Defesa antiaérea não se limita a mísseis e canhões

Por Pedro Paulo Rezende

O Brasil aprovou a compra do sistema antiaéreo Enhanced Modular Air Defence Solutions (EMADS) oferecido pelo governo da Itália ao preço de 1,5 bilhões de euros (cerca de R$ 9,7 bilhões), mas isto não significa que o problema da defesa espacial do país esteja resolvido. A solução é sistêmica e não depende apenas de mísseis e canhões: é necessária a integração a radares de longo alcance e equipamentos de identificação amigo-inimigo (IFF, sigla inglesa de Identification Friend and Foe) e de comunicação digital entre as unidades por rádios designados por software (RDS) e equipamentos de enlace de dados (datalinks).

A guerra, hoje, está centrada em rede. As informações seguem um fluxo constante e são centralizadas e analisadas em tempo real por plataformas C4I (sigla em inglês de Command, Control, Communication, Computer and Intelligence — comando, controle, comunicação, computador e inteligência) que recebem e gerenciam os dados, transformando-os em inteligência aplicada ao processo decisório. A consciência situacional é imediata. Isto se faz por datalinks localizados em variadas plataformas aéreas, navais e terrestres e esta é uma deficiência clara das Forças Armadas do Brasil e da América Latina em geral.

Nas Forças de Defesa de Israel e nas Forças Armadas da Suécia o fluxo de informações é abastecido até por unidades de infantaria. Cabe ao sistema C4I filtrar quais são relevantes à consciência situacional e ao processo decisório, para isto é necessário um alto número de enlaces de dados, comunicação segura por RDS e sistemas de identificação IFF confiáveis.

Nos países desenvolvidos é comum a existência de agências destinadas ao desenvolvimento e aquisição de equipamento militar. Dois bons exemplos são a DGA (Direction GeneraIe des Armements) francesa e a FMV (Försvarets Materielverk) sueca. Cabe a estas organizações confeccionar os requisitos comuns às três forças e concentrar o processo de compras. No Brasil, Marinha, Exército e Aeronáutica estabelecem seus processos de forma independente. A Marinha e a Aeronáutica trabalham com projetos de enlaces de dados próprios e o Exército trabalha com um rádio designado por software.

A bem da verdade, existe um projeto de IFF para as três forças, mas que avança lentamente. O desenvolvimento começou com a criação da prova de conceito, dos algoritmos e do transponder, além da integração com o SABER S200 – um radar secundário nacional com alcance de 370 km e operação criptográfica no modo 4. Essa fase inicial contou com a participação da Orbisat e do Centro Tecnológico do Exército. Em 2019, o programa avançou significativamente com o desenvolvimento do criptocomputador CM4-B, do adaptador para instalação AM4-L, do gerador e inseridor de chaves criptográficas KM4 “keyloader”, além de aplicativos e requisitos do servidor.

No entanto, apenas um equipamento de IFF está disponível, em caráter experimental, em uma unidade SABER S200 que não está integrada ao Sistema de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (SISDACTA) e não é capaz de designar alvos. Em relação aos sistemas de enlace de dados, há dois sistemas em desenvolvimento: o Link BR2, da Aeronáutica, em desenvolvimento na Aeroeletrônica (AEL) e o STERNA (Sistema Tático de Enlace de Dados em Radiopropagação Naval), criado pelo Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) em duas versões para guerra submarina e de superfície/antiaérea.

Desenvolvimento tumultuado

O Link BR2 tem uma longa história. O protocolo foi desenvolvido entre os anos de 2006 e 2009. Em 2012, a Comissão Permanente para a Aquisição do Avião de Combate (COPAC) do Comando da Aeronáutica selecionou o consórcio formado pela MECTRON, subsidiária da Odebrecht Defesa e Tecnologia (ODT), com a Israel Aerospace Industries (IAI) para transformar o protocolo em um sistema operacional, com orçamento de R$ 193 milhões. O objetivo era claro: garantir que o Brasil tivesse domínio sobre uma tecnologia de comunicação militar de ponta, essencial para a soberania nacional. O sistema, capaz de conectar aeronaves, centros de comando e diferentes meios militares em tempo real, era a resposta brasileira à crescente demanda por interoperabilidade, inteligência e segurança nas operações de defesa.

A partir de 2015, o projeto começou a enfrentar dificuldades com a Operação Lava Jato, que atingiu em cheio o grupo Odebrecht e, por consequência, a Mectron. Em 2017, a empresa foi encerrada. Enquanto parte da equipe e dos projetos de mísseis migraram para empresas nacionais como Avibras e SIATT, o setor de comunicações foi vendido para a AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems.

