O fim da independência

Por Pedro Paulo Rezende

O Brasil deixou de ser independente. A política externa desenvolvida pelo Itamaraty na gestão do chanceler Ernesto Araújo colocou o país em uma condição de domínio dos Estados Unidos na América do Sul. Nesta situação, um governo não tem autonomia sobre os assuntos estrangeiros. Segue a metrópole para o melhor e o pior. Dois exemplos deste modelo são a Austrália e o Canadá, que enviaram tropas sob comando do Reino Unido nas Primeira e Segunda guerras mundiais, perdendo milhares de homens em combates fúteis, como a invasão da Península de Galípoli e o ataque à praia de Dieppe. As duas nações gozavam de total liberdade nas políticas econômicas e sociais que implantavam, mas estavam obrigadas a grandes sacrifícios em tempos de conflito.

A decisão de expulsar os diplomatas venezuelanos se enquadra neste panorama. O Itamaraty seguiu uma determinação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sentido de agravar as sanções determinadas por ele no início deste ano. O governo dos Estados Unidos, no início de abril, impôs um bloqueio naval contra o governo do presidente de fato, Nicolas Maduro, sob o subterfúgio de impedir a ação do “Cartel de los Soles”. Segundo os departamentos de Estado e de Defesa norte-americanos, esta imaginária organização criminosa, formada por generais de Caracas, seria responsável pela introdução de toneladas de drogas no território estadunidense.

As acusações têm tanto fundamento quanto os estoques de armas de destruição em massa que o ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, manteria escondidos. Com a Guerra do Golfo, em 2002, provou-se que elas não passavam de ilusão. A verdade é que a força tarefa no Caribe, até hoje, só apreendeu embarcações colombianas, incluindo submarinos construídos por narcotraficantes.

Sanções

A entrega do prédio da embaixada em Brasília à embaixadora María Teresa Belandría, nomeada pelo autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, é mais um passo para isolar completamente o país vizinho, com prejuízo de exportadores brasileiros que continuam a fazer negócios com Caracas, principalmente alimentos e gêneros de primeira necessidade. Obviamente, as autoridades aduaneiras e policiais venezuelanas não reconhecerão os vistos emitidos por uma embaixadora que não tem amparo legal.

Coincidência ou não, logo após a expulsão dos diplomatas ligados ao governo de Maduro, dois grupos de mercenários, incluindo veteranos das Forças de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos, foram desbaratados pelas milícias e pelos soldados do Exército Bolivariano. Luke Denman e Airon Barry, com experiência no Iraque e no Afeganistão, foram capturados e expostos à imprensa. As autoridades venezuelanas também apreenderam um grande estoque de fuzis de fabricação estadunidense, prova de que a operação visava abastecer células adormecidas da oposição.

Em outros tempos, e aí incluo os governos militares de Ernesto Geisel e João Figueiredo, o Itamaraty emitiria uma nota de protesto. Em lugar disto, o chanceler Ernesto Araújo permaneceu em silêncio.

Desastre anunciado

A prisão dos mercenários, que incluíam, além dos americanos, um peruano, desvelou um projeto de ação similar ao desastre do Irã-Contras, quando a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos usou dinheiro de traficantes de drogas para financiar a oposição armada ao regime sandinista da Nicarágua. O modelo é bastante similar. As autoridades norte-americanas destacaram cerca de US$ 140 milhões apreendidos da empresa estatal de petróleo da Venezuela (PDVESA) para armar os 3 mil desertores que se encontram em território da Colômbia. Juan Guaidó nomeou o general reformado Clíver Alcalá para administrar o esquema, que incluía o pagamento de US$ 10 mil a cada ex-militar venezuelado.

Denúncias de desvios de verba terminaram por deixar o autoproclamado chefe de Estado venezuelano em apuros. Alcalá passou a viver como milionário, enquanto os desertores se queixavam de que passavam necessidades. O caso terminou com a contratação de uma empresa que oferece serviços de segurança ao Departamento de Estado norte-americano, depois que o ex-general se entregou na Colômbia a autoridades norte-americanas que passaram a acusá-lo de narcotráfico.

Alcalá se entregou em um esquema de delação premiada prometendo expor as ligações de Maduro num caso que envolveria o presidente Nicolás Maduro e outras autoridades governamentais venezuelanas com o Cartel de los Soles, mas a subserviência de Ernesto Araújo não se limita à Venezuela.

Viralatismo

O presidente da República, Jair Bolsonaro, segue as orientações do presidente norte-americano, Donald Trump, à risca, mas ainda não se atreveu a culpar diretamente a República Popular da China pela pandemia do COVID 19, que se originou espontaneamente no mercado de frutos do mar de Wuhan. A ala pragmática do governo, encabeçada pelos ministros da Agricultura, Teresa Cristina, e da Economia, Paulo Guedes, se recusa a seguir determinações da ala ideológica, orientada pelo pseudo-filósofo Olavo Carvalho, e comandada pelo deputado Eduardo Bolsonaro, pelo chanceler Ernesto Araújo e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Os três passaram a atacar diretamente o Partido Comunista Chinês (PCC), que governa nosso maior parceiro comercial.

Por outro lado, ignoraram completamente ações do governo dos Estados Unidos que afetaram diretamente as ações de saúde previstas pelo Brasil, inclusive a apreensão de um avião carregado de máscaras e respiradores comprados na China no aeroporto de Nova York. As autoridades estadunidenses pagaram o valor da carga aos fornecedores, de maneira a ressarcir os brasileiros, mas dinheiro não paga a morte de brasileiros em função da pirataria determinada por Washington.

Não foi a única canelada dada por Trump no Brasil. O presidente norte-americano ameaçou fechar completamente o tráfego aéreo entre os dois países enquanto o secretário de Estado Mike Pompeo reiterava que só ajudará depois que a crise passar nos Estados Unidos. Esta atitude contrasta com a ajuda enviada pela Federação Russa e pela China para socorrer os norte-americanos na maior crise de saúde nos últimos cem anos.

Por enquanto, a ala pragmática ainda consegue impor seu ponto de vista contra a ideológica, mas o momento diplomático atual coloca o Brasil a reboque dos Estados Unidos. As consequências podem ser drásticas, fechando a China às exportações brasileiras em um momento em que os negócios com Washington se apresentam em queda. A balança comercial de 2019 mostrou um volume de transações inferior a 10% ao de 2018, ampliando o volume de produtos americanos e reduzindo ainda mais o de produtos brasileiros.

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