivativos e precificação de commodities. A alternativa reduz vulnerabilidades em uma camada sem eliminar todas as outras.
A competição tecnológica não se resume à produção do melhor modelo de IA. Ela envolve uma cadeia de semicondutores e infraestrutura digital que inclui design, propriedade intelectual, software EDA, equipamentos de litografia, deposição, gravação e metrologia, gases, químicos, wafers, foundries, embalagem, teste, memória HBM, GPUs, redes, data centers, nuvem, energia, refrigeração, dados, algoritmos e talentos.
Por isso, não é correto tratar “BRICS” e “Ocidente” como dois blocos perfeitamente integrados. Os Estados Unidos lideram várias camadas de design, propriedade intelectual, EDA, aceleradores, cloud, capital e controles de exportação. A União Europeia reúne força em equipamentos, pesquisa, óptica, automotivo e regulação. O Japão é relevante em materiais e equipamentos. A Coreia do Sul possui posições críticas em memória e HBM. Taiwan concentra foundries avançadas e packaging. A China possui escala industrial, mercado, fabricação madura, montagem e investimento estatal. A Índia tem força em software, serviços e design e tenta avançar em fabs, materiais, OSAT, pesquisa e talentos.
Controle tecnológico
Os controles norte-americanos anunciados em dezembro de 2024 sobre equipamentos, software, HBM, ECAD/TCAD e entidades chinesas mostram que a computação virou instrumento de poder geoeconômico. O objetivo é limitar a capacidade chinesa de produzir semicondutores avançados para aplicações militares e inteligência artificial, mas um controle de exportação não prova sozinho o resultado da política. A eficácia depende da coordenação com Países Baixos, Japão, Coreia, Taiwan e Europa, do controle de transbordo, da capacidade chinesa de substituição e da reação das empresas.
A União Europeia responde com o European Chips Act, que procura fortalecer pesquisa, design, fabricação, embalagem, testes, competências e monitoramento. A medida aumenta a resiliência europeia, mas não cria autossuficiência imediata. A cadeia continuará internacionalizada e competitiva.
A China tenta combinar investimento, mercado, política industrial e metas de integração de IA. A diretriz “AI Plus” estabeleceu objetivos para inserir IA em setores econômicos, ampliar dados, computação inteligente, modelos, código aberto e formação. A Índia ampliou seu programa de semicondutores e passou a registrar alocações de GPUs para universidades, empresas e órgãos públicos. Estes movimentos são importantes, mas metas, dotações e alocações não equivalem a controle integral de EDA, litografia, HBM, foundries avançadas, energia, nuvem ou modelos de fronteira.
Na IA, quatro condições precisam funcionar juntas: conectividade, computação, contexto e competência. Um país pode ter dados e talentos, mas não possuir GPUs. Pode ter energia barata, mas não possuir fibra, refrigeração ou transmissão. Pode comprar acesso a uma API, mas não controlar os pesos do modelo, os dados de treinamento, o hardware ou o software de projeto.
O Brasil tem ativos importantes de contexto: língua portuguesa, dados públicos, agricultura, saúde, biodiversidade, grande mercado e potencial energético. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028, supercomputação, modelos em português, formação, serviços públicos, inovação e governança 29. O PADIS e o Brasil Semicon abrangem formalmente design, fabricação, back-end, testes, materiais, equipamentos e pesquisa.
Esses programas são oportunidades, não provas de capacidade já alcançada. O Brasil permanece dependente de GPUs, EDA, equipamentos, memória, foundries e serviços de nuvem estrangeiros. A política realista é a soberania seletiva: concentrar-se em dados, modelos em português, aplicações públicas, design aplicado, chips analógicos e de potência, sensores, radiofrequência, componentes automotivos, embalagem, teste, confiabilidade e integração.
