Amor mal correspondido

Por Pedro Paulo Rezende

Em busca de uma aproximação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proposta por Jair Messias Bolsonaro na campanha presidencial, o Brasil fez concessões expressivas que ferem a tradição diplomática brasileira. Endossou o embargo unilateral dos Estados Unidos imposto a Cuba há quase 60 anos na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e viu a moção de repúdio ao governo norte-americano ser aprovada pelo 28º ano consecutivo por 187 votos a três. Opuseram-se à condenação Estados Unidos, Israel e, pela primeira vez, o Brasil. Em outra votação, o país se manteve ao lado de Telavive contra a Divisão dos Direitos Palestinos, organismo da ONU encarregado de monitorar as violações do governo ocupante na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Novamente ficamos do lado perdedor: o placar foi de 84 a 13.

O desejo de relações carnais com os Estados Unidos foi o que levou um diplomata de segundo escalão, Ernesto Araújo, ao cargo de ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro. Discípulo do autointitulado filósofo Olavo Carvalho — conhecido entre os integrantes do círculo familiar do presidente como “o profeta da Virgínia” — ele sempre demonstrou sua admiração pelo presidente norte-americano, que chegou a classificar de “esperança para o Ocidente judaico cristão”, mas as concessões não se limitam à área diplomática. Nosso atual chanceler sempre se manifestou contra os blocos econômicos, que classifica como um risco imposto pelo globalismo aos Estados nacionais, e a favor de relações bilaterais com os países desenvolvidos da Europa e da América do Norte em detrimento do intercâmbio Sul-Sul.

Concessões pesadas

Desde que Bolsonaro assumiu a Presidência o Brasil abriu mão de grandes vantagens que dispunha na Organização Mundial do Comércio (OMC) em troca de uma promessa de apoio de Donald Trump de facilitar o nosso acesso à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ampliou as cotas de importação de álcool e trigo dos Estados Unidos e cortou as tarifas de importação de eletrônicos e de games. Apesar disto, o volume do intercâmbio bilateral caiu 10% desde o início do ano. O governo norte-americano não aceitou ampliar nossas exportações de carne e, como golpe final, decidiu tarifar o aço e o alumínio brasileiroS, que correspondem a 30% da pauta de produtos industrializados do país.

A promessa de apoio, dada por Trump a Bolsonaro, à pretensão brasileira na OCDE não se concretizou. O secretário de Estado dos EUA, Michael Pompeo, rejeitou o cronograma proposto pelo secretário-geral da entidade, Angel Gurria, que propunha a entrada de nosso país na organização em um prazo de dois anos. O governo americano endossou apenas as candidaturas de adesão de Argentina e Romênia. A decisão contradisse a posição pública sobre o assunto. Em março, o presidente Donald Trump, em entrevista coletiva conjunta com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na Casa Branca, declarou apoiou à entrada do Brasil no grupo de 36 países. Em julho, o Secretário de Comércio, Wilbur Ross, reiterou o apoio de Washington ao Brasil durante uma visita a São Paulo. Foram palavras vazias.

Relações familiares

O presidente brasileiro apostava em forjar relações familiares com Donald Trump. Indicou seu terceiro filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), outro discípulo de Olavo Carvalho, para assumir a embaixada em Washington. O parlamentar, atual presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara Federal, obteve o agrément dado pelo governo dos Estados Unidos, mas, diante da rejeição da opinião pública, terminou preterido por Nestor Foster, também ligado ao “Profeta da Virgínia”.

A embaixada do Brasil junto ao governo norte-americano não é um posto qualquer: é o mais cobiçado entre os diplomatas de carreira. A escolha começou a ser viabilizada no início do atual governo, quando o Palácio do Planalto emitiu um decreto que abrandou as normas internas do Itamaraty, permitindo a nomeação de pessoal externo para cargos-chaves do Ministério das Relações Exteriores. Foi uma completa subversão das práticas seguidas desde o fim do primeiro mandato do governo de Luís Inácio Lula da Silva que estabeleceu regras claras para impedir indicações políticas para as representações brasileiras no exterior.

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva deu apoio irrestrito ao chanceler Celso Amorim, um rígido defensor da profissionalização da diplomacia. Chegou a cultivar desafetos entre seus partidários, como o jurista Hélio Bicudo que rompeu com o partido e passou a ser um opositor ferrenho depois de ver contrariado seu desejo de ocupar a embaixada em Lisboa. Ele levou seu ódio ao extremo: foi um dos autores do pedido de impeachment que levaria à derrubada de Dilma Rousseff.

A decisão de nomear Eduardo para a embaixada em Washington foi comunicada ao chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, na primeira visita do presidente brasileiro aos Estados Unidos. Na ocasião, o chanceler Ernesto Araújo foi barrado do encontro no Salão Oval em um claro sinal de desprestígio.

Guerra comercial

A existência de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a República Popular da China não é segredo e se agravou com a decisão de Beijing de desvalorizar o renminbi yuan diante do dólar. O presidente Donald Trump, desde que assumiu o governo, deu início a uma série de escalada contra a presença da economia chinesa em seu país. Ao mesmo tempo, teve de se curvar à hostilidade do Congresso contra a Federação Russa.

