Loucura diplomática

Por Pedro Paulo Rezende

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, subiu o tom do seu discurso em relação à República Popular da China. Sem nenhum pudor diplomático, atacou uma cláusula pétrea das políticas externas e internas do país asiático, respeitadas pelas administrações anteriores, inclusive de Donald Trump. Este ponto é a ideia de que existe apenas um representante legítimo do povo chinês e que a ilha e o continente integram uma mesma nação. Os norte-americanos sempre reconheceram a existência de apenas uma China e priorizam as relações com Beijing desde 1979. (Leia mais aqui)

Para Biden, a competição com Beijing como o maior desafio de política externa de sua gestão. Em seu primeiro discurso ao Congresso, ele prometeu manter uma presença militar norte-americana forte no Indo-Pacífico e fortalecer o desenvolvimento tecnológico dos EUA. Estas posições agressivas foram reforçadas em entrevista do secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, ao programa 60 Minutes da CBS News, um patrimônio cultural estadunidense.

Às vésperas de um encontro do G7 em Londres, ao ser indagado se Washington ruma para um confronto militar com Beijing, ele acusou, depois de dizer que um conflito não serviria aos interesses de nenhum dos envolvidos:

— O que testemunhamos ao longo dos últimos anos é a China agindo mais agressivamente em casa e mais agressivamente no exterior. Isto é um fato.

As afirmações foram feitas uma semana depois que Beijing decidiu duplicar o volume de importação de soja americana, uma medida vista pela comunidade internacional como um passo no sentido de apaziguar as relações entre os dois países (e que prejudicou claramente os agricultores brasileiros). O negócio era parte do acordo abrangente do governo do ex-presidente Donald Trump com Beijing, que incluiu mudanças regulatórias em tecnologia agrícola e compromissos de comprar cerca de 200 bilhões de dólares de exportações de produtos estadunidenses ao longo de dois anos.

Manobras marítimas

Durante a entrevista ao 60 Minutes, o secretário de Estado norte-americano não citou o aumento das atividades da 7ª Frota na Zona Marítima Econômica Exclusiva chinesa nos últimos dois meses. Também nada falou sobre as manobras navais organizadas pela iniciativa QUAD, que envolve Estados Unidos, Japão, Austrália e Nova Zelândia, explicitamente desenhadas para conter uma pretensa expansão de Beijing.

Simultaneamente, Biden enviou mensagens indiretas ao governo taiwanês, dando garantias à presidente Tsai Ing-Wen de que os Estados Unidos estariam prontos a intervir a favor da ilha em uma possível invasão pela República Popular da China. Trata-se de uma promessa vazia. Nos últimos quatro anos, todos os exercícios simulados realizados pelos militares norte-americanos envolvendo uma possível intervenção dos Estados Unidos em um conflito entre Beijing e Taipei terminaram com a derrota acachapante dos estadunidenses.

Em resposta, a Marinha do Exército de Libertação Popular enviou uma força tarefa de seis navios para atravessar o estreito de Miyako (entre Taiwan e Japão), numa clara demonstração de poder naval. O grupo incluía o Shandong, primeiro porta-aviões construído integralmente na China, e o Nanchang, cabeça de série da Classe Tipo 55 de cruzadores. A Força Aérea do Exército Popular de Libertação também ampliou o volume de patrulhas de aviões de combate na área adjacente à Zona de Defesa Aérea de Taipei.

Para finalizar, o presidente Xi Jinping encabeçou a cerimônia de incorporação de três novos navios de combate de grande capacidade: o submarino lançador de mísseis balísticos Changzheng (Tipo 094A); o cruzador Dalian (Tipo 055) e o porta-helicópteros de assalto anfíbio Hainan (Tipo 075) — cabeça de série de quatro embarcações só inferior em tamanho e capacidade aos porta-helicópteros da Classe América, os mais modernos do arsenal estadunidense.

Ligações perigosas

O site Politico, um dos mais prestigiosos meios analíticos dos Estados Unidos, noticiou, em novembro do ano passado, as ligações da WestExec Advisors, empresa de consultoria e lobby fundada em 2017 pelo atual secretário de Estado, com as empresas do complexo industrial-militar norte-americano. Intitulada The secretive consulting firm that’s become Biden’s Cabinet in waiting (leia o original aqui) a reportagem mostra como a firma tratava os interesses dos grandes fabricantes de armas nas discussões dos orçamentos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos no Congresso.

É óbvio que sob a influência da WestExec Advisors, o Departamento de Estado veja um confronto comercial e político entre os Estados Unidos e a República Popular da China como inevitável. Seriam duas visões de mundo divergentes, uma (pelo menos em teoria) democrática, a ocidental, e a outra autoritária. A solução passaria por ampliar a pressão militar, comercial e diplomática contra Beijing. O principal problema é a falta de uma alternativa concreta à política de incentivos econômicos proposta pelos chineses.

A República Popular da China criou uma proposta abrangente ao ressuscitar a Rota da Seda, que ligava o Oriente ao Ocidente desde a antiguidade. A iniciativa “Um cinturão e uma estrada” lançada por Xi Jinping beneficia dezenas de países de quatro continentes, inclusive da Europa. Os investimentos na África prometem grandes frutos para o agronegócio do continente.

Para desacreditar este esforço, Washington parte para a acusação de que Beijing quer exportar seus valores autoritários para outras regiões, fere os direitos humanos de minorias, como os uigures em Xinjiang, e que se recusa a respeitar compromissos assumidos com o Reino Unido antes de reincorporar Hong Kong.

As acusações de que os uigures são submetidos a trabalho escravo na indústria do algodão não se sustentam. O cultivo é completamente mecanizado. Os centros de reeducação destinados a radicais islâmicos fundamentalistas, apresentados pelo Ocidente como prisões inexpugnáveis, possuem muros baixos e baixa segurança. As condições em Guantánamo e dezenas de outras prisões mantidas pelos Estados Unidos em território estrangeiro são comprovadamente, piores, com casos comprovados de tortura. É preciso lembrar ainda que, durante a administração britânica, Hong Kong nunca teve uma eleição.

As ligações perigosas de Biden e Blinken também se manifestaram na escolha de Katherine Tai como negociadora principal dos Estados Unidos para assuntos comerciais. Nascida em Connecticut de pais chineses, ela tem profundas ligações com Taiwan e se orgulha de ter defendido as posições americanas contra a China em painéis da Organização Mundial do Comércio. Desta forma fica mais fácil explicar a visita a Taipei, em 15 de abril, de uma comitiva informal formada sob as bênçãos da Casa Branca.

Estímulo separatista

O grupo era constituído do ex-senador democrata Chris Dodd, que exerceu mandato entre 1981 e 2011, e por dois ex-secretários de Estado: James Steinberg, que serviu no governo Barack Obama, e Richard Armitage, ligado ao ex-presidente George W. Bush. Durante sua passagem em Taiwan, conversou com o ministro de Negócios Estrangeiros, Joseph Wu, e a presidente Tsai Ing-wen. Os encontros discutiram a segurança da ilha diante das possíveis ameaças da República Popular da China.

Biden manteve o esforço rearmamentista iniciado pelo seu antecessor, Donald Trump, a partir de uma solicitação da presidente Tsai Ing-wen. Eleita pelo Partido Progressista Democrático (PPD), que defende a independência de fato da ilha, ela modernizou os caças F-16C/D ao padrão F-16V e adquiriu 500 mísseis antinavio Harpoon e SLAM-LR. O pacote custou US$ 4,8 bilhões. Além disto, foi aprovada a construção em estaleiros taiwaneses de oito submarines convencionais com equipamentos eletrônicos norte-americanos.

O governo de Beijing acusou o governo dos Estados Unidos de interferência nos negócios internos do país. O porta-voz do escritório do Conselho de Estado para Negócios de Taiwan, Ma Xiaoguang, foi claro:

— Não abandonamos a hipótese do uso da força se for necessário e rejeitamos todas as interferências externas que favorecem os poucos separatistas. Definitivamente, não miramos nossos compatriotas na ilha.

Foi uma clara resposta a Biden. As constituições da República da China, nome oficial de Taiwan, e da República Popular da China reconhecem que a ilha e o continente integram o mesmo país, possuem interesses iguais (leia mais aqui) e isto não vai mudar.

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