Trunfos
Energia renovável pode ser uma vantagem para data centers, mas somente se vier acompanhada de transmissão, conectividade, água, refrigeração, licenciamento, segurança cibernética e preço competitivo. Minerais estratégicos, como lítio, nióbio e silício, também não substituem EDA, máquinas de litografia, HBM, GPUs e foundries. O objetivo não é fabricar todos os componentes do mundo. É impedir que uma interrupção em um único fornecedor paralise defesa, telecomunicações, agro, indústria, saúde e pesquisa.
Soberania, no século 21, não é apenas possuir território e bandeira. É conseguir manter energia, alimentos, comunicações, dados, pagamentos, crédito, defesa, transporte, medicamentos e tecnologia durante uma crise.
A defesa nacional depende cada vez mais de satélites, sensores, semicondutores, criptografia, radares, comunicações seguras, nuvem, inteligência artificial, navegação, componentes eletrônicos, manutenção e cadeias de reposição. Comprar uma plataforma estrangeira não significa controlar seu ciclo de vida. Um sistema pode ficar vulnerável se o fornecedor interromper atualizações, bloquear peças, alterar licenças, limitar software ou controlar a infraestrutura digital necessária para operá-lo.
Contratos de defesa e infraestrutura estratégica precisam prever fornecedores múltiplos, estoques críticos, auditoria de software, portabilidade, operação degradada, segurança cibernética, direito de manutenção e continuidade de atualização. Essa é a diferença entre adquirir equipamento e construir soberania.
Área de influência
A América do Sul é outra dimensão da soberania brasileira. A influência que o Brasil precisa exercer sobre seus vizinhos deve ser incisiva no sentido de ser propositiva, institucional e capaz de oferecer bens públicos. Não se trata de coerção ou tutela. Trata-se de oferecer infraestrutura, integração energética, corredores logísticos, segurança alimentar, cooperação de defesa, monitoramento de fronteiras, saúde, satélites, conectividade, compras conjuntas e financiamento.
MERCOSUL, CELAC, mecanismos amazônicos e fóruns sul-americanos não podem permanecer apenas protocolares. A ausência brasileira em projetos regionais abre espaço para que China, Estados Unidos, União Europeia, Rússia e países do Golfo preencham lacunas de infraestrutura, crédito, segurança e tecnologia. A presença estrangeira não precisa ser rejeitada. O ponto é o Brasil negociar de uma posição na qual seus vizinhos também tenham alternativas.
O risco de o país se tornar um “nanico geopolítico” não está apenas em perder prestígio. Ele aparece quando o Brasil mantém um grande mercado, mas possui baixa capacidade de financiamento; compra tecnologia sem absorção; exporta produtos primários sem adensamento; não protege infraestrutura crítica; não coordena os países vizinhos; e não transforma suas posições diplomáticas em projetos.
Fragmentação
O cenário mais provável é o de fragmentação administrada. Estados Unidos, China, União Europeia, Japão, Coreia e Taiwan continuarão cooperando em algumas cadeias e competindo em outras. O BRICS seguirá defendendo maior representação e autonomia. A ONU permanecerá como arena universal, enquanto NDB, bancos regionais, organizações regionais e coalizões temáticas executarão partes da agenda.
Um cenário mais duro seria a bifurcação tecnológica. Novos controles sobre GPUs, HBM, EDA, equipamentos e foundries, combinados com uma crise em Taiwan, sanções ampliadas ou interrupções marítimas, poderiam elevar preços, prazos e riscos de licença para o Brasil. Mesmo sem participar diretamente de um conflito, o país sofreria os efeitos sobre cloud, automóveis, telecomunicações, defesa, agro e indústria.
Outro cenário seria o de um BRICS funcional e seletivo. O grupo não precisaria resolver todas as guerras ou criar uma moeda comum. Bastaria entregar alguns bens públicos: interoperabilidade de pagamentos, seguro de comércio, financiamento do NDB, energia, agricultura, vacinas, satélites, formação técnica, dados e projetos de IA. Nesse cenário, o Brasil ganharia poder se liderasse projetos verificáveis.
