O urso rugiu

Por PEDRO PAULO REZENDE

A águia de duas cabeças, herdada de Bizâncio, foi o símbolo da Rússia durante sua fase imperial. Fazia sentido. O país estava em expansão e caminhava para o oriente e o sul, além de se consolidar como uma potência báltica. Era um símbolo de continuidade da civilização romana de Júlio César e de Constantino. A partir da Revolução Soviética de 1917, a imagem do país, dentro da visão europeia e norte-americana, passou a ser o urso, um animal bonachão que só reage em três situações: quando entram em seu território, ameaçam suas crias ou tentam encurralá-lo. Estas regras são seguidas pela Federação Russa desde a desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991.

Ao contrário da era soviética, quando o regime comunista realizou intervenções por divergências ideológicas na Hungria e na Checoslováquia, a Federação Russa deslocou tropas para fora de suas fronteiras a pedido de governos estrangeiros, como na Síria, ou para evitar processos de limpeza étnica, a exemplo da invasão da Ossétia do Sul e da Abecásia. A reincorporação da Crimeia se enquadra na segunda categoria.

O atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quando ocupava a Vice-Presidência, recebeu do então chefe de Estado norte-americano, Barack Obama, a incumbência de coordenar junto à Europa o apoio internacional para diminuir a influência russa na Ucrânia. Para isto, junto com a União Europeia, financiou o Setor de Direita (grupo ultranacionalista) para comandar o processo de derrubada do presidente Viktor Yanukovych, em 2014. O movimento, batizado de Revolução de Maidan, se embasava em princípios neonazistas propostos pelo líder nacionalista Stepan Bandera, que apoiou os invasores nazistas na Segunda Guerra Mundial. Episódios racistas resultaram em ataques à população russo-étnica, o que levou a população da região de Donbass a se levantar contra o governo ucraniano.

Protegendo as crias

A Crimeia, de maioria populacional russa, foi incorporada à Ucrânia em 1954 por decisão do Politburo (o conselho do Partido Comunista da União Soviética), presidido por Nikita Kruschev. Dentro do regime comunista, a questão étnica vinha em segundo plano. O principal motivo era facilitar a administração da região em função da proximidade com Kiev. No período, ninguém podia adivinhar que a segunda potência militar e econômica iria se esfacelar em um processo que resultaria em conflitos étnicos.

A península abrigava grandes contingentes militares russos em função da Frota do Mar Negro, sediada em Sebastopol desde o século 18. As bases garantem o flanco sul da Rússia e a proteção de portos fundamentais para a economia do país. A Ucrânia, durante o processo de independência, reconheceu os interesses estratégicos de Moscou. Por meio de um acordo de segurança, arrendou as bases navais da província por um prazo de 50 anos.

Com o movimento de Maidan, a polícia ucraniana começou a agir contra lideranças de origem russa e da etnia tatar (descendentes de povos túrquicos). Em resposta, a população local formava unidades de autodefesa. Para evitar o surgimento de um conflito armado, afinal de contas os ursos cuidam de seus filhotes, os 10 mil homens das forças de proteção da Frota Russa do Mar Negro atuaram preventivamente e ocuparam pontos estratégicos. A ação evitou mais um foco de guerra civil, a exemplo do que ocorreu em Donetsk e Luhansk, onde 10 mil pessoas morreram, a maioria civis.

Protegida pelas forças da Federação Russa, a população e se posicionou a favor da secessão com a Ucrânia e à reunificação com a Rússia por meio do voto com 96,8% de aprovação em um plebiscito. A medida foi mal aceita pelos Estados Unidos e a União Europeia, interessados em diminuir a área de influência russa no Mar Negro. O objetivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), formada pelo Ocidente, era eliminar a Frota do Mar Negro e retirar de Moscou toda influência que mantém no Oriente Médio.

