Guerra suja

Por PEDRO PAULO REZENDE

As questões éticas passaram para segundo plano na disputa de um mercado de US$ 140 bilhões que envolve o desenvolvimento de vacinas contra o COVID 19. Em função do pânico gerado pela pandemia, companhias farmacêuticas dos Estados Unidos, França e Reino Unido lutam para garantir um produto mais eficiente e lucrativo. Diante deste cenário, as críticas surgem nos meios de comunicação de maneira a desqualificar eventuais concorrentes. As empresas norte-americanas dispararam acusações contra os métodos de pesquisa russos.

Em um primeiro momento, afirmaram que o Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya usara hackers para espionar a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneka que desenvolvem a mais avançada alternativa ocidental. Os britânicos empregaram adenovírus de símios como vetores, enquanto, na Rússia, usou-se adenovírus humanos, a exemplo do que fizeram no desenvolvimento de um sistema imunológico contra um dos mais letais organismos existentes, o Ebola.

Em uma segunda etapa, depois do anúncio do presidente Vladimir Putin, os ataques foram dirigidos contra os métodos usados para a validação da vacina. A publicação de um artigo assinado pelos pesquisadores do Instituto Gamaleya na prestigiosa revista médica The Lancet pacificou boa parte da comunidade científica, mas ainda atraiu algumas críticas de alguns especialistas. Coordenados pelo italiano Enrico Bucci, publicaram uma carta aberta no site italiano Cattivi Scienziati, especializado em expor pesquisas pseudocientíficas, em que expressaram dúvidas sobre os dados da Sputnik V.

Os ataques perderam força a partir do momento em que se revelou que Enrico Bucci é dono da companhia Resis Srl, que oferece serviços de adequação, edição e revisão de pesquisas científicas para publicação em revistas especializadas. O conflito de interesses somente veio à tona após solicitação oficial dos especialistas russos à revista The Lancet.

O ataque dirigido por Bucci coincidiu com o anúncio de que dois pacientes inoculados pela vacina britânica foram atingidos por mielite transversa, uma doença que atinge a espinha dorsal e que pode causar paralisia, o que determinou uma pausa na vacinação em massa com o produto.

Nova fase

Enquanto a Universidade de Oxford e a AstraZeneka revisam seus dados, o Ministério da Saúde da Federação Russa se prepara para vacinar em massa a população do país. Os métodos empregados para a validação da Sputnik V, derivado de normas militares de enfrentamento de ameaças biológicas, foram apresentados neste site em matéria publicada anteriormente (leia mais aqui). Os russos usaram um modelo extremamente cuidadoso e detalhado, que incluiu a internação dos pacientes durante 45 dias, o que permitiu avaliar o avanço do grau de imunidade ao COVID 19 e os efeitos colaterais da vacina minuto a minuto. Nenhum outro instituto de pesquisa utilizou um modelo tão cuidadoso em sua segunda fase. Em geral, os voluntários eram inoculados e retornavam a cada sete dias para medir o processo de imunização.

Uma das críticas feitas contra o Instituto Gamaleya centra-se na ausência de um grupo de controle no qual se inoculou placebo em lugar da vacina. Trata-se de uma questão ética séria: em plena pandemia seria válido usar um produto inócuo em um voluntário? Os russos acham que não. Todos os voluntários receberam e serão inoculados com a Sputnik V.

No momento, há poucas alternativas à Sputnik V e à Coronavac, fabricada pela Sinovac Biotech SVA chinesa (desenvolvida a partir de vírus inativado, um método antigo e menos seguro). A vacina de Oxford precisa provar que não causa graves efeitos colaterais, que podem levar à paralisia do paciente. Os esforços estadunidenses ainda não mostraram resultados, apesar dos fartos investimentos governamentais e da pressão (em boa parte determinada pelo desejo de reeleição) exercida pelo presidente Donald Trump para que apresentem um produto até o próximo mês. Enquanto isto, os países do Primeiro Mundo procuram o Instituto Gamaleya e a Sinovac para adquirir doses em quantidade suficiente para imunizar 30% da população global.

Neste quadro, nada mais inteligente para o Brasil que buscar fabricar vacinas em território nacional. Os estados do Paraná, com a Sputnik (Distrito Federal e Bahia também têm interesse), e de São Paulo, com a Coronavac, seguiram este caminho. A demanda global vai gerar escassez no mercado de vacinas e não há nada mais lógico que produzir algo de alto valor agregado e que beneficiará a humanidade em curtíssimo prazo.

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