Há também o risco de deriva institucional. Cúpulas, reuniões e declarações continuariam, mas sem orçamento, cronograma, agência responsável ou execução. O poder brasileiro de moderar a linguagem poderia crescer marginalmente, enquanto sua capacidade de obter resultados cairia.
Diversidade nas relações
O melhor cenário para o Brasil é o da autonomia conectada. O país mantém canais com China, Índia, Rússia, Golfo, Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia e Taiwan. Executa PBIA e Brasil Semicon com métricas públicas. Desenvolve energia, dados, modelos em português, design, sensores, embalagem e aplicações. Fortalece Defesa Nacional e infraestrutura crítica. Coordena América do Sul. Usa BRICS e ONU de modo complementar, sem transformar nenhum dos dois em substituto absoluto do outro.
A Cúpula de Nova Délhi não criou uma nova ordem econômica, uma moeda do BRICS ou uma aliança tecnológica vinculante. A Semana de Alto Nível da ONU também não produziu a substituição formal da ordem existente. Os dois acontecimentos, juntos, mostraram uma disputa ampliada por regras, voz, infraestrutura e capacidade de barganha.
A China acelera sua ascensão industrial, comercial, financeira e tecnológica. Os Estados Unidos utilizam alianças, controles de exportação, sanções, capital, tecnologia e poder militar para preservar posições estratégicas. A União Europeia possui interesses próprios, combinando regulação, mercado, tecnologia industrial e dependência de alianças. Índia, Brasil, Golfo Pérsico, África e Sudeste Asiático tentam preservar espaço de manobra.
O BRICS é importante porque cria opção. A ONU é importante porque oferece universalidade e legitimidade. O NDB é importante porque transforma parte da cooperação política em crédito. A BRI é importante porque mostra como infraestrutura e logística produzem poder de rede. mBridge é importante porque revela que sistemas de pagamento também podem ser instrumentos geopolíticos. Nenhum deles, isoladamente, substitui o sistema inteiro.
A fragmentação do Sul Global diminui a força coletiva, mas pode aumentar o valor do Brasil como ponte. Para que essa ponte não seja apenas retórica, o país precisa oferecer capacidade material. Isso significa defender sua soberania, proteger sua Defesa Nacional, construir indústria, absorver tecnologia, fortalecer ciência, coordenar a América do Sul e manter canais diplomáticos com todos os polos relevantes.
O Brasil não precisa escolher um dono. Precisa escolher uma estratégia. Esta estratégia deve ser de diversificação, soberania seletiva, defesa da ordem jurídica, capacidade regional e interdependência administrada. A autonomia não será obtida isolando-se do mundo, nem trocando a dependência de um centro por dependência de outro. Será obtida quando o Brasil puder negociar com vários centros porque possui energia, mercado, tecnologia, defesa, financiamento, produção e vizinhos dispostos a cooperar.
Permanecem em monitoramento a composição efetiva do BRICS e o status de membros e parceiros; a execução financeira do NDB e do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial; o volume real de pagamentos em moedas locais; a implementação de projetos de interoperabilidade; novas restrições sobre GPUs, memória HBM, EDA e equipamentos de fabricação; a capacidade de substituição tecnológica chinesa; a reforma do Conselho de Segurança; o caixa das operações de paz; a evolução da BRI e do mBridge; a situação de Taiwan; os custos de frete, seguro, energia e fertilizantes; e a capacidade brasileira de transformar cooperação regional em infraestrutura, defesa, financiamento e tecnologia.
O teste do BRICS, da ONU e da política externa brasileira não será a força de suas declarações. Será a capacidade de entregar financiamento, pagamentos, energia, tecnologia, segurança e desenvolvimento com autonomia suficiente para que nenhuma potência possa fechar todos os caminhos relevantes. O cenário permanece aberto. A preparação brasileira não pode esperar que ele se feche.
*Editor do canal Fala sério total!


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