AUKUS e a teoria do destino manifesto: O jogo perigoso Australiano.

Por Arthur Nadú Rangel e Pedro Paulo Rezende

Velhos submarinos da classe Collins – Credito: New York Times

Ao firmar tratado AUKUS, a Austrália aderiu oficialmente à ideia de que os povos anglo-saxões receberam um destino manifesto divino e têm o dever de controlar e proteger a humanidade da barbárie. O acordo, firmado com os Estados Unidos e o Reino Unido, para a construção de seis submarinos nucleares, visa a criação de um cinturão militar que impeça a expansão militar da China rumo ao Oceano Pacífico.

A pretensa superioridade moral que justificou a nova união dos povos de língua inglesa não esconde seu caráter arrogante. O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, do Partido Liberal, e o secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, ameaçaram, sem meias palavras, o premiê das Ilhas Salomão, Manasseh Sogavare, depois que o país firmou um acordo de segurança com Beijing.

Destino Manifesto foi uma expressão cunhada pelo jornalista John Louis O’Sullivan, em 1845, quando os americanos iniciaram a marcha para o Oeste. A frase resume a ideia anglo-saxões acreditarem que Deus lhe concedeu a missão de expandir sua civilização e instituições ao longo do território norte-americano. Com esta justificativa, o país se expandiu até atingir o Oceano Pacífico em um processo de limpeza étnico que custou a vida de milhões de indígenas.

Parte deste avanço foi acordado com potências estrangeiras. O tratado de Versalhes de 1783 concedeu aos Estados Unidos, então restritos às Treze colônias, uma larga faixa territorial que atingiu os domínios franceses na Louisiana. Em 1803, Napoleão Bonaparte enfrentava repetidos ataques das potências europeias sob o comando da Inglaterra e, para não perder a colônia, decidiu repassá-la para Washington. Em 1819, a o Reino da Espanha aceitou vender a Flórida. Londres decidiu entregar o Oregon em 1846. A única vítima foi o México, que perdeu o Texas, a Califórnia e o Novo México em guerras desiguais entre 1845 e 1853.

A expressão “destino manifesto” justificou uma filosofia de expansão armada entre os povos de língua inglesa. A Inglaterra ampliava sua ação sobre a Ásia e iniciava a colonização da África destruindo civilizações e povos aborígenes até se transformar na maior potência do século 19. Os Estados Unidos não se limitaram à América do Norte. Por meio da guerra com a Espanha, em 1898, se transformou em um império colonial com possessões na Ásia e Oceania.

Para cumprir seu destino manifesto, os povos anglo-saxões utilizaram todos os meios, inclusive práticas pouco morais, como as duas guerras do Império Britânico, com apoio americano, entre 1839 a 1842 e 1856 a 1860, para impor o comércio do ópio no Império da China. Neste processo, quase desestruturaram uma civilização com mais de 5 mil anos de história, causando ondas de fome e a quase destruição do sistema político.

AUKUS – Aliança militar

A nova direita

O atual primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, integra a ala da extrema direita do Partido Liberal Australiano, conhecida por posicionamentos racistas, machistas e xenófobos, que vê a China como um inimigo mortal acima de qualquer sentimento lógico. Como é tradicional entre políticos desta tendência, o atual governo australiano assumiu o alinhamento automático com os Estados Unidos. Trata-se de uma posição nada pragmática, uma vez que a China é atualmente o maior parceiro econômico da Austrália e importa enormes quantidades de carne, carvão e minério de ferro.

A justificativa de Camberra para modificar seus planos de defesa camufla a subserviência aos interesses estadunidenses, chegando ao ridículo de afirmar que o objetivo é proteger o livre comércio da Austrália com a China contra as ameaças da própria China, uma argumentação sem qualquer cabimento ou lógica. Poderiam utilizar como desculpa a presença, muitas vezes ostensiva, de navios de pesca chineses, da imigração ilegal, ou mesmo da garantia da soberania das suas vastas águas territoriais. No entanto, a única justificativa do AUKUS é a oposição do destino manifesto dos países anglo-saxões à ascensão de um inimigo invisível, o Estado chinês.

Cancelamento

A Austrália planejava construir os maiores e mais modernos submarinos convencionais do mundo e buscou a solução de seus problemas na França. Era o retorno de uma antiga parceria em várias empreitadas tecnológico-militares, como o programa Mirage IIIO, que fabricou 114 unidades sob-requisitos australianos na década de 1960.

O projeto, batizado de Shortfin Barracuda, visava a construção na Austrália de doze submarinos convencionais derivados dos submarinos nucleares de ataque da Classe Sufren. O contrato abrangia a construção de um estaleiro e a criação de um centro de desenvolvimento do Naval Group em Adelaide, o que traria independência tecnológica ao país. O custo inicial, estimado em US$ 50 bilhões de dólares, saltou, em decorrência da ambição e complexidade do projeto, alcançar algo em torno de US$ 70 bilhões de dólares envolvendo valores de planejamento, construção industrial, infraestrutura, capacitação humana, etc. Os submersíveis seriam equipados com sistemas auxiliares de propulsão anaeróbica, para ampliar a autonomia enquanto submerso, e estariam aptos a disparar mísseis de cruzeiro, antinavio e torpedos.

O programa foi cancelado depois do início das obras do estaleiro na Austrália e do começo do processo de transferência de tecnologia, com equipes francesas e australianas desenvolvendo soluções integradas de ponta para as necessidades locais, um trabalho que envolvia centenas de especialistas em Toulon e em Adelaide. Além de gerar mal-estar diplomático entre Camberra e Paris, a decisão causou tensão no Extremo Oriente e na Oceania.

