Mais sociólogos, menos bombas

Por Pedro Paulo Rezende

A ofensiva relâmpago do Talibã e a derrocada do governo afegão pegou de surpresa a opinião pública, mas não causou surpresa entre os especialistas que acompanhavam a evolução política e militar da guerra civil. A intervenção dos Estados Unidos, desde o início, foi marcada pela profunda incompreensão da divisão tribal e dos costumes do país. Em suma: repetiram os mesmos erros cometidos no Vietnã e no Iraque, uma prova de que a curva de aprendizado dos militares e diplomatas americanos é achatada e pouco acentuada, o que levou Washington a uma derrota acachapante com cenas de horror provocadas por uma multidão de colaboradores da Coalizão ocidental tentando fugir em pânico de Cabul.

Os erros da intervenção foram muitos. Parte das forças da Coalizão — formada por países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Austrália sob o comando dos Estados Unidos — cometeu crimes de guerra durante os 20 anos que permaneceu no Afeganistão. Durante este período, a Casa Branca foi ocupada por quatro presidentes (George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden). Nenhum deles coibiu a corrupção e as relações de compadrio do governo afegão, que terminaram por minar o apoio inicial dado pelas instituições tradicionais do país aos ocupantes. Por último, o aparato militar montado para o governo central era pouco confiável e estava infiltrado pelo Talibã. Em suma: sobraram generais dando as ordens e faltaram sociólogos, antropólogos e cientistas políticos para orientarem a ocupação.

O Talibã (os estudantes, em português) é uma invenção da agência de inteligência do Paquistão — o Inteligence Interservices (IIS) — para tentar uma solução para o caos surgido depois que a União Soviética se retirou do Afeganistão em 1989. O grupo dominou o país em 1996, depois de uma ofensiva fulminante contra dezenas de senhores da guerra que tentavam se impor para estabelecer um governo central, mas vou tratar deste assunto mais adiante, porque, antes, é necessário explicar as complicadas variáveis que regem a sociedade afegã.

Código de conduta

A sociedade afegã é composta de comunidades religiosas estanques e por um mosaico de etnias. A principal delas, os pashtun, é basicamente muçulmana sunita. Na fronteira com o Irã vivem os hazaras, xiitas como os vizinhos, e no extremo norte, uzbeques e tadjiques, adeptos do sufismo, a vertente mística do islã. As relações interétnicas seguem um rígido código de honra anterior ao islã, o Pashtunwali, que prioriza conceitos como respeito aos anciãos, a jirga (uma forma de democracia direta que inclui assembleias locais, regionais e nacionais), a hospitalidade e a preservação do clã.

A base política se estrutura em tribos sob o comando de senhores da guerra, que estabelecem alianças fluidas entre eles dependentes dos interesses locais. Cada vila e povoado mantém milícias próprias dentro da estrutura prevista pelo Pashtunwali. Os comandos locais se submetem a um senhor da guerra regional seguindo a lógica étnica. Dentro deste quadro, o governo central não passa de uma ficção.

A União Soviética aprendeu isto da pior maneira possível depois que interveio no Afeganistão, a pedido do Conselho de Governo, em 1979. O objetivo era pacificar e unir o país depois de derrubar o presidente Hafizullah Amin, que enfrentava uma revolta generalizada. Era o início de uma intervenção que duraria dez anos e traria sérias consequências globais. O governo central do Afeganistão era laico e socialista, o que não agradava aos líderes tribais congregados na Loya Jirga (assembleia de 3 mil anciãos que funciona como corte suprema para os assuntos tribais), regidos pelo Pashtunwali e o islã.

Guerra por procuração

Durante a intervenção soviética, os centros urbanos, principalmente Cabul, passaram por uma profunda revolução de costumes voltada principalmente as mulheres, que ganharam espaço na sociedade afegã. Estes ideais nunca foram aceitos plenamente pela população do interior do país, muçulmana e fundamentalista. A resistência contra o governo central ganhou mais ímpeto a partir da presença de forças estrangeiras no país.

Boa parte dos rebeldes (conhecidos como mujahedin) era comandada por senhores da guerra ligados ao tráfico de ópio, fato ignorado pelos os países do Ocidente, pelo Paquistão e pelas monarquias do Golfo Pérsico.

