No dia da Independência, nunca fomos tão dependentes

Por ARTHUR NADÚ RANGEL

No dia da independência, o Brasil deve lembrar o ideal que criou uma das mais incríveis nações da Terra, formada pela mescla de um povo plural, da elevada filosofia ocidental e pelos nortes políticos europeus que colocam o cidadão no centro do Estado. Não éramos uma civilização perfeita, na verdade tínhamos mais problemas do que soluções, principalmente por causa de um racismo estrutural (herança do longo período de escravidão), subdesenvolvimento estrutural e alta concentração de renda, mas as bases da nossa independência foram fundamentais para para construção da nação brasileira.

O que vemos no Brasil é a apropriação dos símbolos nacionais para a realização da vontade de uma minoria e de forças estrangeiras. Este pretenso nacionalismo, praticado por uma parcela da população, em nada se parece com o ideal anunciado pelo mítico grito do Ipiranga: é marcado pela presença dos símbolos de Israel, um país que pratica o apartheid como política de Estado; é erguer a bandeira dos Estados Unidos, combater o fantasma inexistente do comunismo e ter como religião a vontade do mercado.

Ser nacionalista não significa fechar os olhos por mero ufanismo, é ter consciência dos variados problemas sociais que afetam o Brasil e buscar a solução, procurando, como diriam os americanos, uma volta aos ideais que guiaram a vontade dos pais fundadores da nação estimulados pelos direitos dos cidadãos. Aos 198 anos, ainda negamos o outro, em favor do dinheiro e do mercado, que passou a ter mais importância que a vida dos cidadãos; permitimos confundir nacionalismo com neoliberalismo, e ainda passamos a flertar com o fascismo, que nega nossos direitos plurais em favor dos direitos individuais de uma pequena parcela do povo, branca, rica, racista e comprometida apenas com o próprio bolso.

Este falso nacionalismo nega nossos mitos, nossos heróis, nosso belo meio ambiente. O mais importante é seguir as determinações de Washington, mesmo quando o governo americano quer impor sua vontade a outros países e nos condenar ao subdesenvolvimento para manter o seu domínio. Um brasileiro pobre faz um americano rico. Queremos destruir tudo, derrubar a Amazônia, queimar o Pantanal, matar o nosso povo, ao mesmo tempo que tratamos os estrangeiros como pessoas superiores Não! Eles são pessoais iguais a todos nós, seja o rico que mora em Ipanema ou a empregada pobre do Morro das Pedras.

Para o governo, o brasileiro não vale nada. Não há garantia de emprego, falta investimento em saúde e educação e o bem-estar da população não gera riqueza. Existe uma relação promíscua entre a administração pública e o mercado! Vivemos em um paraíso neoliberal, onde a concentração de renda atinge níveis que tornam o desenvolvimento do país impraticável: é economicamente impossível um país crescer com a concentração de renda que existe no Brasil, onde grande parte da população sobrevive com R$ 400 por mês.

Não existe nação quando se exclui pretos e pardos, se segrega os pobres e se sonega os direitos fundamentais. No governo não se pergunta “o que será bom para os Brasileiros? ”, mas sim “o que será bom para os EUA? O que será bom para o mercado?”

Nossos aliados não são os melhores parceiros econômicos, mas sim aqueles que buscam realizar seus interesses em cima do lombo brasileiro. Ignoramos os nossos mitos nacionais, em favor de mitos nacionais de culturas estranhas à nossa. As nossas elites valorizam mais o mito de Abraham Lincoln ou George Washington do que Tiradentes ou Zumbi dos Palmares; existe um fetichismo em reescrever a nossa história em conveniência aos interesses externos e a vontade das minorias.

Nunca fomos tão dependentes, tudo que fazemos, pensamos ou compramos deve ser aprovado pelos EUA ou pelos mercados, a opinião dos Brasileiros nada mais vale, o bem-estar dos brasileiros nada mais vale. A nossa política militar deve estar alinhada aos interesses da política americana ou ao corporativismo dos oficiais e não a nossa soberania: temos que seguir o consenso de Washington e transformar o Brasil em um grande Porto Rico, temos que parar de vender carne e soja para a China para não atrapalhar as vendas de carne e soja americanas para a China, temos que abrir as nossas fronteiras para as grandes potências, mas continuar a ser tratados de forma igual e sem reciprocidade nestes países, ferindo décadas de bom exemplo global por meio da reciprocidade e do pragmatismo responsável.

foto: Franco Antonio Giovanella

É de se espantar que a bandeira que sobe hoje no pavilhão nacional é a linda bandeira verde e amarela e não a bandeira americana ou de qualquer outro país, afinal, um governo que não honra a nossa história, nossos heróis, nosso povo, nossos trabalhadores, as pessoas que lutam todo o dia para colocar comida na mesa, para cuidar dos nossos doentes, para nos trazer alegria, informação, segurança. Todas estas pessoas não valem um americano para o nosso governo executivo. Nunca fomos tão dependentes. Precisamos declarar a independência novamente.

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