Vencer sem lutar: A estratégia americana na guerra contra a Venezuela

Por Arthur Nadú Rangel

Talvez grande parte dos estudiosos tenham em mente o sentimento de nostalgia com relação as guerras por procuração promovidas pelas duas grandes potências da Guerra Fria, era, de certa maneira, fácil perceber quando iriam acontecer, seus resultados e seus custos. As duas superpotências fomentavam revoluções e golpes em países de terceiro mundo: treinavam guerrilhas (por parte dos soviéticos) ou fomentavam golpes militares por meio da corrupção e da inteligência (Estados Unidos), porém este tipo de guerra, as guerras por procuração, poderia tomar dois caminhos, o da guerra em si: conflitos armados amplamente patrocinados por uma das potências (em alguns casos as próprias potências acabavam por entrar no conflito) e, no segundo caso, muitos dos países acabavam por se tornar ditaduras, algumas com relativa estabilidade, mesmo que à custo de direitos individuais (como visto na Síria), ou em ditaduras sanguinárias, como visto no Chile e na Argentina.

Tanto a URSS quanto os EUA patrocinaram e mantiveram por muitos anos ditaduras movidas a sangue e a violação de direitos humanos. Quando entramos no âmbito das relações internacionais devemos considerar que vivemos em um estado de natureza, não existe o conceito moral de certo ou errado, muito menos um conceito communis de correto, o conceito de moral é um conceito individual, suscetível apenas à formação cultural e local. O grande Filósofo e Professor, Joaquim Carlos Salgado, em sua principal obra A ideia de Justiça no Mundo Contemporâneo, nos explica que o senso de moral coletiva ou a ética individual não podem assumir o lugar do Direito emanado por cada nação, entretanto, na ausência de um direito universal, nos resta apenas a consideração, neste âmbito dos direitos internacionais, dos direitos mais básicos: os direitos naturais comuns, como o direito à vida e a ter direitos.

Podemos questionar: qual a importância desta introdução? Primeiramente, temos que observar que, com o fim da guerra fria, a dualidade acabou por se traduzir, em um curto período de tempo, em uma supremacia dos interesses “democráticos” dos EUA, que assumiram o papel de tutor mundial da sua ideia de liberdade. Em nome deste ideal, os EUA agiram com o objetivo de levar a sua ideia de liberdade e democracia para os mais variados países sob regimes considerados não convencionais, entre eles muitos países em que a ditadura existente foi colocada e apoiada pelos próprios EUA. Não existia mais aquela dualidade com o objetivo de demonstrar qual sistema social seria o melhor a ser adotado pelos países, o fim do socialismo serviu como momento máximo de todas as formas de capitalismo. Este período foi chamado, de forma muito sábia pela pesquisadora Naomi Klein, de “capitalismo de desastre” em seu livro A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre (leitura obrigatória para todas as pessoas independente de posições políticas). A liberdade americana de intervenção e imposição de sua visão levou à ascensão de uma forma de capitalismo desumanizada, guiada apenas pelos interesses americanos e pelos guias corporativistas dos especuladores de capital. Entretanto, o desastre não estava apenas no advento de um liberalismo de Estado, que buscasse lucrar na miséria e na destruição, mas na sua imposição ao “

“Mundo Livre” como única forma de agir e de pensar

Entretanto, a luta pela liberdade no sentido americano ignorou um detalhe: a cultura de cada país; a história e construção étnica são partes inerentes da construção social de cada nação. Ao exportar de forma forçada o seu modelo para o mundo, os EUA ignoraram este fato, impondo à muitos países a ignorância de sua própria história e de sua cultura. Para Klein, tal imposição seria seguida do advento de um “desastre”, que beneficiaria apenas o exportador do modelo; na grande maioria dos países em que o modelo foi aplicado vemos um claro rastro de destruição, com graves consequências econômicas e sociais, entretanto o rastro não importa: este país agora passa a viver sob as boas regras da liberdade proporcionada pelos ideais americanos, fazem parte do ideal americano de mundo livre — estão do lado certo da História.

