A nave mãe

Pedro Paulo Rezende
Um tripulante enlouquece e destrói o sistema de sobrevivência da nave que segue pelo espaço sem rumo e com 7,7 bilhões de tripulantes e passageiros condenados a morrer lentamente por falta de oxigênio, água, alimentos e calor. O enredo poderia embasar um filme de ficção científica, mas é real. O Planeta Terra está em risco em um momento de negação da ciência, quando terraplanistas, defensores da Terra Convexa e fanáticos religiosos influenciam legiões de fundamentalistas no You Tube e os sites de fake news gozam de grande credibilidade. Neste ambiente fértil para a desinformação, surgem reações contra o Acordo de Paris.

Firmado em 2015, o tratado, firmado por todos os países, visa diminuir drasticamente as emissões de combustíveis fósseis com o objetivo de reduzir, até 2030, o aquecimento global aos níveis verificados no início do século 20 (algo em torno de menos três graus centígrados). Os sinais de perigo são evidentes: furações, tornados e ciclones tornaram-se mais frequentes; os períodos de seca são maiores; incêndios florestais se espraiam e atingem centros urbanos, com enorme destruição de bens imóveis e vidas humanas.

Uma das nações mais afetadas são os Estados Unidos da América. Apesar disto, o presidente Donald Trump retirou oficialmente seu país, o maior poluidor per capita, do tratado. Ele considera a preservação ambiental como inimiga do crescimento econômico e voltou a incentivar a produção de carvão e a exploração de petróleo em áreas de preservação ambiental. No momento, encontra-se isolado, mas, a partir de 1º de janeiro de 2019, ganhará um aliado importante: o Brasil de Jair Bolsonaro.


O futuro presidente brasileiro já manifestou sua intenção de se afastar do Acordo de Paris e tomou uma medida clara para mostrar a firmeza de sua decisão: desistiu de sediar a 25ª Conferência Oficial das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (também conhecida como UNFCCC, sigla do original em inglês United Nations Framework Convention on Climate Change).

Será mais um passo rumo ao isolamento, uma vez que todos os outros signatários, principalmente a República Popular da China e a União Europeia, mantêm-se firmes em seus compromissos de lutar contra o aquecimento global. É mais uma reviravolta na nossa política externa, que deixa de ser regida pelo pragmatismo responsável para se tornar ideologicamente atrelada aos Estados Unidos.

Poucos dias depois, durante a 24ª COP, realizada na cidade polonesa de Katowice, surgiu um dado preocupante: o Brasil está entre os 18 países com mais perdas econômicas decorrentes de desastres climáticos. O ranking foi apresentado pela organização alemã Germanwatch, que reúne dados climáticos e socioeconômicos de 181 países. As perdas anuais passam de US$ 1,7 bilhão (R$ 6,4 bilhões) ao ano devido a eventos extremos como tempestades e inundações, na média dos últimos vinte anos, mas os efeitos da decisão de Bolsonaro também se espraiam sobre as exportações nacionais.

O presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, condicionou seu apoio ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul ao respeito ao Acordo de Paris. A verdade é que, cada vez mais, as exportações dependem de um selo verde de respeito ao meio ambiente. A ampliação da fronteira agrícola e a exploração de províncias minerais na Amazônia, defendidas pelo futuro governo poderiam causar danos graves ao comércio exterior brasileiro.

Protagonismo brasileiro

O Brasil sempre liderou a luta contra as mudanças climáticas. A questão começou a ser discutida durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), informalmente conhecida como a Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992, durante o governo de Fernando Collor de Mello. Com base nas decisões tomadas no encontro, firmou-se a UNFCCC que, ao longo de conferências anuais, chegou ao consenso do Acordo de Paris na 21º Conferência Oficial das partes.

