Biden estabelece o esboço de sua política externa — 2ª Parte

Por PEDRO PAULO REZENDE

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tem as mãos enterradas na lama da Ucrânia. Em 2014, quando ocupava a Vice-Presidência, recebeu do então chefe de Estado norte-americano, Barack Obama, a incumbência de coordenar junto à Europa o apoio internacional para institucionalizar o governo formado pela Revolução de Maidan, patrocinada pela secretária de Estado Hillary Clinton. O movimento deu aos partidos neonazistas uma participação importante na cena política do país.

Ao derrubar o presidente Viktor Yanukovich e ao dar suporte à ascensão de Petro Poreshenko, os ultranacionalistas ganharam cacife para promover um processo de limpeza étnica nas regiões que possuíam maioria de habitantes russo descendentes. A reação foi inevitável, levando a um processo separatista na região da bacia do Donbass e na reincorporação da Crimeia à Federação Russa por iniciativa popular, com 96,8% de aprovação em um plebiscito.

Por enquanto, Biden não se manifestou sobre as futuras relações com Kyiv e há boas razões para isto. Durante seu mandato como emissário do governo dos Estados Unidos junto à Kyiv, ele construiu fortes relações com os oligarcas locais. Um deles, Mikola Zlochevski, convidou Hunter Biden, filho do atual presidente norte-americano, para um cargo no conselho da Burisma, uma das maiores companhias de gás natural do país. Pouco depois, a Procuradoria Geral da Ucrânia começou a investigar acusações de corrupção envolvendo a companhia.

A nomeação de Hunter, que continuou na Burisma até abril de 2019, gerou polêmica e foi usada pelo ex-presidente Donald Trump para pressionar o candidato Joe Biden durante a campanha. O próprio Hunter Biden afirmou que, apesar de não ter feito nada de incorreto, seu trabalho na Ucrânia foi “um erro de avaliação”.

Em um recente relatório, os senadores republicanos consideraram que pode ter havido um conflito de interesses, mas não encontraram nenhum sinal de que a relação profissional de Hunter Biden com a empresa tenha influenciado as políticas dos Estados Unidos. As relações pouco republicanas da família Biden com os oligarcas ucranianos estimularam Trump a pressionar o chefe de Estado do país europeu, Volodimir Zelensky, a liberar possíveis provas que incriminassem seu adversário na campanha eleitoral. Em troca, ele liberaria US$ 300 milhões para reforçar as forças armadas de Kyiv. Os telefonemas vazaram para a imprensa e a chantagem terminou se voltando contra o ex-presidente americano.

Quadro confuso

Com tantos precedentes incriminatórios fica difícil para a atual administração estadunidense se envolver diretamente no confuso quadro ucraniano. As milícias neonazistas queimaram a casa de Vitaliy Shabunin, presidente do Centro de Ação Anticorrupção, uma ONG fundada com apoio dos Estados Unidos e países europeus. Detalhe: Zelensky, um ator de TV que se elegeu como uma alternativa antipolítica, sempre apoiou as ações da organização. A situação na bacia do Donbass continua tensa (são comuns os relatos de troca de tiros), apesar da trégua negociada pela Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE).

A Ucrânia não mediu esforços para punir a população da Crimeia por escolher o retorno à Rússia. A decisão de se separar foi estimulada pelo Massacre de Cherkasy, que ocorreu durante a Revolução de Maidan. Uma caravana de oito ônibus de ativistas a favor de Viktor Yanukovich saiu de Simferopol, capital da Crimeia, rumo à capital ucraniana. No retorno, os ônibus foram emboscados por ultranacionalistas, que espancaram os viajantes e os ameaçaram com gasolina e fogo. Algumas das vítimas buscaram refúgio em um trigal e foram vítimas de tiros. Oito deles desapareceram. Os coletivos, incendiados, levavam crianças, velhas e mulheres.

Depois do ataque, os habitantes da Crimeia formaram unidades de autodefesa que conseguiram o controle da península. A população organizou um plebiscito para decidir entre a independência e o retorno à Federação Russa — o território foi incorporado à Ucrânia em 1956 por decisão do então chanceler da União Soviética Nikita Kruschev. A segunda tese venceu.

Retaliação

De lá para cá, a península, que tem maioria russo descendente, sofreu uma série de represálias. Houve cortes de energia elétrica e de água, medidas fortemente condenadas pela sociedade internacional, resolvidos com a construção de uma ponte entre a Crimeia e o resto do território — que também serve para passar cabos de força e uma adutora. As reclamações de Kyiv junto a outros países contra a reincorporação tiveram nenhum efeito prático. Apesar disto, o governo de Volodimir Zelensky deu início a uma nova tentativa para reacender a discussão no ambiente europeu.

Ele encarregou a vice-ministra de Negócios Estrangeiros, Emine Dzhaparova, de criar a Plataforma sobre a Crimeia, um mecanismo similar ao já existente na região do Don, onde a OSCE mantêm representantes para fiscalizar o cessar fogo e minimizar o impacto do conflito. Charmosa e dona de um inglês impecável ela já visitou vários países europeus para convencer os governos a participar da ação. Até agora, seu sucesso foi limitado, obtendo suporte formal na Hungria e na Polônia, países sobre controle da extrema-direita. Os Estados Unidos também não se manifestaram e há boas razões para isto.

A Plataforma sobre a Crimeia não tem nenhum conceito concreto. O mecanismo foi idealizado para proteger os interesses políticos russofóbicos contra os interesses da população ucraniana, que mantêm fortes laços econômicos, históricos e culturais com a Rússia. A falta de realismo destes grupos chegou ao ponto do Parlamento recusar, contra a vontade de Zelensky, uma oferta de Moscou para o fornecimento sem custos de doses da vacina Sputnik V. Detalhe: nenhum outro país fez qualquer proposta para fornecer o imunizante.

A reincorporação da Crimeia à Federação Russa seguiu claramente as regras de autodeterminação da população defendidas pelas Nações Unidas, um plesbiscito, e são exatamente iguais aos métodos democráticos usados pelo Reino Unido para manter o domínio das Falklands/Malvinas. Do início do retorno aos dias de hoje, o apoio popular à união com a Rússia cresceu, como comprovam pesquisas de opinião feitas por instituições nacionais e internacionais. A península está cada vez mais integrada econômica e politicamente a Moscou.

Na primeira reunião ucraíno-brasileira para cooperação científica, o assunto foi colocado en passant, e ignorado pelos representantes dos ministérios da Defesa, de Ciência e Tecnologia e do Itamaraty. Apesar do conservadorismo do Chanceler Ernesto Araújo, a iniciativa de apoiar a Plataforma para a Crimeia não deve prosperar. O Brasil vai ignorar esse assunto e se concentrar nas outras áreas de interesse.

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