Além disso, devemos considerar que os EUA são um dos poucos países do mundo a adotar um sistema social baseado na Common Law, e para maior estranhamento, apenas os EUA e a Inglaterra tiveram algum êxito em aplicar tal sistema social, enquanto todos os outros países que o fizeram acabaram por caminhar para um sistema ditatorial baseado apenas na moral individual, sobrepondo os direitos comuns inerentes a todos os seres humanos. A vitória dos EUA não deveria ser apenas no seu modelo econômico, mas também na ética de seu modelo social e legal. Tal modelo legal ignora toda a história humana, construída durante séculos na Europa, que buscava a valorização do ser humano como momento mais elevado e, principalmente, a garantia de que a justiça seria um elemento centralizante no ordenamento jurídico. Voltando a Salgado, podemos considerar que direito é apenas aquilo pode ser aplicado a todas as pessoas, de forma igual, sem distinção de classe, de poder monetário ou de status social, o Maximum ético da humanidade. Tal momento só é possível em uma sociedade pautada pelo direito líquido e certo, também conhecido como direito positivado, claro e aplicável; tal direito estaria assim acima de qualquer moral individual ou da vontade de certos grupos políticos e sociais, seria um direito para todos. Porém, o Maximum Ético é totalmente incompatível com um sistema legal baseado apenas nos costumes e na jurisprudência, uma vez que tal direito se confunde de forma elementar na ideia frágil da moral coletiva.

Após esta breve introdução, podemos entender um pouco mais do pensamento americano e assim partir para entender como todos estes elementos se voltam para os principais teatros de atividade americana no mundo dos tempos atuais: a Ucrânia e a Venezuela.

Guerras culturais

Nos dias atuais, as guerras por procuração se tornaram um instrumento obsoleto, já que não existe mais um inimigo claro para os EUA; agora o inimigo é aquilo que não é americano, ou aquilo que vá contra os ideais de Mundo Livre americano. Lutar contra esses inimigos acabou por ser não mais em sua essência uma guerra de armas e máquinas, mas uma guerra cultural. Aliado a isto, tivemos o advento da opinião interna dos cidadãos americanos, que passaram a considerar as sucessivas guerras pela liberdade inaceitáveis, pois estas ceifaram incontáveis vidas americanas por uma “guerra” que na visão popular não fazia sentido. Entretanto, a marcha americana pelo progresso não poderia ser impedida por esta questão, de modo que as guerras por procuração foram substituídas pelas guerras culturais — não devemos mais conquistar o inimigo pela força, devemos agora conquistar o seu coração e sua mente.

Neste assunto, devemos recorrer ao brilhante trabalho feito pelo Professor Paulo Roberto Cardoso, que resgata e molda uma das expressões mais importantes do Século 21 — Diatética — Vencer sem lutar. Em sua pesquisa de doutorado, Diatética Cultural — Estado, Soberania E Defesa Cultural, somos apresentados a máquina de conquistar os corações das pessoas através da cultura e da propaganda. Nos dias atuais não é necessário enviar soldados, em vez disso envia-se a cultura, a religião e sistema social da liberdade, por meio de pesquisadores, pastores e políticos, conquistando o alvo de dentro para fora.

O Professor Cardoso nos ensina que tal ferramenta começou a ser aplicada de forma mais clara no final dos anos 60, quando, além dos soldados, os EUA enviaram também repórteres e redes de TV para transmitir ao vivo para o mundo a “vitória” americana ou, independe do que aconteça, transmitir a mensagem de vitória. Com o passar do tempo, não bastava apenas enviar os jornalistas, os EUA começaram a exportar sua religião e seus “missionários” e, por final, os líderes políticos e economistas que iriam ditar o caminho da população. O país era ganho de dentro para fora!

Nos dois objetos de análise estabelecidos, a Ucrânia e a Venezuela, podemos observar que não é foi necessário enviar uma missão militar de “liberdade”. Bastou dominar os pontos chaves, dominando o pensamento econômico com pensadores formados nos EUA, a política com líderes políticos formados na Universidade de Washington, a justiça com juízes e promotores apaixonados pela Common Law, com seus mestrados e doutorados pagos pelo governo americano nas escolas americanas. As bases do país seriam corroídas de dentro para fora, com o objetivo de alavancar o grupo político que implementaria os ideais americanos no sistema político e social.

Observamos na Venezuela então este trabalho de guerra cultural, de ação diatética. Não é necessário mais conquistar o pais pela força, basta tornar o país um lugar insustentável para a vida através da destruição da economia e dos bens mais básicos para a vida.(você estava falando de mudança cultural, não de destruição)

A atual crise existente na Venezuela não é de total responsabilidade americana, fica bem claro que após a queda de Hugo Chaves o país perdeu a única figura de unidade, e seu vice, Nicolás Maduro, não foi capaz de manter a mesma força e controle sobre os rincões de poder no país, tal crise montou um cenário perfeito para ação da guerra diatética por parte dos EUA. Para os Estados Unidos não é admissível um sistema de poder, governo e político diferente do existente nos EUA, mesmo que seja um sistema bem-sucedido, o fato de ser um sistema diferente daquele pregado pelo guardião do Mundo Livre é inadmissível, ainda mais no mesmo continente.