Para os Estados Unidos, o Afeganistão era o campo ideal para uma guerra por procuração. O objetivo era ir à forra contra a União Soviética, peça fundamental para a derrota americana nas guerras do Vietnã e do Camboja (o presidente Jimmy Carter apoiava o regime genocida de Pol Pot, o Khmer Vermelho, e não perdoava a intervenção russo-vietnamita no país). Os guerrilheiros recebiam financiamento, treinamento militar e equipamento de ponta em santuários no Paquistão. Além disto, um fluxo de voluntários fundamentalistas islâmicos oriundos das monarquias do Golfo abastecia as fileiras dos mujahedin, entre eles Osama Bin Laden, que, em 2001, comandaria o pior ataque terrorista contra os Estados Unidos.

A União Soviética mantinha um grande contingente no país e usava o poder aéreo para controlar os grupos tribais. O balanço mudou quando os Estados Unidos forneceram à resistência, a partir de 1986, mísseis antiaéreos portáteis FIM-92 Stinger, os mais avançados do seu arsenal. O governo apoiado por Moscou não contava com apoio popular e, sem o domínio dos ares, os soviéticos resolveram desistir diante do aumento dos custos financeiros, políticos e de perdas de pessoal.

A retirada,em 1989, quando Mikhail Gorbatchev governava o país, foi planejada e ordenada. O governo afegão, na época sob o controle de Mohammad Najibullah, continuou recebendo armas e treinamento, mas, dois anos depois, ele terminou renunciando e senhores da guerra, apoiados por combatentes estrangeiros, controlavam o país.

O Talibã

A derrubada de Najibullah não pacificou o país. Coligados na resistência antissoviética, os mujahedin se fragmentaram em facções rivais com a retirada dos ocupantes. Governos se sucediam ao sabor da construção e do rompimento de acordos entre os chefes de clãs. Dezenas de senhores da guerra disputavam o controle.

Em meio ao caos, o Inteligence Interservices (IIS) interveio por meio do recrutamento de refugiados afegãos que estudavam em escolas religiosas (madrassas) de orientação wahabita (seita criada na Arábia Saudita que segue uma visão extremamente radical do Islã). A soma de treinamento militar paquistanês e financiamento das monarquias do Golfo Pérsico forjou uma força formidável: o Talibã.

O grupo se envolve no caos afegão em 1994 e em apenas dois anos conseguiu se impor como força majoritária no país ao tomar Cabul. Significativamente, um dos primeiros atos de sua liderança foi a execução de Najibullah. Durante toda a ofensiva, conseguiu apoio popular por meio de uma gestão austera e um rígido respeito à população, ao contrário da maioria dos senhores da guerra marcados pela corrupção. Sobravam duas áreas de resistência, no norte do país e na fronteira com o Irã, a etnia Hazara, de maioria xiita.

O regime Talibã, sob o comando do xeque Mohammed Omar, impôs os valores radicais defendidos pelo wahabismo. As mulheres, que participavam ativamente da sociedade, foram relegadas a segundo plano e impedidas de exercer suas profissões. As meninas ficaram impedidas de se alfabetizar. A música profana e outras formas de artes ocidentalizadas foram proibidas e, para horror dos ocidentais, as duas estátuas gigantes de Buda em Bamyan, testemunhas do passado glorioso do Reino de Bactria, de influência helenística e indiana, foram dinamitadas por representarem a idolatria, apesar de inscritas como patrimônio da humanidade protegido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Hospitalidade e terrorismo

Ao assumirem o governo, os talibãs herdaram um hóspede incômodo, Osama Bin Laden. Membro de uma família ligada à monarquia saudita, ele recebeu apoio financeiro estadunidense durante a luta contra os soviéticos. Esta aliança foi quebrada em 1991, quando o presidente iraquiano Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Para retomar o país, a Organização das Nações Unidas montou uma coalizão sob o comando dos Estados Unidos. A maioria das tropas partiu do território da Arábia Saudita, terra que abriga as cidades santas de Meca e Medina, as mais sagradas para o Islã.

Bin Laden se opôs à permanência de forças infiéis no território saudita. A partir daí, organiza a Al Qaeda (termo que pode ser traduzido como A Rede), um grupo terrorista que usa métodos extremamente inovadores para atacar os Estados Unidos e demais países ocidentais. Em lugar de manter forças permanentes, ele preferia contratar e financiar voluntários para ataques ao longo da Europa, África e Oriente Médio.

Sua ação mais incisiva ocorreu em 11 de setembro de 2001, quando sequestradores tomaram quatro aviões de passageiros em território americano e conseguiram usá-los para destruir completamente as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e parte do Pentágono. O último avião, que atacaria o Capitólio (sede do Congresso estadunidense) caiu em uma área rural no estado da Pensilvânia. Quase 3 mil pessoas foram mortas pelos 19 agentes da Al Qaeda.