Segundo um diretor da MECTRON, o grupo chegou em dezembro de 2016 ao Comando da Aeronáutica com uma fatura de R$ 150 milhões referentes ao desenvolvimento de mísseis ar-ar — o A-Darter, em conjunto com a empresa sul-africana Denel; dos AAM-1B e AAM-2 Piranha (de projeto próprio) — , antirradiação, o MAR-1, e o Link BR2.

— Eles simplesmente disseram que não nos deviam nada e não sobrou alternativa senão fechar a empresa.

Uns meses antes em Santiago do Chile, testemunhei um diálogo insólito no estande da MECTRON durante a Feira Internacional do Ar e do Espaço (FIDAE) entre um diretor da empresa e a então secretária de produtos de Defesa, Perpétua Almeida. Ela sugeriu delicadamente que a relação com a ODT fosse terminada. O diretor declarou depois que ela deixou o local:

— A Odebrecht é uma mãe para a gente. Sem ela não teríamos recurso para nada.

Todos os programas de mísseis propostos pela Força Aérea foram descontinuados com o fim da MECTRON e o Link Br2 foi entregue à AEL, controlada pela ELBIT, israelense, que possui uma relação de concorrência tumultuada com a IAI. Isto determinou a troca de alguns componentes, mas as razões para o atraso no programa se devem ao fluxo irregular de recursos orçamentários da Força Aérea Brasileira (FAB). Hoje, o sistema foi instalado em um caça F-5EM e na Base Aérea de Canoas. Tem capacidade de receber e coordenar informações de 76 fontes simultâneas em terra e no ar priorizando alvos de acordo com o risco de ameaças.

É um sistema aprovado em testes e que deverá integrar todos os aviões de combate da Força Aérea Brasileira e os radares do SISDACTA, mas que ainda não entrou em fase de fabricação. O Link BR2 precisa ser instalados nos EMBRAER E-99M, de alerta antecipado; nos EMBRAER R-99M, de sensoriamento remoto; nos caças SAAB F-39E Gripen E e nos EMBRAER A-29 Super-Tucano, de ataque. Obviamente, estes aviões precisam do novo IFF padrão, mas nada foi feito neste sentido.

Mares tranquilos

A Marinha do Brasil é pioneira no uso de sistemas de enlace de dados. Tudo começou em novembro de 1976 com a chegada da fragata Niterói. A bordo havia duas novidades: um computador Ferranti e o datalink YB. Os equipamentos e softwares evoluíram ao longo dos anos por meio da série SICOMTA e atualizações sucessivas nos meios de combate e de defesa eletrônica, principalmente o DEFENSOR que impediu, durante uma Operação UNITAS, que navios estadunidenses travassem com soluções de tiro contra as fragatas brasileiras. Com este pano de fundo o Instituto de Pesquisa da Marinha (IPqM) lançou, em dezembro de 2017, os estudos para o STERNA.

Desenvolvimento totalmente brasileiro, o equipamento ficou pronto em tempo recorde. Os primeiros testes ocorreram em 2020 e em 2023 as primeiras quatro unidades de pré-serie ficaram prontas. Em agosto de 2024, os primeiros testes de compatibilidade com o Link BR2 ocorreram graças a uma interface criada pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), o Multi Data Link Processor (MDLP). A FAB mobilizou o F-5EM, o Centro de Comando da Base de Canoas e os radares localizados nas proximidades de Porto Alegre. A Marinha empregou o rebocador Tritão na região de Rio Grande. Houve troca de mensagens táticas e imagens permitindo grande consciência situacional entre as partes a partir de uma mesma figura operacional.

O EMADS

Ao todo, o Exército Brasileiro irá adquirir material suficiente para dois grupos de artilharia antiaérea, um em Jundiaí (SP) e o outro em Brasília, cada um deles com 12 lançadores de mísseis guiados por um radar Leonardo Kronos Land e controlado por um centro de comando e alerta. Cada viatura lançadora dispõe de oito mísseis Common Anti-Air Modular Missile (CAMM) — fabricado pela MBDA do Reino Unido e adotado pela Marinha do Brasil para as fragatas da Classe Tamandaré — em duas versões (ambas guiadas por infravermelho): CAMM, de 45 quilômetros de alcance, e CAMM-ER (extended range), com 65 quilômetros de raio de ação. O teto operacional é de 25 mil metros.

A oferta foi feita, em 17 de junho, no Show Aéreo de Paris ao ministro da Defesa brasileiro, José Múcio Monteiro, pelo seu colega italiano Guido Crosetto e foi obscurecida pela agressão de Israel e Estados Unidos ao Irã. Segundo o ministro da Defesa da Itália, a conversa tratou, além de mísseis antiaéreos, de sistemas navais subaquáticos e de superfície, guerra cibernética, satélites de sensoriamento remoto e aviões de treinamento avançado. O negócio proposto é de governo a governo, o que reduz a burocracia, facilita a aquisição, aumenta a garantia e diminui o custo do negócio.

Um radar poderoso

O centro nervoso do EMADS é o radar Kronos Land da Leonardo, que opera na banda C-AESA. Com um alcance de vigilância de até 150 km, pode ser facilmente integrado a uma rede de vigilância para controlar sistemas de defesa aérea de curto (SHORAD) e muito curto (VSHORAD) alcance. Ele também oferece recursos superiores de Counter-UAS (C-UAS), permitindo que os operadores detectem e rastreiem alvos potencialmente hostis mesmo em cenários desafiadores. A antena é rotativa e refrigerada a líquido. Com módulos de nitreto de gálio provê informações por meio de datalink aos sistemas C2I (Comando, controle e Inteligência) ou C3I (Comando, Controle, Comunicação e Inteligência).

O radar pode ser transportado por veículos de oito ou seis rodas com tração total. Para deslocamento, a antena é recolhida eletricamente e o conjunto tem o tamanho exato de um container padrão ISO. O sistema é capaz de acompanhar, designar e engajar alvos para baterias de mísseis antiaéreos e antibalísticos, no caso italiano o sistema de mísseis terra-ar SAMP/T New Generation do Consórcio EUROSAM, que emprega os mísseis ASTER 15 e ASTER 30 com alcance máximo superior a 30 quilômetros e 120 quilômetros respectivamente.

Apesar disto, se não tiver integração com o SISDACTA e os aviões da força aérea, o radar e as baterias podem se tornar inúteis. Um problema adicional de integração ainda precisa ser resolvido: as baterias de RBS-70NG montadas nas viaturas Guarani antiaéreas que visam dar proteção aproximada à tropa da força terrestre. Equipada com um radar SAAB Giraffe 1X, cada unidade disporá de quatro veículos lançadores equipados com três mísseis de pronto emprego e cinco de recarga (manual). Ao todo serão adquiridas 62 unidades, 49 de tiro e 13 de controle.

O RBS-70NG resolveu um problema intrínseco ao projeto: o acompanhamento manual do alvo. A nova versão utiliza um sistema radiocomandado a partir da unidade de controle, mas o Exército Brasileiro ainda emprega o sistema original em apoio à infantaria. Isto torna o equipamento praticamente inútil em condições de baixa visibilidade.

Mau-exemplo

Na ofensiva relâmpago que os Estados Unidos fizeram para capturar Nicolás Maduro, chefe de Estado venezuelano, ficou clara a necessidade de se integrar a defesa antiaérea. Os radares chineses JY-27 — empregados para controle de tráfego aéreo civil — conseguiram captar a movimentação no céu, mas não estavam integrados à defesa aérea. Era uma falha gritante. Eles têm tecnologia de varredura eletrônica ativa (AESA, sigla em inglês de Active Electronically Scanned Array) e são mais avançados que os radares de fabricação russa dos sistemas S300, BUK, TOR e Pechora, mas não foram desenhados para designar alvos.

Em teoria, as forças venezuelanas poderiam impor resistência ao ataque, mas há claros indícios de que Maduro não mobilizou seu aparato militar e não levou as ameaças do presidente estadunidense Donald Trump a sério. As baterias de mísseis estavam armazenadas e o volume de fogo do Forte Tiuna (onde o presidente capturado se abrigava) foi pequeno, prova de que não estava em regime de prontidão. Havia sinais de pouco efetivo aquartelado, como é típico dos fins de semana. Coube ao ministro da Defesa, Diosdado Cabello, convocar as Forças Armadas bolivarianas no dia seguinte ao vexame.

Outro ponto que ficou claro é a limitação dos mísseis portáteis em condições noturnas. Apenas dois foram disparados contra os helicópteros inimigos e a defesa foi exterminada quase que imediatamente. No caso dos RBS-70 tradicional seria ainda mais complicado em função das limitações de guiagem manual. A Venezuela teria 6.000 unidades do IGLA-S. Também adquirido pelas unidades de pronto emprego do Exército Brasileiro e pela FAB, o equipamento guiado por infravermelho é fire and forget (atire e esqueça).

A defesa antiaérea sempre foi o calcanhar de Aquiles das forças armadas brasileiras. A compra do EMADS é um passo importante, mas sua efetividade depende de ferramentas de comunicação seguras. Está na hora de investir em um IFF e em um datalink nacionais e não deixar que a oportunidade passe. É gerar empregos e tecnologia para os brasileiros e o Brasil.