Racha entre continente e ilha

As constituições da República da China, nome oficial de Taiwan, e da República Popular da China reconhecem que a ilha e o continente integram o mesmo país. Os dois lados do Estreito de Formosa também compartilham boa parte das reivindicações territoriais, com a denúncia de todos os tratados injustos impostos pelas potências ocidentais e o Japão (leia mais aqui).

O racha teve início em 1927, quando o generalíssimo Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista (Kuomitang), determinou que o exército assassinasse milhares de militantes de esquerda na cidade de Xangai. Os militantes remanescentes, em boa parte estudantes, retiraram-se para Nanchang, capital da província de Jiangxi, onde organizaram o Exército de Libertação Popular, liderado por Mao Zedong e Chu Enlai.

No dia 16 de outubro de 1934, 100 mil comunistas (70 mil deles camponeses) romperam o cerco do Kuomitang e abandonaram suas bases em Jiangxi e partiram para uma jornada de 9,6 mil quilômetros até Yan’an, província de Shaanxi ao norte do país, deixando para trás mulheres e filhos e uma retaguarda de 28 mil soldados, vinte mil deles doentes e feridos. Na travessia, que se encerrou em 22 de outubro de 1935, o Exército de Libertação Popular terminou por consolidar a identidade revolucionária do movimento. As novas posições eram mais defensáveis e permitiam que a União Soviética fornecesse apoio logístico e treinamento.

O grosso das forças nacionalistas era formado por exércitos particulares comandados por senhores da guerra. Chiang Kai-shek desconfiava da lealdade da maioria dos seus generais e fornecia pouco equipamento e munição. Em 1937, os japoneses invadiram o território chinês a partir da Manchúria e os dois adversários se uniram contra o inimigo interno.

Segunda Guerra Mundial

Em 1939, a Alemanha, governada por Adolf Hitler, se uniu à Itália e o Japão em um eixo de países autoritários. A invasão da Polônia pelas forças alemãs em setembro de 1939, deu origem à Segunda Guerra Mundial. A França e o Reino Unido saíram em defesa do país atacado. Em 1940, as unidades germânicas conquistaram toda a Europa Ocidental. Apenas os britânicos conseguiram resistir.

Em 1941, Hitler cometeu seu maior erro: invadiu a União Soviética. O avanço inicial da Alemanha esbarrou na resistência em Moscou e, em apenas dois anos, depois das batalhas de Stalingrado e de Kursk, suas forças foram obrigadas a entrar na defensiva.

Os planos do Japão de expansão na Ásia incluíam as Índias Orientais Holandesas, a Indochina (controlada pela França), e as colônias britânicas da Malásia, Birmânia e Singapura. Para conseguir estas metas, era necessário neutralizar a Marinha dos Estados Unidos. No dia 7 de dezembro de 1941, seis porta-aviões da Imperial Marinha Japonesa atacaram a base de Pearl Harbor no arquipélago do Havaí. O Exército Imperial do Japão invadiu as Filipinas e todas as colônias europeias na Ásia, com exceção da Índia e do Ceilão.

Os japoneses perceberam sua inferioridade militar em relação à União Soviética, depois de vários conflitos na fronteira entre a Mongólia e a Manchúria em 1939. Diante disto, firmaram um tratado de não-agressão com Moscou. Os japoneses subestimaram o potencial industrial norte-americano e entraram na defensiva em 1942, depois da Batalha de Midway.

Em maio de 1945, as forças soviéticas invadiram Berlim e consolidaram a derrota da Alemanha. A Itália se rendeu em 1943. Os Estados Unidos estavam prestes a invadir o território metropolitano do Japão. Este quadro ficou ainda mais desesperador com a declaração de guerra da União Soviética, que invadiu a Manchúria e a Coreia, e a explosão de duas bombas nucleares norte-americanas nas cidades de Hiroxima E Nagasaki. A rendição foi inevitável.

Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, Chiang Kai-shek retomou a campanha contra o Exército de Libertação Popular. Melhor organizados e com apoio civil, apesar de ter equipamento pior, os comunistas venceram e Mao Zedong proclamou, na Cidade Proibida de Beijing (sede do poder imperial) a fundação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949. Com apoio norte-americano, as forças do Kuomitang conseguiram se retirar para Taiwan. Apesar de não representar mais a maioria da população chinesa, a república da China manteve o assento e o poder de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

Prova de fogo

Em 25 de junho de 1950, menos de um ano depois da vitória comunista, o novo regime enfrentou um grande desafio. A Península da Coreia fora dividida em duas esferas de influência a partir do Paralelo 38. Ao sul, foi fundada a República da Coreia, sob a influência ocidental. Ao norte, estava a República Democrática da Coreia, de orientação comunista e liderada por Kim Il-sung. Sem nenhum alerta ao líder da União Soviética, Joseph Stalin, e da República Popular da China, Mao Zedong, ele decidiu invadir a parte meridional. A ofensiva foi bem sucedida e os sul-coreanos e norte-americanos chegaram a ficar encurralados em um pequeno perímetro em Pusan.

