Por PEDRO PAULO REZENDE
O Brasil tomou duas decisões diplomáticas que servirão de referência futura para outros países: transferiu o embaixador Frederico Meyer da representação em Israel para a Conferência para o Desarmamento em Genebra e decidiu não comparecer à Cúpula da Paz sobre a Ucrânia, que será realizada nos dias 15 e 16 de junho, na Suíça. Obviamente, as duas foram criticadas pelos meios de comunicação e influenciadores ligados à direita, como já se tornou lugar comum.
O tempo mostrou o acerto de posições tomadas anteriormente pela diplomacia brasileira e que receberam enxurradas de críticas pela imprensa. Não faltaram artigos contrários ao presidente Luíz Inácio Lula da Silva quando ele denunciou, em fevereiro, o massacre da população civil em Gaza pelas Forças de Defesa de Israel durante a Reunião de Cúpula da Organização da Unidade Africana em Adis Abeba (leia mais aqui). Na época, os meios de comunicação nacionais classificaram a fala como um apoio velado ao terrorismo e ignoraram as contínuas declarações anteriores em que ele responsabilizou o Hamas pelas 1.280 mortes de civis no ataque cometido em território israelense no dia 8 de outubro.
A opinião de Lula, hoje, é referendada pela maioria dos governos ocidentais. Na última semana, inclusive, houve uma explosão de países europeus que reconheceram a existência da Autoridade Palestina como governo legítimo da Cisjordânia e de Gaza. O mesmo irá ocorrer com a Cúpula de Paz promovida pela Suíça, um evento vazio que só servirá de palco para o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky.
Cotovelada discreta
Na Copa do Mundo de Futebol de 1970, Brasil e Uruguai disputaram uma partida acirrada, Os jogadores da seleção uruguaia tentaram parar os adversários com o uso da violência. Em uma disputa entre Pelé e o lateral Dagoberto Fontes, o camisa dez deu o troco: enquanto corriam lado a lado, o atacante brasileiro acertou uma cotovelada em cheio no marcador, mas tão bem disfarçada que o juiz marcou falta para o nosso time. A transferência do embaixador Frederico Meyer para Genebra tem o mesmo efeito e significado.
Retirar o representante diplomático é uma medida extrema que antecede o corte de relações entre dois Estados. Em fevereiro, o embaixador brasileiro passou por um momento de constrangimento ao ser chamado pelo ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, ao Museu do Holocausto em Jerusalém para ouvir queixas públicas sobre a fala de Lula, em que o presidente comparou as ações contra civis em Gaza às ações de Hitler contra os judeus. O chanceler israelense ainda declarou o chefe de Estado brasileiro como “persona non grata”.
Se formos comparar a um jogo de futebol, seria um carrinho por trás para quebrar o tornozelo (Pelé tomou vários na disputa contra o Uruguai). O chanceler Mauro Vieira teria todas as razões do mundo para contra-atacar de maneira aberta e retirar Frederico Meyer do cargo depois de todo o constrangimento que sofreu. Poderia até fechar a representação em Telavive. Em lugar disto, optou pela discrição. Promoveu-o para um cargo de prestígio longe de território israelense e deixou a embaixada a cargo de um competente encarregado de negócios: o ministro-conselheiro Fábio Moreira Farias.
O golpe deixou a chancelaria israelense tonta. Farias foi chamado para confirmar a transferência de Frederico Meyer e se a decisão do Itamaraty representava mais um passo rumo ao rompimento de relações. O diplomata confirmou a transferência do embaixador para Genebra e afirmou que não há sucessor. Nenhuma explicação foi dada ao governo do Estado judeu. A jogada tem todo jeito de ser fruto da tabelinha Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República.
Drible da vaca
A ausência do Brasil na Cúpula de Paz na Suíça equivale a um drible na vaca dado por um zagueiro contra um atacante perigoso. O chanceler da Confederação Helvética, Ignacio Cassis, contava reunir cem países em apoio ao governo da Ucrânia. A ideia, esdrúxula: uma conferência de paz em que apenas um dos lados estaria representado. O presidente Lula, depois de se reunir com Mauro Vieira e com Amorim, achou que sem os russos o encontro não teria sentido.
É preciso ressaltar que a Federação Russa interveio na região de Donbass quando sinais de limpeza étnica das forças ucranianas contra a população civil russófona se tornavam cada vez mais evidentes (leia mais aqui). Países indispensáveis para a mediação do conflito, como a República Popular da China, também concordaram com o Itamaraty e não enviarão representantes de primeiro escalão.
O embaixador Celso Amorim se reuniu com Wang Yi, membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China e Ministro das Relações Exteriores da China, no dia 23 de maio. O encontro gerou um documento em que se discute uma solução política e pacífica para o conflito e estabelece pré-requisitos para uma eventual negociação bilateral entre a Rússia e a Ucrânia com mediação sino-brasileira (leia mais aqui). Obviamente, a participação dos dois lados do conflito é um deles.
Por enquanto, Ignacio Cassis conta vantagem e diz que 50 países, a maioria europeus, pretende participar do encontro. No entanto, nem o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmou presença e é grande o risco da Cúpula se transformar em uma reunião de segundo nível, com a presença majoritária de funcionários de segundo ou terceiro escalão. Da América do Sul, apenas o presidente da Argentina, Javier Milei, confirmou. Países importantes no panorama mundial, como a Arábia Saudita e a Índia, já afirmaram que não enviarão diplomatas de primeiro nível. O mais provável é que a embaixadora do Brasil na Suíça, Cláudia Fonseca Buzzi, represente o país no encontro esvaziado. Em suma: uma conferência de paz em que apenas um dos lados é convidado tem tudo para dar errado e se transformar em um vexame e o Itamaraty já percebeu que a melhor política é se incluir fora desta.

