Mudança de doutrina

Por Pedro Paulo Rezende

As Forças Armadas da Federação Russa em operação na Ucrânia mostraram um repertório de táticas que se afastam da doutrina militar soviética, pensada por Mikhail Tukhachevsky na década de 1930 e que consolidava 300 anos de experiência de combate. Empregada com sucesso na Segunda Guerra Mundial se apoiava em três pontos básicos:

1. A maskirovka, que consistia em simular eixos de ataque por meio de emissão de sinais de comunicação falsos. Desta maneira, estimulava o inimigo a deslocar suas forças para longe do foco real da ofensiva;

2. Concentração de artilharia e o uso pesado do poder aéreo, com o objetivo de abrir um ponto frágil na defesa adversária;

3. Explorar as brechas com superioridade numérica absoluta em blindados e infantaria, de maneira a romper as linhas contrárias e destruir suas linhas de suprimento.

O resultado era a difusão de uma onda de destruição total que atingia meios militares e civis indiscriminadamente.

Os Estados Unidos adotam um modelo similar. Na Guerra do Iraque, antes da ofensiva por terra, Bagdá sofreu 40 dias de bombardeios. A Força Aérea dos Estados Unidos e a Aviação do Exército eliminaram alvos estratégicos, como a estrutura de comando e controle de Saddam Hussein, e táticos, as forças blindadas e antiaéreas remanescentes. É preciso ressaltar que o país do Oriente Médio sofria os efeitos de um embargo pesado decretado pela Organização das Nações Unidas que desabilitou quase todos os seus sistemas de defesa, de carros de combate a radares de detecção e controle de tiro. O resultado foi espalhar uma onda de destruição nos centros urbanos iraquianos que resultou na morte, segundo a revista médica britânica Lancet, de 1 milhão de civis iraquianos.

Até o momento, a Rússia evitou usar toda a força que dispõe, de maneira a preservar a infraestrutura urbana. As novas táticas russas procuram evitar um grande número de baixas civis e quebram velhos paradigmas.

Adeus à superioridade numérica

O primeiro ponto da nova doutrina é o uso de forças numericamente inferiores às do inimigo, um anátema desde 1709, quando o imperador russo Pedro I, conhecido o Grande, esmagou o exército sueco, a melhor força profissional do seu tempo, graças à força dos números na infantaria, cavalaria e artilharia. A Ucrânia conta com 290 mil integrantes em suas forças militares, incluindo a Guarda Nacional — organização que abriga os regimentos neonazistas do Right Sector (leia mais aqui). Até o dia 28 de fevereiro, a Rússia utilizou cerca de 50 mil homens e conseguiu atingir todos os objetivos previstos. A partir da Crimeia, quase todo o litoral sul ucraniano foi tomado e grandes centros urbanos, incluindo Mariupol, estão cercados.

As tropas também avançam rumo a Odessa, palco de um massacre de sindicalistas durante o movimento de Maidan (leia mais aqui). Ao leste, rompeu-se o cerco mantido contra as repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk. A estratégica cidade de Kharkov e a capital Kiev encontram-se sob cerco.

Helicópteros em lugar de canhões

A estratégia usada também abriu mão de outro dogma: o uso em massa da artilharia, empregado pelo imperador russo Pedro I, o Grande, para derrotar o exército da Suécia na Batalha de Poltava, em 1709. A vitória foi acachapante e obrigou o Rei Carlos XII, comandante derrotado, a empreender uma fuga humilhante atravessando o Império Otomano, enquanto suas tropas caíam prisioneiras. É preciso ressaltar que os suecos tinham o melhor exército da época, altamente profissional, e as forças russas, arregimentadas entre camponeses, eram inexperientes.

Pedro o grande tinha vantagem numérica em homens e canhões, mas ninguém na Europa apostava na vitória dos moscovitas em virtude do retrospecto impecável de Carlos XII nos campos de batalha. A partir daí, o uso de grandes forças de artilharia marcou a evolução militar russa e soviética e foi um dos fatores decisivos para a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.

Nas operações contra as forças ucranianas, helicópteros de ataque e mísseis guiados por satélites de geolocalização substituíram a artilharia. Em lugar de maciças barragens, instrumentos cirúrgicos de destruição eliminavam os alvos. Outro fator importante na doutrina russa e soviética, o uso maciço de carros de combate, determinante para a vitória contra o regime de Adolf Hitler, também foi abandonado durante a primeira fase do conflito. Forças aerotransportadas por helicópteros, apoiadas por Spetsnaz (tropas especiais que operam isoladas) passaram a liderar os avanços.