Em negociações diplomáticas com os Estados Unidos, o Regime Talibã reconhecia o direito dos Estados Unidos de retaliar contra Bin Laden, mas deixou claro que, pelo Pashtunwali, não podia entregar um convidado em função das leis de hospitalidade. A presença do líder da Al Qaeda no país já causava dificuldades ao país. Em 1998, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou um embargo ao Afeganistão depois de ataques da Al Qaeda contra forças americanas na África.

O Talibã cai

As ações contra as Torres Gêmeas e o Pentágono foram determinantes para que o Conselho de Segurança da ONU decretasse uma operação militar internacional contra o Afeganistão. Ao invadir o Afeganistão, os Estados Unidos e seus aliados tinham dois objetivos: eliminar a Al Qaeda e tirar o regime Talibã do poder. Washington tinha legitimidade e organizou uma coalizão respeitável, formada pelos países da OTAN e a Austrália. O Paquistão, sem alternativa, concedeu passagem pelo seu território.

A estratégia usada foi extremamente inteligente: usar o poder aéreo, dirigido por pequenos grupos de forças especiais norte-americanos, para dar apoio às milícias da Aliança do Norte que resistiam ao Talibã. O Irã armou as milícias da etnia hazara, criando uma segunda frente a partir do oeste. O início da intervenção, em 7 de outubro de 2001, foi promissor e em pouco mais de dois meses, em 17 de dezembro, a capital afegã caiu sob controle da Coalizão.

O presidente escolhido, Hamid Karzai, era um nome de consenso e obteve o apoio da Loya Jirga, no entanto, o capital político da Coalizão começou a se esvair logo no início. A corrupção e o compadrio rolavam soltos em Cabul e o governo fraudava as eleições.

Hospitais e casamentos

Os fundamentalistas talibãs e da Al Qaeda se aquartelaram em áreas remotas e iniciaram a resistência. Para reduzirem suas baixas, os militares norte-americanos usavam o apoio aéreo indiscriminadamente. Em 3 de outubro de 2015, um avião AC-130U Spectre da Força Aérea dos Estados Unidos atacou o Centro de Traumatologia da cidade de Kunduz, operado pelos Médicos Sem Fronteiras (foto em destaque, autoria MSF). Mais de 40 pessoas morreram e mais de 30 ficaram feridas.

Os Estados Unidos empregavam Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARV, ou drones) para a maioria dos ataques e não havia como evitar equívocos culturais. O Afeganistão é uma sociedade armada e dar tiros para o alto é uma maneira de se comemorar grandes eventos. Os casamentos são arranjados entre aldeias da mesma etnia e o noivo costuma se deslocar em longos cortejos de veículos que levam os convidados ao encontro da noiva. Tiros para o alto atraiam drones como mosca e houve centenas de mortes em função disto. Claro, terroristas e militantes não chamavam a atenção e dirigiam discretamente pelas estradas.

O Pashtunwali é claro: cada morte injusta deve ser punida com a morte de cem parentes do ofensor, mesmo quando não há dolo. Há uma maneira de se evitar a justa vingança. O assassino pode convocar a Loya Jirga e pagar uma indenização justa, estabelecida pela corte, às famílias afetadas. Obviamente, os militares norte-americanos sempre ignoraram esta regra.

A organização americana Connecting Vets denunciou que, durante o governo Trump, as regras de engajamento por drones foram afrouxadas. Os Fuzileiros Navais na província de Helmand pararam de realizar patrulhas em campo para usar ARPs para eliminar possíveis suspeitos. A posse de um walkie-talkie era considerada motivo suficiente para convocar um ataque aéreo.

A morte de civis não era exclusividade americana. As forças especiais de elite da Austrália “mataram ilegalmente” 39 civis e prisioneiros afegãos entre 2005 e 2016. Algumas das execuções envolviam jovens soldados que recebiam ordens de superiores, em um suposto ritual de iniciação para “sangrá-los” antes do combate. A principal autoridade militar do país, o general Angus Campbell, admitiu que existem provas críveis dos crimes cometidos. Segundo o relatório, “há informações confiáveis de que foi requerido a jovens soldados por seus comandantes de patrulha a atirar em um prisioneiro, com o objetivo de o soldado conseguir a primeira morte, em uma prática conhecida como sangramento.” Todas essas mortes aconteceram fora do calor da batalha.

— Essas descobertas apontam para as violações mais sérias da conduta militar e dos valores profissionais — afirmou Campbell, em Canberra. — A matança ilegal de civis e prisioneiros nunca é aceitável.