Com base nesta estratégia, uma série de sanções foi dirigida à Moscou, uma iniciativa contraproducente. A Federação Russa reativou sua agricultura, hoje exporta cereais, e modernizou fábricas de bens de consumo e de capital herdadas da era soviética, o que ampliou sua autossuficiência em relação à Europa e aos Estados Unidos.

De lá para cá, a península sofreu uma série de represálias, que apenas ampliaram o ressentimento da população contra o governo ucraniano. Houve cortes de energia elétrica e de água, medidas fortemente condenadas pela sociedade internacional, resolvidos parcialmente com a construção de uma ponte entre a Crimeia e o resto do território — que também serve para passar cabos de força e uma adutora. As reclamações de Kyiv junto a outros países contra a reincorporação do território pela Rússia tiveram nenhum efeito prático.

A reincorporação da Crimeia à Federação Russa seguiu claramente as regras de autodeterminação da população defendidas pelas Nações Unidas, um plebiscito, e são exatamente iguais aos métodos democráticos usados pelo Reino Unido para manter o domínio das Falklands/Malvinas. De 2014 aos dias de hoje, o apoio popular à união com a Rússia cresceu, como comprovam pesquisas de opinião feitas por instituições nacionais e internacionais. A península está cada vez mais integrada econômica e politicamente a Moscou.

Trump e Biden

A eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, em 2017, passou a questão da Ucrânia para segundo plano, para desgosto do atual presidente do país, Volodimir Zelensky, que assumiu o cargo em 2019. O quadro se reverteu com a escolha de Joe Biden para a Casa Branca em novembro do ano passado. A razão era simples: o novo mandatário norte-americano tinha envolvimentos pouco republicanos com grupos políticos de Kyiv.

Em 2014, durante seu mandato como emissário do governo dos Estados Unidos, ele construiu fortes relações com os oligarcas ucranianos. Hunter Biden, filho do atual presidente norte-americano, chegou a ocupar um cargo no conselho da Burisma, uma das maiores companhias de gás natural do país. Pouco depois, a Procuradoria Geral do país começou a investigar acusações de corrupção envolvendo a empresa.

A nomeação de Hunter, que continuou na Burisma até abril de 2019, gerou polêmica e foi usada pelo ex-presidente Donald Trump para pressionar o candidato Joe Biden durante a campanha. O próprio Hunter Biden afirmou que, apesar de não ter feito nada de incorreto, seu trabalho na Ucrânia foi “um erro de avaliação”.

O interesse pessoal de Biden, desde que assumiu a Casa Branca, levou os Estados Unidos a pressionarem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a ampliar a presença no Mar Negro. Seus navios passaram a desafiar o mar territorial da Rússia, sob o pretexto de que não reconhecem a soberania de Moscou sobre a Crimeia. Ou seja: os aliados ocidentais resolveram encurralar o urso, o que nunca é uma boa ideia. Ursos enfurecidos são extremamente perigosos.

O urso reage

As tentativas de desafiar a soberania russa foram respondidas à altura. Em 23 de junho, o contratorpedeiro HMS Defender, da Marinha Real britânica, mudou de rumo e se dirigiu para águas da Crimeia, nas proximidades da costa do Cabo Fiolent. Depois de ser advertido por rádio pela Guarda Costeira, ele recebeu um tiro de aviso de canhão a sua proa. Simultaneamente, um avião de ataque Su-24 soltou uma bomba para que mudasse de rota. Quatro dias depois, documentos sigilosos do Ministério da Defesa do Reino Unido foram encontrados numa parada de ônibus do condado de Kent, sudeste da Inglaterra. Um trecho do material discutia as possibilidades de reação à passagem de um navio de guerra pelas águas da costa da Crimeia.

Não foi a última provocação. No dia 29 de junho, a fragata holandesa HNLMS Eversten tentou realizar uma manobra similar e foi alvo de ataques simulados de caças armados com mísseis antinavio e interferência eletrônica pesada, que tiraram do ar alguns de seus sistemas de detecção. O comandante do navio disse em um comunicado que o Eversten estava navegando em águas internacionais, o que é contestado pela Rússia.

