Fertilizantes e petróleo na guerra contra a fome

Por PEDRO PAULO REZENDE

O Brasil — ao lado da Argentina e da Rússia — alertou para a questão da fome global nos encontros preparatórios para a 17ª Reunião de Cúpula do G20, que ocorrerá em Bali (Indonésia), em novembro deste ano. É um dos principais desdobramentos das sanções impostas pelos Estados Unidos, Europa, Japão e Reino Unido à Federação Russa em função da operação especial na Ucrânia, iniciada no dia 24 de fevereiro. As ações determinadas pelos países do bloco ocidental envolvem diretamente a produção de alimentos e ameaçam a segurança alimentar global.

A Ucrânia e a Rússia exercem um papel relevante na oferta de alimentos em escala mundial, desde o fim da União Soviética. Os dois países passaram de importadores para grandes exportadores de alimentos nas três últimas décadas. Em relação à Federação Russa, um processo de substituição de importações foi instituído a partir do golpe de Estado que derrubou o presidente ucraniano Victor Yanukovich em 2014 (leia mais aqui).

Financiada pelos Estados Unidos, a chamada Revolução de Maidan envolveu a Ucrânia em uma guerra civil que resultou na separação das repúblicas de Donbass e na incorporação da Crimeia à Federação Russa por determinação da população local, consultada em plebiscito. Em resposta, os países da União Europeia e o governo norte-americano determinaram sanções à Rússia. Moscou respondeu com a busca da autossuficiência em alimentos e equipamentos de alta tecnologia. O resultado é que, hoje, o país se transformou no maior exportador global de trigo e não depende mais de importações de derivados de leite e proteína animal.

Paradoxalmente, na época, os países europeus tornaram-se vítimas dos efeitos negativos das sanções e acumularam fortes prejuízos graças à perda do mercado russo. O impacto foi sentido, principalmente, pela França e pela Itália, que possuem setores agrícolas fortes. A história se repete agora. A Rússia responde por 20% do mercado global de gás natural e 40% das importações da União Europeia. A tentativa canhestra de punir Moscou pela operação especial na Ucrânia teve efeito contrário: os preços dos hidrocarbonetos subiram a valores recordes e a redução de importações agrícolas russas resultou em uma explosão do processo inflacionário.

Fertilizantes

O problema se agrava a partir do momento em que boa parte da produção global de alimentos depende de insumos produzidos pela Rússia. O gás natural é uma importante matéria-prima para a produção de fertilizantes, como amônia e a ureia. Moscou controla 15% do mercado de fertilizantes nitrogenados e 17% das exportações mundiais de potássio. Belarus, que também sofreu sanções por sua posição pró-russa, responde por 16% do mercado global de potássio.

O governo da República Federal da Alemanha reconheceu o golpe. Em um artigo reproduzido pela Deutsche Welle o primeiro-ministro Olaf Scholz chegou a propor o retorno a práticas agrícolas anteriores à Revolução Industrial, como o uso de excrementos humanos para substituir os fertilizantes químicos. A Rússia e a Ucrânia respondem por 12% de total de calorias comercializadas no mundo. Possuem uma rede ferroviária integrada com a Europa e estão entre os cinco maiores fornecedores internacionais de trigo, cevada, girassol e milho. A troca por outro fornecedor, como os Estados Unidos e o Brasil, implicaria em mais pressão inflacionária em função do aumento do custo de transporte.

O problema não se resume à Europa. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo com destaque para a soja, café, cana de açúcar, carne e milho. Sua produção depende diretamente dos fertilizantes adquiridos no mercado Internacional: 85% da demanda nacional são atendidos por fornecedores estrangeiros. O agronegócio brasileiro depende pesadamente da Rússia e de Belarus. Cerca de 40% do potássio usado pelos produtores nacionais vêm destes países. O aumento do custo de fertilizantes pode reduzir o seu uso por parte dos agricultores e como consequência reduzir as safras mundiais.

A Índia, o segundo país em população, também depende de importações de fertilizantes e outros insumos agrícolas russos para manter a segurança alimentar da população. Considerando que os estoques globais estão no limite, os preços dos alimentos podem atingir valores estratosféricos.