O conceito de globalização da questão climática parte de uma constatação óbvia: não há cúpulas a separar os países. As fronteiras são imaginárias e arbitrárias. Descontando os elementos poluentes inerentes a cada região, um asiático respira o mesmo oxigênio de um povo nativo da Polinésia ou da Amazônia. A atmosfera que cerca o Planeta Terra é a mesma. Em suma: a humanidade compartilha espaço com outras espécies animais e vegetais em uma espécie de nave espacial equipada com um sistema de sobrevivência e de climatização frágil, como mostram os sinais de aquecimento presentes no desmanche progressivo e cada vez mais acelerado da calota polar.

Desta forma, as críticas contra o desmatamento da Amazônia feitas pelo governo da Noruega — rebatidas pelo futuro vice-presidente, general de Exército Hamilton Mourão, — devem ser levadas em conta. Proporcionalmente, os países escandinavos preservam mais que o Brasil. Setenta por cento da superfície da Noruega e da Suécia são de florestas.

Riscos de doenças

Há vinte anos, a Passagem Norte, que liga o Atlântico ao Pacífico, não podia ser utilizada durante nove meses. Hoje, ela pode ser franqueada durante todo o ano. Este fato justificou a criação de um novo componente militar da Federação Russa especializado em combate em ambiente ártico. O degelo do permafrost, outra consequência do fenômeno do aquecimento global, também preocupa: corpos congelados enterrados em cemitérios preservam micro-organismos extremamente perigosos que podem ser liberados com o aquecimento do solo.

Segundo o Siberian Times, um menino de 12 anos morreu em 1º de agosto de 2016, na Península de Yamal. Os médicos diagnosticaram antrax. Doze pessoas foram afetadas e 1.200 renas morreram. Segundo as autoridades médicas locais, a origem da doença poderia ser o cemitério local. Não houve surpresa. Cientistas alertaram para o risco em fevereiro de 1998, depois que recuperaram espécimes da Gripe Espanhola no pulmão do corpo de um marinheiro enterrado no permafrost em 1918.

Durante a COP24, a Organização Mundial da Saúde lançou um relatório alarmante: a exposição à poluição do ar causa 7 milhões de mortes por ano em todo mundo e os efeitos perniciosos custam US$ 5,11 trilhões.

Alerta americano

Uma das vantagens de uma democracia institucionalizada está na independência entre os poderes e das agências reguladoras. Enquanto Trump trombeteava a falácia do aquecimento global, um documento emitido por organizações governamentais estadunidenses alertava para o risco de centenas de bilhões de dólares de prejuízos em função das mudanças climáticas. A Quarta avaliação nacional climática volume II complementa um estudo publicado no ano passado que concluía que os seres humanos são os principais causadores do aquecimento global, e que alertava sobre seus efeitos potencialmente catastróficos ao planeta.

O relatório encomendado pelo Congresso listou estimativas dos impactos do aquecimento global em todos os setores da sociedade norte-americana, num aviso alarmante sobre a agenda pró-combustíveis fósseis do governo Trump. “Com o crescimento contínuo das emissões a taxas histórias, as perdas anuais em alguns setores econômicos podem chegar às centenas de bilhões de dólares até o final do século — mais que o atual produto interno bruto (PIB) de alguns estados norte-americanos”, diz o documento.

Segundo o texto, o aquecimento global afetaria desproporcionalmente os pobres, atingiria amplamente a saúde humana, danificaria a infraestrutura existente, limitaria a disponibilidade de água, alteraria limites costeiros e aumentaria os custos industriais tanto no campo quanto na produção de energia.

Embora o relatório diga que muitos dos impactos das mudanças climáticas — incluindo tempestades mais frequentes e mais poderosas, secas e inundações — já estão acontecendo, as projeções de danos ainda maiores poderiam mudar se as emissões de gases do efeito estufa fossem drasticamente contidas: “Os riscos futuros das mudanças climáticas dependem principalmente das decisões que são tomadas hoje”, diz.


%d blogueiros gostam disto: