A violência agora é física

Por PEDRO PAULO REZENDE

O atentado contra o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, pode representar uma escalada na ação política dos serviços de inteligência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra os líderes políticos que reagem aos ditames determinados pelos Estados Unidos da América e pela União Europeia. Fico, ao contrário da presidente do país, Zuzana Čaputová, defende uma política de aproximação com a Federação Russa e o fim do apoio militar à Ucrânia. Ele recebeu quatro tiros no abdômen e no braço no dia 15 de abril, depois de sair de uma reunião em Handlová, a 190 km da capital do país, Bratislava. Chegou a correr risco de vida, mas, segundo o vice-primeiro-ministro eslovaco Tomas Taraba, agora, apresenta sinais de saúde estáveis.

O mandato de Zuzana termina no próximo dia 15 de junho, quando será substituída por Peter Pellegrini, candidato apoiado pelo atual primeiro-ministro eslovaco. A oposição alega que o atentado, cometido por um escritor de 71 anos, foi um ato solitário, mas desde a vitória da coalizão de esquerda em setembro do ano passado, a campanha de promoção de ódio contra Fico se ampliou pelas redes sociais, principalmente pelo X e Facebook. O ataque na quarta-feira foi apenas um reflexo da guerra híbrida que afeta o continente europeu.

O objetivo deste conflito não declarado é isolar a Federação Russa e tentar impedir o avanço inexorável de uma nova ordem econômica mundial promovida pelo BRICS + (bloco econômico encabeçado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que hoje agrega 10 países) e que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos e da Europa. Por coincidência, o ataque contra Fico ocorreu um dia depois da aprovação pelo Parlamento da Geórgia da Lei contra Agentes Estrangeiros.

Transparência

Patrocinada pelo premiê georgiano, Irakli Kobakhidze, ela determina que organizações civis que recebam mais de 20% do seu orçamento em contribuições providas do exterior deverão declarar isto publicamente. Trata-se de uma política de transparência que exporia a ação de propaganda promovida pela União Europeia e pelos Estados Unidos, o que não interessa à Aliança Atlântica.

A exemplo da Eslováquia, a presidente georgiana, Salome Zourabichvili (nascida em Paris, França), faz oposição ao primeiro-ministro e endossou o esforço destas organizações pelas mídias sociais do país contra a nova legislação. A União Europeia e o governo norte-americano foram entusiásticos ao apoiar manifestações de parte da população para tentar impedir a aprovação do projeto pelos parlamentares. A exemplo de Fico, Irakli Kobakhidze se opõe a envolver seu país no conflito da Ucrânia, enquanto a chefe de Estado, que não possui poder real, defende um alinhamento completo com o Ocidente.

Assinatura clara

O método desenvolvido pelo Ocidente para avançar sobre países neutros e ampliar o cerco contra a Federação Russa segue uma receita simples: em primeiro lugar, financiam-se organizações locais que irão movimentar as redes sociais para mobilizar parte da população contra o governo; o segundo passo é usar os meios de comunicação internacionais para alimentar o noticiário em nível global, por último, grupos armados realizam uma revolução colorida em nome da democracia.

O fim da União Soviética em 1991 criou uma série de problemas étnicos. Os novos países herdaram importantes contingentes minoritários e a convivência nem sempre foi tranquila. Para impedir possíveis genocídios, a Federação Russa mediou acordos entre grupos rebeldes e governos e garantiu o congelamento de conflitos nos países que se tornaram independentes. Este é o caso do conflito entre a Armênia e o Arzeibaijão; da Geórgia e as minorias abecases e ossetas, e das minorias localizadas na Transnístria e a Moldova.

Ao contrário da visão russa, que visa proteger as populações minoritárias, o Ocidente favorece a imposição do poder central com o uso das armas. O método é simples: acena com a futura associação do país-alvo com a União Europeia e a OTAN e exacerba o nacionalismo para estimular uma solução violenta do conflito. Pelo estatuto da Aliança Atlântica, os interessados não podem ter conflitos internos ou externos para se candidatar. É importante ressaltar que Moscou mantém forças de paz nestas regiões, o que já causou uma intervenção na Ossétia do Sul em 2008.

Estimulado pelos Estados Unidos, o presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, determinou o avanço militar contra a república separatista visando, principalmente, a população civil. Soldados da força de paz foram mortos, o que resultou em uma intervenção russa decisiva que, em cinco dias, pôs um fim no conflito. A mesma receita foi usada na Ucrânia depois do golpe de Estado de Maidan, que derrubou o presidente ucraniano Viktor Yanukovich. As forças do governo central se mobilizaram em 2014 contra as populações russófonas da Região de Donbass, o que resultou na intervenção de 2022 e o início do conflito atual.

Os mesmos métodos foram usados em Belarus e no Cazaquistão, mas o apoio russo foi decisivo para impedir que o golpe tivesse sucesso.

Novo alvo

A bola da vez é a Moldova. A Aliança Atlântica apoia as iniciativas da presidente Maia Sandu para impor a supremacia da língua romena sobre um país que possui uma minoria russófona de 25 % da população. Para impor sua visão, ela tornou ilegais partidos de oposição e promoveu perseguições contra políticos adversários, como o ex-presidente Igor Dodon. As ações, que receberam o suporte dos governos ocidentais, foram mais agressivas que as tomadas pela Justiça Eleitoral venezuelana contra os opositores que apoiaram a tentativa de golpe de Estado de Juan Guaidó.

Apesar disto, foram premiadas com promessas de adesão à União Europeia e à OTAN — como contraponto, para mostrar o duplo padrão ocidental, no caso da Venezuela resultaram no confisco das reservas do país (em depósitos bancários e de ouro), na exclusão da nação sul-americana dos meios de pagamento internacionais e em sanções contra as autoridades do país, principalmente o presidente Nicolás Maduro.

O objetivo das ações ocidentais é estabelecer um processo de radicalização que empurre, mesmo contra a vontade, nações neutras para o projeto unipolar defendido pelos Estados Unidos. No esforço de satisfazer a Aliança Atlântica, Sandu reduziu os fornecimentos de gás e petróleo da Federação Russa e passou a importar de fornecedores ocidentais, principalmente dos Estados Unidos, o que resultou em uma explosão de preços no custo da produção de energia e no aumento da inflação.

Desde o início da ofensiva militar russa contra a Ucrânia, Chisinau tem demonstrado forte apoio a Kiev. A Moldávia acolheu refugiados da guerra e apresentou um pedido de adesão à União Europeia e obteve a promessa de um aumento significativo da ajuda militar. O conflito isolou as forças de paz russas na Transnístria, transformando a região em um alvo potencial para uma intervenção militar do poder central, o que resultaria em um processo de limpeza étnica.

O mínimo que se pode dizer é que as intervenções ocidentais na Europa do Leste são, no mínimo, irresponsáveis, uma vez que agravam o risco de um conflito nuclear. Não há como impedir o surgimento de uma nova ordem econômica global com a disseminação do uso da força, do abuso econômico e da guerra híbrida. O BRICS atrai, cada vez mais, por sua proposta não alinhada e disposição de facilitar o desenvolvimento regional e a cooperação tecnológica sem a imposição de ideologias.