A escassez de fertilizantes químicos também afeta os mercados da África e da Ásia, onde se concentram boa parte dos 800 milhões de pessoas subnutridas no mundo (dados de 2016), números que devem aumentar expressivamente ao longo de 2022. A produção de alimentos sofreu os efeitos da pandemia de COVID 19 e da instabilidade climática causada pelo aquecimento global — causa da quebra de safras na América Latina — o que afetou o mercado de oleaginosas e grãos.

A operação especial promovida por Moscou criou uma dificuldade adicional: neste quadro de escassez, os países europeus fecharam seus portos para navios de bandeira russa e boa parte do Oriente Médio e do Norte da África depende da Rússia e da Ucrânia para suprir suas necessidades alimentares, principalmente fornecimentos de trigo, cevada e milho. O Egito é o maior importador de trigo e 85% deste cereal vêm dos países em guerra.

Hidrocarbonetos

A fabricação de fertilizantes químicos necessita de grandes quantidades de energia e a Europa depende dos fornecimentos de gás russo. Até o início da operação especial na Ucrânia, a Alemanha era o maior cliente, com 20% de sua matriz energética atendida por gasodutos que interligam os campos do Cáucaso às centrais termelétricas do país. Apesar dos investimentos em energia solar e eólica, os alemães usam a linhita (carvão mineral marrom, extremamente poluente) para suprir 25% de sua demanda. Em 2011, por pressão do Partido Verde, hoje integrante da coalizão que governa o país, a Alemanha decidiu eliminar completamente a energia nuclear até o final deste ano.

A ideia era suprir a deficiência energética do país com a importação de gás russo ampliando a rede de gasodutos que interligam as duas nações. O Nordstream 2 era parte importante deste projeto. O gás natural é um combustível limpo que não deixa resíduos ao queimar. Os alemães contavam com ele para cumprir o objetivo de substituir integralmente, até 2030, a atual frota equipada com motores a explosão por veículos elétricos. Em função desta dependência, o país resistiu às pressões dos Estados Unidos, que pretendiam forçar a Europa a banir integralmente as importações de hidrocarbonetos fornecidos pela Federação Russa.

O presidente estadunidense, Joe Biden, pretendia impor um bloqueio completo a todo o sistema bancário russo, de maneira a impedir a compra de gás. No final, em função da Alemanha, restringiu a medida às seis maiores instituições financeiras russas. O resultado, por incrível que pareça, ampliou a receita de Moscou resultante da venda de derivados de petróleo. A decisão do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, de só vender hidrocarbonetos para países hostis com pagamento em rublos adquiridos em Moscou reforçou o poder de barganha russo, fato reconhecido pelo chanceler da Áustria, Karl Nehammer.

Para tentar convencer seus parceiros europeus a adotarem um embargo total contra a Rússia, os Estados Unidos prometeram encontrar fontes alternativas, mas pouco apresentaram em termos práticos. As monarquias do Golfo Pérsico não ampliaram suas exportações de gás natural liquefeito (GNL), de custo bem mais elevado. O governo norte-americano, ao final, conseguiu garantir apenas o fornecimento de 10% do volume exportado por Moscou e não há nenhuma certeza de que essa solução seja suficiente a curto e médio prazo.

O transporte marítimo de GNL é complicado. Depende de instalações criogênicas que resfriam o gás a 163 graus negativos na origem para armazená-lo. No destino, é necessária uma planta de conversão do estado líquido para o gasoso, um processo caro e perigoso que não é competitivo com os gasodutos.

Washington planejava quebrar o monopólio russo com a construção de um gasoduto que ligaria o Iraque e a Arábia Saudita à Europa. A proposta, conhecida como NABUCO, foi concebida por George W. Bush, mas ficou engavetada em função da necessidade de incluir a Síria no projeto. O governo do democrata Barack Obama vislumbrou uma janela de oportunidade quando rebeldes fundamentalistas sírios tentaram se levantar contra o governo de Hafez Assad. Com a intervenção da Federação Russa e do Irã, o plano fracassou.

As sanções impostas pelos aliados dos Estados Unidos não deveriam impedir o abastecimento e a manutenção das exportações de alimentos e de suprimentos russos necessários à agricultura. Qualquer medida contrária a esse cenário pode afetar populações vitimadas pela insegurança alimentar. As pressões políticas não devem comprometer o combate à fome. As questões humanitárias estão acima de tudo e milhões de vidas dependem disto.

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