Estes “incidentes” foram apenas o prelúdio de uma grande operação naval organizada pelos Estados Unidos e pela Ucrânia. Batizada de Sea Breeze começou no dia 28 de junho e se encerrou no dia 10 de julho. Reuniu, ao todo, 32 países e navios (24 deles ucranianos), 5 mil soldados de terra (1.500 ucranianos) e 40 aviões. O Brasil enviou observadores.

Estes exercícios navais acontecem desde 1997, mas ganharam uma nova relevância depois da resposta russa às tentativas de violação das águas da Crimeia. Moscou chegou a pedir ao Departamento de Estado norte-americano para adiar os exercícios deste ano marcado por relações diplomáticas ásperas entre os dois países, como os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin admitiram depois de se encontrarem em Genebra no dia 16 de junho.

Palavras vazias

Para internacionalizar a questão da Crimeia, o presidente Volodimir Zelensky tentou uma cartada em agosto do ano passado. Batizada de Plataforma da Crimeia, a iniciativa visa coordenar ações contra o que ele chama de ocupação russa da península. O desenvolvimento está a cargo do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, chefiado por Paulo Kuleba, que desenhou os princípios básicos do novo formato, incluindo a importância de garantir a eficácia das sanções contra a Rússia e o trabalho na área de proteção dos direitos humanos.

O lançamento oficial do mecanismo está marcado para uma cúpula em Kyiv, no dia 23 de agosto. Até agora, seu sucesso foi limitado, obtendo suporte formal da Hungria e da Polônia, países sobre controle da extrema-direita, e da Turquia, país que tem pretensões territoriais sobre a região desde a anexação da península em 1783 (o envolvimento de Ancara na iniciativa pode afetar negativamente as relações entre o governo ucraniano e a União Europeia, contrária a esta medida).

Inicialmente, a Plataforma da Crimeia seguiria o modelo da Plataforma para Donbass, criada pela Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE) para minimizar os efeitos colaterais contra a população civil das repúblicas separatistas — causados, diga-se de passagem, pela ação descontrolada de milícias neonazistas da Ucrânia, principalmente do Batalhão Azov. Era um mecanismo para diminuir atritos e a violação de direitos humanos. Hoje, ela é apresentada como uma maneira de criar, concentrar e controlar sanções mais efetivas contra a punir a Rússia para expulsá-la da península, o que pode ser classificado de delírio.

Sem adesão

Apesar dos esforços de Zelenski, os Estados Unidos não se manifestaram e há boas razões para isto. A Plataforma sobre a Crimeia não tem nenhum conceito concreto. O formato atual não implica na adoção de qualquer ação significativa. Esta superficialidade, segundo alguns especialistas, deveria facilitar a aceitação da Plataforma da Crimeia por alguns governos, uma vez que não implica nenhum compromisso concreto. O Ministério de Negócios Estrangeiros enviou correspondência a vários países, inclusive o Brasil, convidando para a cúpula do dia 23 de agosto, com poucas respostas positivas.

Em abril, a secretária de imprensa da presidente da Ucrânia, Yulia Mendel, anunciou a adesão de 10 países. Depois disto, todos os detalhes dos participantes da cúpula de agosto desapareceram das fontes ucranianas, um sinal da fragilidade da proposta. O último líder internacional sondado por Zelenski, o recém-eleito primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, recusou o convite do presidente ucraniano, segundo informações disponibilizadas.

Os analistas avaliam que a Plataforma da Crimeia não passa de uma medida de relações públicas. O objetivo seria iludir o eleitorado ucraniano em relação à importância da Ucrânia no panorama internacional por meio da presença de algumas lideranças em Kyiv, uma cidade famosa pela vida noturna. Zelensky irá declarar sua posição, receberá apoio verbal, mas nenhuma nova abordagem será desenvolvida. A cúpula é uma farsa para tentar enganar a comunidade mundial.

