A namorada do político e a expansão da OTAN

Por Pedro Paulo Rezende

A expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com a inclusão da Finlândia e da Suécia, apenas formaliza o que todos já sabiam: a participação ativa dos dois países na aliança ocidental envolta em uma falsa neutralidade. Isto era evidente desde a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 26 de dezembro de 1991. Para exemplificar, vale contar uma historinha real dos bastidores políticos de Brasília, mas, por uma questão de elegância, vou omitir os nomes. Em 1972, o presidente de uma comissão importante do Congresso Nacional se sentia cansado e pensava em se aposentar. Fora figura importante nos governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubistchek e assumira papel de destaque na oposição ao regime militar de 1964. Estava com mais de 60 anos e achava que não tinha mais nada a contribuir. Olhava com carinho a ideia de voltar à cidade natal, onde participava de todas as missas e procissões da Ordem Terceira do Carmo, para cuidar dos filhos e netos. Este desânimo mudou quando encontrou, ao visitar o gabinete de um amigo, uma morena espetacular, trinta anos mais nova que ele.

A morena conversava pelo telefone com um adido da Embaixada dos Estados Unidos. Falava um inglês perfeito, com sotaque da Nova Inglaterra. Além do mais, possuía uma admiração real pelo trabalho do velho político, baixinho, magricela e careca. A atração foi mútua. Passaram a viver juntos no apartamento funcional, até que decidiram comprar casa no emergente bairro do Lago Sul. O casal comparecia em recepções diplomáticas e podia ser visto jantando em pizzarias ou no Piantella, restaurante que reunia os representantes da oposição. O relacionamento galvanizou o parlamentar, que concorreu e venceu eleições para o Senado e o governo do estado natal. Ela cuidava da agenda, participava das reuniões política e tinha voz ativa na carreira do companheiro, mas havia alguns detalhes: nunca trocavam intimidades em público e nos fins de semana ele assumia o papel de católico fervoroso e pai de família. Visitava a esposa, os filhos e os netos e participava das missas e procissões da Ordem Terceira.

O relacionamento durou até a morte do velho político. A família tentou barrar o acesso da amante ao funeral, mas parlamentares da Câmara e do Senado fizeram questão de privilegiá-la e ela entrou no cemitério de braços dados com um futuro presidente da República. Pode ser vista ao fundo na foto de família, onde a esposa chorosa, os filhos e netos ocupavam o primeiro plano em torno do caixão. Em suma, todos sabiam que ela fora o último amor da vida do chefe do clã, mas as aparências sempre ocuparam o primeiro plano. Aí, cabe a pergunta, o que isto tem a ver com a expansão da OTAN?

A Base de Norrbotten

Em 2002, tive a oportunidade de visitar a Norrbottens Flygflottilj (Ala Aérea de Norrbotten), também designada como F 21 Luleå. A unidade é simplesmente a primeira linha de defesa da Suécia contra qualquer ameaça que pudesse partir da Federação Russa por ar, terra ou mar. A base reunia dois esquadrões de caça J-39 Gripen A/B e o último esquadrão de interceptação equipado com o JA-37 Viggen.

Alguns detalhes me impressionaram e o primeiro foi a informalidade do ambiente. O comandante da base nos recebeu com a camisa um pouco fora da calça e com mocassins em lugar dos sapatos regulamentares da Força Aérea. De repente, apareceu o chefe de Operações, elegantemente fardado, mas usando um cinto fora do padrão do uniforme. Mentalmente, pensei que se fosse na Base Aérea de Santa Cruz, da Força Aérea Brasileira, ambos receberiam uma advertência ou outra forma de punição. No pátio, uma equipe de mecânicos de ambos os sexos, que parecia saída de um show de punk rock com macacões sujos e cabelos compridos, colocou para voar um caça Viggen completamente armado e abastecido em apenas dez minutos. Na minha cabeça veio a imagem de todos eles no xadrez por descuido com o fardamento e a aparência…

Durante o briefing, ficou claro que a unidade, apesar da neutralidade sueca, estava perfeitamente integrada com a OTAN. Na época, o país utilizava o melhor sistema de enlace de dados do mundo, o TIDLS, capaz de integrar os Gripen e os Viggen com aviões equipados de radar de alerta (AWACS) SAAB Erieye, unidades de terra e de mar. Um soldado isolado podia alimentar os caças por meio de um sistema portátil e um computador analisava e classificava a importância da informação em tempo real para determinar a resposta necessária. Em nenhum momento da exposição foi citada uma possível ameaça europeia e a necessidade de se coordenar a defesa com a Rússia. Em 2012, a Suécia abriu mão de seu sistema de enlace de dados e adotou o LINK 16 empregado pela Aliança Atlântica, claramente inferior em recursos.

O caso finlandês

A partir da derrota na Segunda Guerra Mundial, a Finlândia adotou uma rígida política de neutralidade. Adquiria sistemas de armas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e do Ocidente. Durante um tempo, operou caças suecos J-35 Draken ao lado de MiG-21 soviéticos. Isto começou a mudar em 1992 com a aquisição de caças norte-americanos Boeing (então McDonnell-Douglas) F/A-18C/D pela Força Aérea finlandesa.

Com a queda do regime socialista em Moscou e a dissolução da União Soviética, o país começou a pender para o Ocidente. Adotou o Link 16 e rígidos padrões da OTAN para seu reequipamento aéreo. Em terra, apesar de ainda dispor de uma grande quantidade de material de origem soviética (carros T-72, de combate, e BMP-1, de transporte de tropas) a Finlândia passou a cooperar cada vez mais com a Aliança Atlântica e é, hoje, um grande exportador de material para a União Europeia.

Esta tendência de se afastar da Rússia e se aproximar da OTAN se consolidou no ano passado com a seleção dos caças furtivos Lockheed-Martin F-35A, de fabricação estadunidense, pela Força Aérea Finlandesa. É bom ressaltar que os requerimentos determinavam a completa interoperacionalidade com as forças ocidentais e que apenas fabricantes europeus e norte-americanos participaram do processo de licitação.

Fechando o circuito

A entrada da Suécia e da Finlândia na OTAN é, simplesmente, a formalização de um processo que se iniciou com a dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991. Os governos dos dois países aproveitaram a operação especial da Federação Russa na Ucrânia para passar o projeto de lei sem necessidade de consulta popular por meio de referendo, como é usual nas duas democracias. Comparando com a historinha de Brasília, seria o político casar com a namorada (que todos sabiam da existência) depois de anos de relacionamento. Claro, isto só ocorreria se a família dele aceitasse e, no caso da Aliança Atlântica, há quem se oponha ao matrimônio.

A Suécia possui uma rígida política de asilo a representantes de povos perseguidos por questões étnicas e religiosas. Abriga militantes nacionalistas de várias tendências, inclusive curdos, que possuem um longo contencioso com a Turquia, que lhes nega o direito de constituir um país. Sempre foi uma questão de princípios. A Hungria também se manifestou contra. Resta saber se os limites morais serão rompidos para formalizar uma aliança de facto apenas escondida pelo manto esfarrapado da neutralidade.

%d blogueiros gostam disto: