A vacina russa é segura?

Por PEDRO PAULO REZENDE

O anúncio do registro, feito pelo presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, da primeira vacina contra o COVID 19 suscitou uma série de críticas na comunidade científica internacional. Surgiram acusações de que ela não seria segura e nem eficiente e de que os cientistas encarregados do desenvolvimento teriam pulado etapas de testes. De acordo com especialistas ocidentais, seria impossível desenvolver uma vacina efetiva no prazo exíguo de cinco meses.

Os especialistas envolvidos na pesquisa e desenvolvimento da Sputnik V rebateram as críticas de seus colegas ocidentais afirmando que a vacina emprega tecnologia segura, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya há mais de 20 anos.

Desenvolvida pelo Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, criado em 1891, com recursos obtidos pelo Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI, na sigla em russo), a vacina, batizada de Sputnik V, é aplicada em forma de solução intramuscular, administrada em duas etapas, com intervalos de três semanas. Esse procedimento permitiria a formação de imunidade por até dois anos, segundo o Ministério da Saúde da Rússia.

Imunidade surpreendente

Quando os primeiros casos de COVID 19 apareceram na região de Moscou, em fevereiro, os pesquisadores do Centro Nacional de Investigação de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, criado em 1891, perceberam que parte da população russa apresentava uma resposta imunológica extremamente efetiva contra o vírus. Estudando os antecedentes, verificou-se que a maioria fora afetada por um surto de doença respiratória em 2018, controlado rapidamente pelas autoridades sanitárias. O patógeno era aparentado com o organismo causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), que possui 80% de comunabilidade com o agente pandêmico atual.

Divulgação – FTT

O MERS era um organismo extremamente conhecido pelos pesquisadores do instituto, que desenvolveu uma vacina para as autoridades sauditas. A técnica usava como vetores adenovírus, organismos que vivem no corpo humano, enxertados com pedaços do DNA do patógeno. A mesma técnica também foi empregada em 2015 pelos especialistas russos no desenvolvimento de uma prevenção efetiva contra o Ebola, um dos organismos mais mortais existentes. A partir desta constatação, sob a liderança do vice-diretor do centro, Denis Logunov,os pesquisadores resolveram utilizar a mesma linha para enfrentar a ameaça do COVID 19. Os resultados foram rápidos. Em abril, já se trabalhava com um produto promissor para testes em humanos.

Tradição

Antes de iniciar os testes com voluntários, os participantes da pesquisa inocularam a vacina em si mesmos e em alguns de seus familiares, uma iniciativa que causou algumas críticas da Associação de Organizações de Pesquisa Clínica (AOKI, na sigla em russo), afirmando que a prática iria contra os padrões internacionais e seria uma violação das regras. Logunov respondeu que o grupo estava sob risco permanente, uma vez que analisava todo o plasma dos doentes da COVID-19 em Moscou. Com conhecimento dos possíveis efeitos colaterais, o Instituto Gamaleya partiu para testes mais amplos.

Cabe aqui uma explicação: a prática de usar parentes diretos em experimentos de risco é uma tradição russa. Um bom exemplo está nos testes de lançamento por paraquedas de carros de combate tripulados. Na época, as Forças Aerotransportadas da União Soviética estavam sob comando do general Vasily Margelov, conhecido por seus comandados como “Tio Vania”. No primeiro teste, o blindado atingiu o solo como previsto diante do ministro da Defesa e do Alto Comando do Exército Vermelho. A tripulação, comandada por um tenente, desceu do veículo, soltou o paraquedas, ligou os motores e se deslocou até o palanque. Ao se apresentar, o oficial bateu continência e disse:

— Tenente Vitaly Margelov se apresentando!

Era o filho do general Margelov.

Isolamento completo

Para a segunda etapa, realizada em maio, foram aceitos 50 voluntários militares (entre eles cinco mulheres), na faixa etária de 30 a 35 anos, e 38 voluntários civis, na faixa etária de 18 a 60 ano, incluindo uma das filhas do presidente da República, Vladimir Putin. Os testes foram realizados no Instituto Central de Pesquisas Cientificas №48 do Ministério da Defesa da Federação Russa. Esta organização, a exemplo do Instituto Gamaleya, integra o sistema militar do país contra guerra biológica. Ao contrário das práticas do Ocidente, todos os pacientes foram internados por um prazo superior a 30 dias.