Segundo o site de análise política Strana.ua, o formato da Plataforma da Crimeia é questionado até por funcionários do corpo diplomático ucraniano. Um diplomata classificou a iniciativa como uma ação de relações públicas do ministro de Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, que está por trás da ideia.

— A plataforma não tem objetivo concreto. Ela não nos ajudará a recuperar a Crimeia. Não ficarei surpreso se, amanhã, o MNE disser que desenvolveu um projeto separado sobre Sebastopol. E toda a imprensa vai repercutir isto — disse o diplomata.

A descrença também contamina a academia. Mikhail Pogrebinsky, diretor do Centro de Estudos Políticos e Ciência de Conflitos de Kyiv, disse em entrevista que há um grande setor da classe política no país que vive em uma espécie de bolha antirrussa:

—A ideia da Plataforma da Crimeia não pertence a Zelensky ou a seu antecessor, Petro Poroshenko, mas a um certo ativismo nacionalista insatisfeito porque a agenda internacional não discute mais a possibilidade da Crimeia retornar para o controle da Ucrânia. Os nacionalistas querem manter o tema à tona, mesmo que a discussão seja fútil — acrescentou o especialista.

O próprio presidente Volodymyr Zelenskyy, acredita que os países que participarem do lançamento da Plataforma da Crimeia podem pagar um preço por isto:

— Acredito que os países que participarem da Plataforma da Crimeia poderão ter complicações futuras com a Federação Russa — observou o presidente ucraniano.

Ele acrescentou que a reunião estabelecerá “passos para a desocupação” da península:

— Abriremos um escritório para lidar com as questões cotidianas da Crimeia ocupada e dos direitos de pessoas que estão presas — disse Zelensky.

O presidente da Ucrânia disse que discutiu a Plataforma da Crimeia com representantes da União Europeia, Grã-Bretanha, Canadá e outros parceiros de Kyiv. Ele também afirmou que muitos deles estão prontos para ingressar e participar ativamente dos trabalhos do site, mas nenhum país anunciou a participação direta além da Hungria, Polônia e Turquia.

O Brasil

Será que o Brasil deve participar da iniciativa? O risco de desagradar um parceiro de BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) seria alto. O comércio com a Federação Russa é deficitário. As exportações em 2020 geraram em receita direta US$ 1,52 bilhão. No mesmo período, importamos um total de US$ 2,7 bilhões (65% deste valor em adubos e fertilizantes, investimentos fundamentais para o agronegócio que geram superávits expressivos em negócios com a China). O volume com a Ucrânia é 20 vezes menor. Em 2020, tivemos um pequeno superávit de US$ 65,7 milhões com a Ucrânia. Vendemos US$ 137,2 milhões e compramos US$ 71,5 milhões

Nos velhos tempos de Ernesto Araújo, quando a ideologia valia mais que as relações comerciais, a Plataforma da Crimeia seria vista com um mínimo de simpatia pelo Ministério das Relações Exteriores, mas, hoje, o ex-chanceler pilota uma mesa no Departamento de Escadas e Corredores (maneira irônica que os diplomatas usam para descrever quem caiu no ostracismo). Na gestão do ministro Carlos Alberto Franco França, um pragmático, as chances do Itamaraty entrar nesta bola dividida são quase nulas.

Além da turbulência interna causada pela pandemia e denúncias de corrupção contra o governo federal, outros fatores colaboram para que o Brasil se afaste desta questão. Nossa diplomacia sempre se mantém ao largo de disputas territoriais, uma vez que já mediamos vários conflitos com sucesso. Ao mesmo tempo, até países russofóbicos hesitam em participar deste evento. Por último, temos de nos concentrar em outras áreas de interesse, como o BRICS e o MERCOSUL. Afinal de contas, estamos longe do Mar Negro e sabemos que ursos não devem ser provocados.

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