A França chegou a propor a modificação do contrato para incluir, entre as doze unidades, uma quantidade não determinada de uma versão nuclear do Shortfin Barracuda adequada às necessidades australianas. Não adiantou. A Austrália preferiu dar continuidade ao AUKUS. As consequências de tais escolhas já são sentidas: a quebra de contrato vai custar algo em torno de US$ 15 bilhões sem qualquer resultado ou retorno. É apenas dinheiro jogado fora (ou melhor, no bolso dos franceses).

O objetivo do Departamento de Estado norte-americano e do Pentágono é controlar o avanço de Beijing na região do Pacífico, visto que, no ritmo atual, a Marinha dos Estados Unidos não será capaz de fazer frente ao processo de expansão da Marinha da República Popular da China. Nesse cenário desenhado por Washington, este processo não se limita à Austrália; incluiria Japão, Coréia e Taiwan e outros países dispostos a lutar guerras de procuração em nome dos interesses estadunidenses. Nesse universo, os planos nacionais de soberania e defesa de cada país serão modulados pela grande estratégia norte americana.

Dificuldades operacionais

Projetar e construir submarinos nucleares de ataque é um processo caro. A Classe Virginia, da Marinha dos Estados Unidos, custa US$ 3,6 bilhões por unidade. Segundo fontes do Congresso dos Estados Unidos, a futura classe SSN-X, que começa a ser entregue em 2030, terá um preço unitário de US$ 6 bilhões. Também devemos lembrar que os Estados Unidos estão em meio à modernização e a construção de novos submarinos para atender à constante demanda estratégica do Pentágono, sem qualquer capacidade instalada para nas próximas décadas para atender interesses navais da Austrália.

O ritmo da construção naval britânica é baixo e a qualidade de seus produtos é questionável. Paradoxalmente, isto se deve ao sucesso das fragatas da classe Duke (Type 23), construídas entre 1989 e 2002. Como atendiam bem aos requisitos da Marinha Real, o Almirantado demorou a estabelecer planos para sua substituição. O retardo em estabelecer novas encomendas levou o país a perder conhecimento e capacitação, sem uma renovação adequada das equipes de projeto e de construção.

Os estaleiros militares britânicos não entregam um projeto eficiente há vinte anos. Os seis contratorpedeiros da Classe Daring (Type 45) impressionam no papel, mas apresentaram uma infinita série de problemas desde que entraram em operação em 2009. Os dois porta-aviões da Classe Queen Elizabeth apresentaram problemas básicos na fase de teste, como inundação das casas de máquinas. Os reatores dos submarinos nucleares da Classe Astute apresentam, segundo as autoridades espanholas que monitoram o porto de Gibraltar, altos índices externos de radiatividade. O custo também é excessivo: US$ 2 bi.

Créditos – Getty

Dentro desta realidade, há dúvidas críveis sobre quem irá construir os futuros submarinos de ataque nucleares para a Austrália. Qual seria o modelo? A Classe Virgínia ou a Astute? E qual será o grau de transferência tecnológica e de nacionalização? Um projeto novo levaria de 20 a 30 anos. Um fator agravante desta mudança política polêmica está na situação operacional dos seis submarinos da Classe Collins, datados de 1996, que deverão permanecer ativos até a chegada dos possíveis submarinos nucleares, que podem levar entre 30 e 40 anos para serem desenvolvidos. Os reatores norte-americanos e britânicos foram projetados há muito tempo, com projetos muito antigos e tecnologias defasadas. Ou seja: ou os australianos aceitam estas limitações ou terão de investir em outro projeto resultando em mais demora.

A frota submarina australiana é formada por seis submarinos da Classe Collins, navios de projeto sueco e de história conturbada. Eles terão por volta de 50 anos quando forem aposentados e poderão ser enquadrados, em poucos anos, na categoria de antiguidades e peças de museu em um oceano compartilhado com o alto desenvolvimento tecnológico militar de países como China, Coreia do Sul e Japão.

Conclusão

Paradoxalmente, o AUKUS, em um prazo de vinte anos, implica em um enfraquecimento da defesa australiana, graças ao envelhecimento natural dos submarinos da Classe Collins, que não terão substitutos. A solução emergencial seria o arrendamento ou venda de submarinos norte-americanos que estejam próximos a sair de serviço, o que implicaria em altos custos de modernização e de recondicionamento. Aguardar um novo projeto é aceitar uma demora de, no mínimo, 20 anos, mas isto prejudicaria o ritmo de produção de estaleiros estadunidenses e dependeria da Marinha dos Estados Unidos aceitar abrir vagas para beneficiar os australianos.

O mais grave não é necessariamente o gasto absurdo ou o longo tempo de desenvolvimento, mas sim lembrar que um plano bem amarrado e planejado de proteção geoestratégica, que contava com a França, foi abandonado em prol de interesses nos Estados Unidos. É um salto no escuro. Enquanto isso, o dinheiro dos contribuintes e o orçamento militar são comprometidos sem nenhuma garantia de sucesso, mas não se pode esperar racionalidade de um país que precisa proteger as linhas de comunicação com a República Popular da China dos militares chineses.

Créditos na Imagem

A estratégia australiana pode gerar uma escalada militar na qual o país não poderá vencer, uma luta desigual entre a potencial maior economia do mundo, com uma população incontável, contra uma nação infinitamente menor econômica e demograficamente. Neste jogo, as relações fortes da China com os países do sul asiático podem isolar a Austrália, que preferiu se alinhar com aliados localizados a milhares de milhas náuticas. É um cenário onde os australianos entrem em um jogo perigoso onde nada tem a ganhar e tudo a perder.

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