Os Estados Unidos convocaram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em 27 de junho de 1950, como resposta à agressão de Kim Il-sung. O embaixador soviético, Yakov Malik, tinha poder de veto, mas não estava presente na sessão, com isto, foi aprovada uma resolução permitindo a intervenção internacional no conflito. O contingente incluía soldados de 21 países, mas cerca de 90% dos efetivos eram formados por soldados estadunidenses.

Por meio do embaixador indiano em Beijing, Kavalam Madhava Panikkar, Mao Zedong enviou uma mensagem clara ao governo norte-americano: a República Popular da China não interviria no conflito se as tropas das Nações Unidas não ultrapassassem o Paralelo 38. As forças da coalizão eram comandadas por Douglas MacArthur, um general experiente, responsável pelo governo de ocupação do Japão.

Visceral anticomunista e amigo íntimo de Chiang Kai-shek, ele percebeu que a Guerra da Coreia abria uma janela de oportunidade para tentar derrubar o regime chinês. Sua ideia era unificar as Coreias para usar a península como cabeça de ponte para forças de guerrilha trazidas de Taiwan. Desta maneira, ignorou as ameaças de Mao Zedong de intervir no conflito. Com manobras audaciosas, como um desembarque na cidade de Inchon (próxima ao Paralelo 38), MacArthur cortou a retaguarda norte-coreana, ultrapassou a fronteira estabelecida em 1945 no dia 25 de setembro e avançou a uma distância de apenas 20 quilômetros da fronteira chinesa.

O governo da República Popular da China já estava preparado para esta eventualidade. Em segredo, sob o comando do marechal Peng Dehuai, organizou três grupos de exército, com um efetivo total de 400 mil homens. Em 14 de outubro, o “Corpo de Voluntários” interveio e conseguiu uma grande vitória sobre os experientes soldados estadunidenses. Desmoralizado, MacArthur solicitou ao presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, a autorização para lançar armas nucleares contra o inimigo. Com justificado receio de um conflito mundial, o chefe de Estado norte-americano recusou e demitiu o comandante das forças das Nações Unidas.

O marechal Peng Dehuai tinha objetivos bem definidos pelo governo da República Popular da China: restabelecer a fronteira original. A partir daí, o conflito se resumiu a uma guerra de posições sem grandes ofensivas até que todos os lados firmaram um armistício em 27 de julho de 1953.

Aproximação e reconhecimento

Com a Guerra da Coreia, a República Popular da China mostrou que um novo poder despontara na Ásia. Beijing apoiou a ofensiva das forças comunistas de Ho Chi Minh, que ocupavam o norte do Vietnã, contra os franceses, que lutavam para manter o controle da Indochina (colônia formada pelos territórios do Camboja, do Laos e do Vietnã). Em 1956, os norte-vietnamitas obtém uma vitória decisiva contra as forças coloniais em Dien Bien Phu. A partir daí, o território vietnamita foi dividido em dois governos: no norte, comunista, no Sul, capitalista, mas o conflito permaneceu.

Os Estados Unidos passaram a dar apoio ao Vietnã do Sul. O Vietnã do Norte contava com o apoio da União Soviética e da República Popular da China, que enviaram consultores e equipamento militar. A guerra entrou em uma espiral de violência que passou a drenar recursos financeiros e militares norte-americanos nas administrações de Dwight Eisenhower (republicano), John Kennedy e Lyndon Johnson (democratas).

Em 1967, 400 mil militares norte-americanos participavam dos combates. A opinião pública acompanhava o conflito diariamente pelos telejornais e a constante exposição à violência cobrou o preço. O movimento pacifista passou a impor sua agenda em inúmeros protestos pelo país.

Em 1968, a insatisfação popular levou o republicano Richard Nixon à casa Branca. O novo secretário de Estado, Henry Kissinger, não demorou a perceber que a Guerra do Vietnã era uma causa perdida. Com o apoio da França, ele iniciou em 1970, conversações secretas com o representante norte-vietnamita, Le Duc Tho, que resultaram na assinatura de um acordo que colocou um fim na presença estadunidense nos combates em 1973.

Kissinger via na República Popular da China um contraponto ao crescimento da presença soviética entre as nações socialistas. Em 1971, os Estados Unidos não vetaram a iniciativa de integrar Beijing como legítimo representante do povo chinês e membro permanente da Organização das Nações Unidas, substituindo a República da China, com direito de veto, no Conselho de Segurança.

Em 1972, ele promoveu um encontro entre Nixon e Mao Zedong. Na reunião, o presidente norte-americano reconheceu que Taiwan era parte integrante da China. Caberia ao democrata Jimmy Carter, em 1979, normalizar as relações diplomáticas entre Beijing e Washington. (PPR)

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