A maioria dos mortos, fazendeiros e outros moradores locais, fora capturada — portanto, protegidos sob as leis internacionais — e depois executada. O documento afirma também que após a morte das vítimas os supostos responsáveis montavam uma cena de luta, plantando armas e outros equipamentos, para justificar a ação.

A França não compactuava com estes procedimentos e deixou claro seu desacordo em uma reunião do conselho da OTAN. Na época, os militares franceses também alertaram sobre a falta de treinamento das unidades do Exército Nacional Afegão. Pouco depois, Paris abandonou a Coalizão.

O Talibã soube capitalizar o clima de revolta contra o governo e os militares ocidentais. No Afeganistão, os conflitos são muito curtos. Os soldados que estão do lado mais fraco rapidamente se alinham com o provável vencedor. Para quem conhece o caráter tribal do país, não há nenhuma surpresa com a falta de resistência do Exército Nacional. Ao reconhecerem a derrota, as unidades se dissolveram e aderiram aos rebeldes. Foi o fim vitorioso de uma campanha de resistência que durou 20 anos.

Herança traiçoeira e o futuro

A administração de Donald Trump, derrotada nas eleições de 2020, negociou a saída do Afeganistão em longas conversações de paz no Qatar. Quando Joe Biden venceu o pleito, foi informado dos termos e dos planos de retirada. Ao assumir a presidência dos Estados Unidos, cumpriu o combinado, depois de tentar um adiamento no cronograma acertado com o Talibã. Herdou um acordo podre e um planejamento militar açodado.

Um bom exemplo foram as condições da retirada da Base de Bagram, principal centro de projeção de poder da Coalizão no Afeganistão. As forças estadunidenses deixaram as instalações por volta de 3h do dia 6 de julho e embarcaram em aviões de transporte C-17 Gobemaster III sem nenhuma cerimônia de entrega das instalações ao Exército Nacional do Afeganistão. Originalmente, estava prevista uma troca de guarda entre as duas forças na manhã do dia 7, um sábado.

O general Asadullah Kohistani queixou-se à rede britânica BBC e revelou que as instalações, que incluíam um presídio de segurança máxima, ficaram sem qualquer controle até às 10h do dia 6 de julho.

— Soubemos da retirada dos militares estadunidenses pela internet.

Enquanto isto, centenas de saqueadores levaram armas, munições, veículos, alimentos e medicamentos da base, que chegou a abrigar 100 mil homens e mulheres no início da intervenção norte-americana no país.

A saída de Bagram foi apenas uma pálida imagem do caos que marcou a retirada dos últimos militares e civis ocidentais de Cabul, depois da chegada dos militantes do Talibã. O aeroporto foi invadido por milhares de afegãos que colaboraram com as forças de ocupação, desesperados pela possível retaliação que poderiam sofrer nas mãos dos rebeldes vitoriosos. Como parte dos acordos firmados em Doha, foram transferidos ao Talibã os nomes dos funcionários que trabalharam com os ocidentais. O objetivo seria facilitar a saída deles do país, mas há evidências de que foram usados para ajudar na execução sumária dos colaboradores.

Biden tem culpa? Sim, mas não se pode isentar Trump do desastre. Foi ele quem negociou os termos da retirada.

Com a saída do Ocidente, a República Popular da China se prepara para investir pesadamente no país. A ideia é integrá-lo à iniciativa “Um cinturão, uma rota” (One belt, one road) que pretende recriar a antiga Rota da seda, que interligava o Extremo Oriente à Roma. Na época, a Báctria, um dos impérios que serviram de base para o Afeganistão, era uma etapa importante do intercâmbio comercial do mundo antigo.

Além da posição estratégica, o Afeganistão possui importantes recursos minerais indispensáveis para a indústria eletrônica, como cobre, lítio e terras raras. Há, também, reservas expressivas de minério de ferro, extremamente atrativas depois que a Austrália (um dos maiores fornecedores para a China) aderiu a uma aliança para conter, expressamente, o que chamaram de “expansionismo chinês”. Batizada de AUKUS (sigla em inglês de Austrália, Reino Unido e Estados Unidos) o acordo promete entregar à Camberra oito submarinos nucleares até 2040.

A República Popular da China compartilha fronteiras com o Afeganistão e seria simples integrar o país à rede ferroviária chinesa, provavelmente, a melhor do mundo. Desta forma, Beijing mataria dois coelhos com uma só cajadada: se livraria de um fornecedor complicado, a Austrália, e simplificaria sua logística industrial. Claro, tudo depende dos talibãs manterem alguma moderação como prometeram em Doha.

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