Divulgação – Sputinik V

Ao chegar ao local da pesquisa, cada paciente passou por uma bateria de exames para contatar que estavam em plenas condições de saúde. A partir daí, os voluntários ficaram 15 dias em isolamento completo, de maneira a evitar qualquer contaminação e garantir a pureza dos testes, antes de receberem a primeira dose da vacina. Depois da aplicação, a eficiência era medida diariamente a partir da contagem de anticorpos usando o Sistema de Teste por Quimiluminescência (IFA, na sigla em russo), desenvolvido no Centro Gamaleya pelo cientista Dmitry Viktorovich Scheblyakov.

Eficiência

O exame emprega a determinação de anticorpos contra o domínio de ligação ao receptor da proteína S do coronavírus. Desta forma, é possível determinar com grande probabilidade que o soro sanguíneo possui ação neutralizadora pela reação do IFA, sem experimentos com um organismo vivo. Esta etapa é feita em laboratório com a aplicação do soro retirado dos pacientes em exemplares do COVID 19. Os resultados obtidos mostraram que todos os voluntários desenvolveram imunidade ao organismo patógeno com a presença de anticorpos em quantidade superior à produzida por pacientes atingidos pela pandemia.

Os efeitos colaterais foram compatíveis aos de outras vacinas existentes: dor no local da aplicação; estado febril, em parte dos voluntários, de até 38° centígrados; calafrios, febre, dor de cabeça e mal-estar geral. Efeitos menos comuns são náusea, dispepsia, redução do apetite e, às vezes, um aumento dos linfonodos regionais. Não se observaram outros sintomas.

Testes em massa

Apesar de ter total confiança na Sputnik V, o governo da Rússia decidiu aplicar a vacina em 40 mil professores e médicos, público preferencial no combate à pandemia, antes de inocular toda a população. Paralelamente, há a possibilidade de testes em países do Oriente Médio e da África. Kirill Dmitriev, presidente do Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI, na sigla em russo), informou, em entrevista à Agência Sputnik, que o fundo recebeu solicitações de mais de 20 países para a compra de um total de um bilhão de doses. Ao mesmo tempo, Dmitriev observou que a Rússia concordou em produzir vacinas em cinco países com capacidades para a produção de 500 milhões de doses por ano.

Divulgação – Agencia Russa

A vacina será produzida em Moscou em dois lugares — no Instituto Gamaleya e na empresa Binnofarm. Um manual de instruções já foi divulgado, segundo a agência de notícias Sputnik. Antes de serem vacinados, diz o Centro Gamaleya, os pacientes devem ser examinados por um médico, incluindo medição da temperatura corporal. Depois disso, a pessoa deve ficar sob observação por meia hora.

A vacinação é contraindicada para mulheres grávidas e lactantes, e para aqueles que tenham:

Hipersensibilidade a qualquer componente da vacina;

Histórico de reações alérgicas graves;

Doenças agudas transmissíveis e não transmissíveis.

Para aqueles que têm doenças infecciosas agudas e não infecciosas, é aconselhado administrar o medicamento depois de duas a quatro semanas após a recuperação ou melhora. Em caso de infecção respiratória viral aguda não grave e doenças gastrointestinais infecciosas agudas, a vacinação é aconselhada após normalização da temperatura corporal.

A vacina deve ser usada com cuidado em caso de existência de:

Doenças crônicas hepáticas e renais;

Disfunção do sistema endócrino (diabetes);

Doenças graves do sistema de hematopoese;

Epilepsia, derrame e outras doenças do sistema nervoso central;

Doenças do sistema cardiovascular;

Imunodeficiências primárias e secundárias;

Doenças autoimunes;

Doenças pulmonares, asma, reações alérgicas e eczema.

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