O papel dos caças e aviões de ataque foi ajudar na supressão dos equipamentos e meios de vigilância e controle do espaço aéreo, de maneira a permitir o emprego dos helicópteros. Mísseis de cruzeiro, balísticos e hipersônicos desabilitaram as bases da Força Aérea da Ucrânia. A mudança atraiu a atenção do especialista militar do Jerusalem Post, Seth J. Frantzman, que escreveu um artigo sobre a nova doutrina das Forças Armadas da Federação Russa.

Riscos pesados

No entanto, a ofensiva russa enfrentou forte resistência pontual que colocou em risco a operação. No aeroporto de Gostomel, sede do complexo industrial da Antonov, cerca de mil integrantes de uma força especial chechena, que desembarcou de helicópteros, enfrentou fogo pesado de uma brigada blindada ucraniana por 48 horas. A coluna de reforço, que partiu de Belarus, levou mais tempo que o previsto para atingir o objetivo e colocou em risco a empreitada.

As unidades blindadas marcham sobre um tapete de forças especiais e aerotransportadas e há uma clara orientação de se evitar combates nos centros urbanos. O sucesso desta política pode ser visto na enxurrada de tuites e mensagens de aplicativos. O governo ucraniano afirma que a população civil foi atingida, mas a única prova que apresentou foi a destruição parcial de um bloco de apartamentos em Kyiv, claramente provocada por uma carga pequena, provavelmente de um míssil antiaéreo disparado contra alvos russos e que perdeu o rumo.

Os ucranianos perceberam que há uma diretriz clara contra atacar alvos civis e passaram a posicionar peças de artilharia e blindados próximos a conjuntos residenciais. Além disto, armaram voluntários civis com fuzis e coquetéis molotov (bombas incendiárias feitas de combustível em garrafas). Esta política causou alguns incidentes.

Uma mulher que atirava coquetéis molotovs da janela de um carro em alta velocidade contra viaturas russas nas proximidades de Kharkov terminou sofrendo queimaduras graves quando uma das bombas improvisadas incendiou prematuramente. Em uma cidade nas proximidades de Mariupol, um velho lança-foguetes BM-21 Grad da milícia da República de Lugansk foi atingido por um coquetel molotov. O fogo disparou os projéteis destruindo um prédio residencial.

Alvos militares

Em Kharkov, mísseis russos destruíram a prefeitura, que sediava o Comitê de Defesa Regional, a sede do Serviço de Inteligência da Ucrânia (SBU), e várias academias militares, incluindo a Universidade da Força Aérea Ivan Kozhedub e a Escola de Artilharia. Os depósitos de munições, que abrigam mísseis antitanques e antiaéreos doados pelos países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), receberam atenção especial da Força Aérea da Federação Russa desde o início da ofensiva.

Seis dias depois do início dos ataques, as operações de contrainteligência da Ucrânia tornaram-se alvos preferenciais. Os transmissores das antenas de TV de Kiev, Kharkov e Mariupol foram destruídos por mísseis de cruzeiro Kalibr sem afetar a estrutura das instalações. Os números reivindicados pelos ucranianos recebem endosso total da imprensa ocidental, mas não há confirmação in loco do que realmente ocorre. Nenhum dos lados colocou jornalistas nas linhas de frente e as informações não têm confiabilidade.

Pelo Twitter e grupos de WhatsApp e Telegram chegam imagens que confirmam  a contenção das tropas russas. Em uma cidade não identificada, uma pequena quantidade de partidários ucranianos fechou a frente de uma coluna gritando slogans de protesto. Os soldados não apontaram armas para o grupo e apenas avançaram lentamente sem atropelar os manifestantes. Em Kherson, completamente ocupada, unidades das Forças Aerotransportadas da Rússia em suas viaturas blindados viram um homem solitário desfraldar a bandeira ucraniana em meio ao completo descaso da população. Em nenhum momento ele foi abordado pelos soldados.

À guisa de comparação, em Bagdá, no Iraque, mercenários da Blackwater, encarregados da proteção de diplomatas americanos, dispararam contra a multidão em um engarrafamento na Praça Nisour, matando 17 e ferindo 20 civis.

É preciso saber se esta política extremamente restritiva será seguida em Kiev. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, libertou e armou presidiários com experiência militar e distribuiu 10 mil fuzis entre a população. O objetivo claro é criar um incidente com grande morte de civis, mas o resultado imediato foi o choque entre quadrilhas do crime organizado. Agora, resta apenas esperar.

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