Com todas as concessões que o governo Bolsonaro fez, as trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos ampliaram-se em apenas 10%, o que é insuficiente para tirar a China do posto de nosso maior parceiro. O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, quando esteve na América Latina, acenou com a criação de um acordo de livre comércio entre Brasília e Washington, mas quais seriam os benefícios desta iniciativa? A verdade é que as economias de Brasil e Estados Unidos não são complementares. As pautas de exportação, principalmente na área de agronegócios, são concorrentes. Disputamos os mercados da Ásia e da Europa com os mesmos produtos: carne, frango, milho e soja. Esta consonância, inclusive, gerou várias ações conjuntas contra o protecionismo da União Europeia em painéis na Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo norte-americano poderia ter aproveitado para dar um aceno amigável ao presidente Jair Bolsonaro, com o repasse de parte das cotas de importações chinesas para produtores tupiniquins, mas preferiu manter os gravames alfandegários. Paradoxalmente, o acirramento da disputa comercial imposta pelo presidente estadunidense contra Beijing traz benefícios potenciais ao agronegócio brasileiro. O governo da República Popular da China, ao anunciar a flutuabilidade do renminbi yuan (e a sua real desvalorização frente ao dólar), declarou que iria cortar as importações de produtos agrícolas norte-americanos. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, está pronta a pressionar o governo por este naco de mercado, extremamente atrativo.

Benefícios unilaterais

Um eventual acordo bilateral traria grandes benefícios para a indústria norte-americana, em detrimento da produção brasileira. Atualmente, o Brasil só exporta um produto de alta tecnologia para os Estados Unidos: aviões comerciais e militares da EMBRAER, que possuem uma grande quantidade de componentes de fabricação estadunidense. Por sua vez, o Brasil adquire grande quantidade de equipamentos e componentes eletrônicos e serviços de informática. Sem sobretaxas, a produção nacional não suportaria o impacto e tenderia a desaparecer.

Este ponto está em discussão nas diversas esferas do governo brasileiro em relação a outro acordo bilateral: o firmado entre o MERCOSUL e a União Europeia. O documento foi assinado em um momento de fragilidade. Enquanto as negociações ocorriam em Bruxelas, os presidentes da Argentina, Mauricio Macri, e do Brasil, Jair Bolsonaro, amargavam uma participação irrelevante durante a reunião do G20, grupos que reúne as 20 maiores economias globais. A necessidade de se obter um factoide positivo pesou, o chefe de Estado platino enfrenta um difícil processo eleitoral, e o bloco latinoamericano fez concessões pesadas, inclusive reduzindo cotas de produtos de exportação onde é extremamente competitivo, como a oferta de proteína animal (carne e frango).

Ao mesmo tempo, o MERCOSUL assumiu compromissos que vão contra a agenda ambientalista de Bolsonaro, que nega o aquecimento global e defende a exploração dos recursos minerais da Floresta Amazônica e a ampliação da fronteira agrícola a qualquer preço. A proteção dos ecossistemas, por meio do Acordo de Paris e do mercado de compra de carbono, é ponto de honra para a União Europeia e os choques não demoraram a aparecer. O agronegócio brasileiro passa por um momento crítico, com a aprovação da comercialização de agrotóxicos que não são permitidos nos mercados europeu e norte-americano. Como empresário, Trump percebeu o momento e acenou com um acordo sem tantas exigências.

O Brasil, no momento, acena com um maior alinhamento de suas posições políticas com o Departamento de Estado norte-americano na esfera internacional. Esta aproximação, no entanto, será analisada caso a caso. Há uma clara convergência entre Brasília e Washington em relação a Israel. Está certo o apoio de Bolsonaro à proposta preparada por Jarred Kushner em relação ao Estado Palestino. Esta posição será reforçada com a chegada do general de exército Luiz Eduardo Ramos ao Planalto, em substituição ao general de divisão Carlos Alberto Santos Cruz, demitido, a pedido, pelo presidente. O novo ministro-chefe da Secretaria de Governo foi adido militar em Telavive.

Até recentemente, o Itamaraty via com ressalvas as ações estadunidenses no Golfo Pérsico, principalmente contra a República Islâmica do Irã. Aproximou-se do Departamento de Estado ao impedir o reabastecimento de dois navios iranianos carregados de milho, carga humanitária, no Porto de Paranaguá. O impasse foi resolvido com uma liminar do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffolli, a favor dos exportadores brasileiros que fretaram as embarcações, mas ainda é cedo para avaliar o impacto junto a Teerã, grande comprador de frango e carne do Brasil (só nestes itens, o país adquire o equivalente ao dobro do comércio bilateral com Israel).

Um ponto de distanciamento é a questão da Crimeia, incorporada à Federação Russa depois de um referendo que teve 92% de apoio dos votantes. O Brasil não pretende tomar uma posição mais firme em relação à disputa. Em relação à Venezuela, a convergência entre Brasil e Estados Unidos já foi maior. Até mesmo o chanceler Ernesto Araújo já perdeu o entusiasmo pelo autoproclamado presidente da República Juan Guaidó. As sanções foram contraproducentes e reforçaram a unidade em torno de Nicolás Maduro. Para não perder a face, o Itamaraty não fará recuos retóricos, mas considera a situação perdida.