Sofrimento imposto

Para que a ação americana seja possível é necessário que o desastre e da miséria sejam prevalentes. No caso da Venezuela, não bastasse a crise interna política causada pela inabilidade de todas as partes de serem políticos, era preciso levar o sofrimento à população para que a mesma se sinta desamparada pelo governo antiamericano. Foram feitas muitas sanções americanas, que visavam única e exclusivamente possibilitar uma escalada inflacionária. Outro exemplo claro é o confisco do ouro pertencente ao governo venezuelano por bancos ingleses; tal ouro tem a função de servir como lastro para a moeda local, desta maneira, ao “sumir” com grande quantidade do ouro do país de um dia para o outro, a moeda local perde seu valor, visto que não existe mais lastro. Todas as sanções agiram desta forma, nenhuma tinha função efetiva contra os políticos do governo, apenas contra o Estado e contra a população.

Na política de miséria americana, não basta criar ou aprofundar a crise, é necessário trazer a solução, neste caso, Juan Guaidó, notório político que teve sua formação base nas universidades americanas. Em seguida, é necessário criar uma confusão internacional com relação a representatividade do governo, com dois presidentes “reconhecidos”, cada um com o seu grupo de países apoiadores. A cereja do bolo é a suposta ajuda humanitária, que apenas agora foi oportunamente oferecida, mesmo tendo a crise econômica se iniciado há vários anos atrás, com seu auge no ano de 2017. Vale observar que a ajuda humanitária promovida pelos EUA foi considerada tão suspeita que nenhuma organização internacional tradicional quis participar da sua distribuição, chegando ao ponto de até a Cruz Vermelha questionar o oportunismo e a falta de profissionalismo com os quais a ajuda humanitária americana se apresentou.

A facada final da guerra diatética é a forte propaganda internacional direcionada a Venezuela, com a afirmação de que o governo “mau” não aceitou a ajuda “salvadora” dos EUA, criando uma imagem de ódio do atual governo contra a população. Toda esta estratégia focada na conquista dos corações e mentes dos Venezuelanos, vem com o fim de fomentar a queda do atual regime, seja através de uma guerra civil, seja através de uma forte mudança política.

Devemos ressaltar que isto não escusa o governo de seus mais variados erros cometidos contra a população, mas aqui queremos mostrar como os EUA utilizam a miséria e o desastre em seus países rivais para que sejam forçados a adotar a sua política, sua direção e sua forma de governo aceitável.

Caos e limpeza étnica

Não precisamos ir longe na história para ver a consequência dessa forma de luta cultural: a Ucrânia é um exemplo presente do laboratório de guerra cultural americana. O país foi colocado no completo caos ao promover a derrubada do governo, depois foi feito um acordo com uma área escusa da política ucraniana, notória pelo seu viés fascista, que, ao assumir o poder, promoveu a perseguição não apenas a judeus, mas também aos russos e aos descendentes de russos que habitavam o sul e o leste do país. Na política da guerra cultural vale tudo, mesmo que seja necessário “fazer o diabo” com a população para que a vontade americana seja respeitada e imposta a todos.

O que não devemos esquecer é que a política de guerra diatética não está limitada apenas aos inimigos, mas também aos aliados, como evidenciado pelos grampos telefônicos expostos por Edward Snowden, que até aliados de longa data, como a primeira-ministra da Alemanha, Ângela Merkel, o presidente da França na época, bem como altos políticos ingleses, sofreram, demonstrando que não existem limites para o departamento de Estado Norte-Americano.

A política externa americana forçou muitos países a buscar uma forma de governo diferente do capitalismo de desastre. Por este motivo, vemos países como a China buscando substituir a política americana como “norte democrático”, tendo em vista os consecutivos desastres econômicos e humanitários decorrentes desta política; se será melhor para o mundo é assunto para uma outra analise, mas devemos ressaltar que qualquer forma de governo deve ao menos estudar a busca do Maximum Ético de Joaquim Carlos Salgado.

Na Venezuela tudo é possível, já que caso a guerra diatética falhe no seu objetivo de colocar um governo pró-americano, uma ação de intervenção não será descartada, e assim voltaremos a observar o que o jornalista Pedro Paulo Rezende vem falando: Entrar em um país é fácil, para uma máquina militar como a americana, o problema é sair com o mínimo de dignidade…

Arthur Nadú Rangel é mestre em Estudos Estratégicos e doutorando em Teoria da Justiça pela UFMG.